O Brasil muda e já sabe aonde quer chegar

Como surgiu e ganhou força o projeto de homogeneização da sociedade de classes

Ano 2000 no Brasil. O século 21 finalmente chegara e com ele as centenas de promessas pessoais e coletivas, embaladas pela expectativa de um mundo diferente, de uma sociedade renovada, mas que ainda matem as históricas diferenças entre classes sociais.  Ao sepultar, como num passe de mágica, as previsões sobre o fim do mundo anunciadas de tempos em tempos pelos catastrofistas de plantão, nascia a esperança de um mundo novo, de um mundo melhor, que deveria ter o ser humano em todas as suas dimensões como centro das atenções.

Estamos em 2013. Passados treze anos, temos a certeza de que é preciso pensar na possibilidade de vivermos em mundo com mais justiça social, de acesso universalizado ao consumo, sem as históricas divisões de classes. Assistimos à derrocada de um “templo” do consumo, a Daslu, na capital paulista e, ao mesmo tempo, a incorporação das classes C e D no mercado consumidor.

Na linha dessa reflexão sobre um “mundo novo” e “fim do mundo”, pululam as teorias, novas ou com cheiro de mofo, tentando explicar o colapso de uma sociedade em uma era onde o progresso e a tecnologia parecem ser a única coisa que conta. É nesse cenário caótico de perspectivas impalpáveis que estamos tentando encaixar o ser humano e seu imaginário social, obviamente ainda turvo e deturpado por esse caos anunciado.

“Atravessamos um período, no qual a sociedade aposta em um Brasil, diferente, um país mais forte e mais justo”, diz o filósofo e jornalista Celestino Vivian. “Há no ar uma percepção de que todos, da criança ao idoso, passando pelas gerações jovens, estão pensando mais a nação, seja do ponto de vista político e econômico, como a partir de uma nova dimensão social e cultural.” E isso não é apenas resultado dos grandes eventos que colocarão o País em lugar de grande visibilidade no cenário internacional – Jornada Mundial da Juventude, Copa do Mundo e Olimpíada. “É, acima de tudo, resultado de uma nação que quer pensar os seus destinos, começando a dizer por onde quer caminhar e aonde quer chegar”, conclui Celestino.

Teorizando esse cenário de mudança e pensando na composição do imaginário social, temos que ele é considerado um conjunto de relações imagéticas que atuam como memória afetivo-social de uma cultura, um substrato ideológico mantido pela comunidade. Concluímos então que o imaginário social tem uma construção coletiva, já que é o depositário da memória que a família e os grupos recolhem de seus contatos com o cotidiano. Nessa dimensão, identificamos as diferentes percepções dos atores em relação a si mesmos e de uns em relação aos outros, ou seja, como eles se visualizam como partes de uma coletividade em transformação.

Bronislaw Baczko, filósofo polonês do século 20, assinala que é por meio do imaginário que se podem atingir as aspirações, os medos e as esperanças de um povo. É nele que as sociedades esboçam suas identidades e objetivos, detectam seus inimigos e, ainda, organizam seu passado, presente e futuro. O imaginário social expressa-se por ideologias e utopias, e também por símbolos, alegorias, rituais e mitos. Tais elementos plasmam visões de mundo e modelam condutas e estilos de vida, em movimentos contínuos ou descontínuos de preservação da ordem vigente ou de introdução de mudanças.

O imaginário não é apenas cópia do real. Seu veio simbólico agencia sentidos, em imagens expressivas. A imaginação liberta-nos da evidência do presente imediato, motivando-nos a explorar possibilidades que virtualmente existem e que devem ser realizadas. O real não é só um conjunto de fatos que oprime. Ele pode ser reciclado em novos patamares. O itinerário simbólico para a construção do imaginário social depende do fluxo comunicacional entre o emissor (que emite uma concepção de mundo integrada a seus objetivos estratégicos) e o receptor (que a decodifica ou não). São polos inseparáveis da organização estruturadora dos sentidos.

Nesse contexto das ideias de Bronislaw Baczko, no qual o imaginário social é uma construção coletiva, é possível então o fenômeno de massificação da sociedade contemporânea. As reflexões aqui apresentadas nasceram ainda no século XX, a partir das reflexões dos teóricos da Escola de Frankfurt, particularmente Adorno e Horkheimer, e foram desenvolvidas por Jean Baudrillard. Podem com grande proveito, ser aplicadas ao contexto histórico atual.

Afinal, vivemos uma realidade pautada pela completa inversão dos valores, onde o ser humano tem se reduzido, cada vez mais, a um objeto sujeito aos caprichos e interesses do capitalismo e da lógica mercadológica. Sua condição de alienação é tão profunda e latente que ele nem sequer consegue imaginar uma existência diferente da que vive. Podemos dizer que ele perdeu sua capacidade criativa.

Com essa breve análise sobre o imaginário social e o fenômeno da massificação pode-se visualizar que a sociedade no geral vem sofrendo um processo, ainda que incompleto, de homogeneização. Os estudos sobre as classes sociais e as desigualdades discrepantes em relação aos sonhos e aspirações de cada indivíduo podem ser equiparados no momento em que tentamos sair de cenário de classes e passamos ao que chamamos de sociedade de consumo, mas em ambiente socioeconômico mais justo. É uma transformação profunda e também difícil. Talvez Albert Einstein tenha vislumbrado um momento como esse com sua frase dita na primeira metade do século passado: “Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.

A virada começou no final dos anos 80

Com a imensa mobilização popular em torno da campanha pelas Diretas Já, que marcou o fim do regime militar, em 1985, a população brasileira e os jovens da época escancararam seu grito por mudanças, represado durante os 20 anos da ditadura. Logo depois, veio a Constituição cidadã de 1988, que criou as bases legais para um novo Brasil, mais justo com cada um de seus cidadãos. Em seguida, veio a decisão de abrir as portas do Brasil para o exterior – mesmo que isso tenha custado a reafirmação do caráter subordinado do capitalismo brasileiro –  inserindo o país no mercado mundial e permitindo o início de um crescimento aparentemente sustentado. Depois, com a estabilização da moeda, criaram-se as bases que permitiram a implantação de um modelo de desenvolvimento capaz de trazer para dentro dele todos os brasileiros, não apenas os mais ricos e aquela chorosa classe média sempre temerosa de perder sua estabilidade e seus privilégios.

Caminhamos depressa na última década. O sonho de mais justiça social que vislumbramos na virada para o século 21 já é uma realidade. As políticas públicas implementadas nos últimos anos conseguiram trazer a imensa maioria dos brasileiros para a sociedade de consumo. São essas condições de quase pleno emprego e distribuição de renda que conseguiram impulsionar a elevação da demanda e, por tabela, o desenvolvimento de uma indústria nacional forte e competitiva. Obviamente, ainda engatinhamos no domínio das modernas tecnologias, capazes de agregar valor aos nossos produtos, tanto os canalizados para o mercado interno como os exportados. Mas estamos avançando.

Pois bem, chegamos a uma sociedade de consumo no seu conceito tradicional, de acordo com a cartilha do capitalismo, lucro a qualquer custo e consumo desenfreado. No entanto, num mundo em busca de um desenvolvimento sustentável e ambientalmente correto, será suficiente ficarmos satisfeitos com a universalização das possibilidades de consumo? Chegou a hora – e esta é a grande mudança que buscamos – de saber distinguir os benefícios de uma sociedade de consumo, com oportunidades iguais para todos, de um modelo consumista.

Consumismo arraigado é sinônimo de ser e poder

Está na hora de suspender esse jogo que estamos jogando sem paradas, essa busca incessante de consumir cada vez mais. Mas não é uma missão fácil dizer a um jovem que chega à sociedade de consumo que o consumismo acabará castrando seus anseios de ascensão social.

Para muitas pessoas, o que ainda vale é a quantidade, a marca, o valor. Cada dia surgem mais produtos e mais “funções” para todos os tipos de mercadoria. O sonho de muitos jovens brasileiros ainda está diretamente relacionado ao poder de compra. Não importa a qual classe pertença esse jovem. Pode ser de classe alta, estudar em colégios excelentes ou de classe baixa, matriculado em colégio público – esse jovem do qual estamos falando tem seus sonhos e objetivos diretamente ligados ao consumo.

Os sonhos convergem para uma mesma direção: obter bens materiais e bens sociais. Há uma consciência de que um dos caminhos para alcançar o objetivo e concretizar sonhos é a educação. Mas quando o jovem trata desse assunto, ele coloca a própria educação como um bem a ser consumido. Todos sonham com um futuro próspero e gostam de utilizar a expressão “viver bem”. É muito comum ouvirmos jovens teorizando que não precisam de muito dinheiro, não querem ser milionários, que apenas querem ter o suficiente para “viver bem”. O que não percebem é que o “viver bem” está totalmente pautado no consumo. Querem consumir saúde, educação, roupas, comida, viagens, lazer, conhecimento. Vivem, diferentemente de outras gerações, uma era de pluralidades, da multifuncionalidade. Não sabem fazer uma coisa de cada vez. Ao mesmo tempo estão lendo, ouvindo música, conectados ao computador, às redes sociais e ainda à TV. Esse é o jovem de hoje, o jovem que consome mais que qualquer outro das gerações anteriores. Tem uma capacidade inexplicável de fazer uma enorme quantidade de coisas ao mesmo tempo.

O documentário Surplus, do diretor Erick Gandini, lançado em 2003, consegue retratar bem o que é essa sociedade de consumo no contexto do mundo contemporâneo. Aprofundando mais a questão, o documentário aborda todo o mecanismo que garante esse consumismo, como, por exemplo, a ideologia difundida de que a tecnologia é uma ferramenta para a aproximação das pessoas, discurso esse que acaba sendo utilizado para o desenvolvimento de mais e mais produtos, que serão os novos aparelhos indispensáveis do momento. Ressalta-se, assim, todo o poder da propaganda que existe nos dias de hoje. Propaganda essa que é realizada não só pelas empresas, mas também pelos governos que precisam garantir que a economia do país continue funcionando em pleno vapor.

Sendo assim, a ideia de que o que é ofertado não necessariamente tem demanda garantida chega a ser questionada pela agressividade da propaganda. É difícil dizer que um computador não é uma necessidade básica para um adulto, adolescente e até mesmo uma criança. O estilo de vida é criado ou redefinido. Quantas vezes deixamos de nos alimentar bem ou dormir direito para realizar alguma tarefa inadiável? Tudo para garantirmos uma estabilidade financeira futura que nos permita ter espaço na sociedade, ou, em outras palavras, que nos permita comprar ou fazer o que quisermos. A ideia do que é necessidade básica para as pessoas é constantemente alterada ao longo do tempo. Não precisamos simplesmente nos alimentar, precisamos nos alimentar de tal forma, comer tal marca de produto, em tal quantidade e assim por diante. Desses pressupostos temos em nossos imaginários a ideia de que quanto mais consumimos, mais livres somos.

Três jovens falam de seus sonhos

Eles vêm de mundos distintos e comprovam a teoria aqui desenvolvida de que a sociedade de classes está convergindo para uma sociedade de consumo, ainda incapaz, porém, de distinguir consumo sustentável de consumismo.

Para uma análise qualitativa e não quantitativa, foram ouvidos jovens de realidades diferentes, porém bem definidas – Fernando Martins, 18, Daniel Lopes,16, e Marcele Teodeschi,16.

O primeiro acabou de completar seus 18 anos e finaliza em 2013 o ensino médio. Mora com os avós em uma comunidade da zona sul de São Paulo. Não conhece seu pai e não tem muito contato com a mãe. Está cursando o terceiro e último ano do ensino médio. Surpreendeu-se com a pergunta inicial – “se você encontrasse o gênio da lâmpada mágica, quais seriam seus três desejos? – e esboçou logo um sorriso. Explico que devem ser desejos específicos e não saúde, amor e paz. Não houve surpresa. Sua resposta está ligada ao consumo, mesmo demorando a se decidir, pois, segundo ele, três pedidos não são suficientes. Finalmente respondeu que pediria uma casa maior e melhor para acomodar a sua família, um carro importado, que ele diz ser seu grande sonho, e um negócio próprio ligado a carros. E concluiu: “Eu não preciso de muito, só quero ter o suficiente para poder ter as minhas coisas sem passar perrengues”.

Daniel Lopes mora com os pais, bancários, na Zona Norte de São Paulo, e estuda em uma escola particular perto de sua casa. Foi mais incisivo. O primeiro desejo seria passar no vestibular da USP – “eu quero fazer uma boa faculdade para poder ser bem-sucedido profissionalmente; quero ser engenheiro; tenho facilidade com matemática e ainda é uma carreira que dá dinheiro”. Os outros pedidos eram de poder viajar o mundo e ter sua casa própria assim que completasse os 18 anos.

Marcele Teodeschi, jovem de classe alta, filha de um médico com uma anestesista, diz ter consciência de que tem de tudo e vive muito bem e que gostaria de manter o padrão de vida que tem hoje. “Eu quero mesmo é viajar o mundo, estou tentando convencer o meu pai de me dar uma dessas passagens em que você pode viajar para até 15 lugares em 6 meses. Assim que eu terminar o colégio, pediria isso para o ‘gênio’”.  Afirma que seria ótimo passar em uma faculdade pública e logo em seguida ganhar o seu carro. Para esses dois últimos desejos, ela diz que talvez nem precise do “gênio”, já que tem a promessa de ganhar o seu tão sonhado carro automático se realmente passar em uma universidade pública.

Eles são bons exemplos de que o sonho do jovem de hoje é muito parecido. Todos são influenciados pela sociedade na qual vivemos hoje, a sociedade de consumo – ou será do consumismo?

No que podemos acreditar

Desse esforço para entender a realidade brasileira e o que pensam as novas gerações, com um olhar no grande sonho de inserir todos os brasileiros na sociedade de consumo, sem cair nas armadilhas do consumismo, é possível chegar, de forma simples e rápida, a três grandes conclusões.

Um país mais igual nos tornaria mais felizes.

O país, nesse movimento de universalização de oportunidades na saúde, na educação, na habitação, no lazer etc., deve abraçar a bandeira da sustentabilidade. Somente assim teremos sempre riquezas para distribuir e compartilhar. A todos cabe a missão de levar nossas famílias, nossos jovens e nossas empresas a abraçar o desafio de reduzir a poluição, de fazer coleta seletiva de lixo, de evitar o desperdício de alimentos, enfim, de salvar a natureza.

O país e cada um de nós precisa acreditar na mudança, em um mundo mais justo e mais sustentável.

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