A Anarquia da Arte

O surgimento da Arte Postal como alternativa à arte burocratizada das galerias e sua sobrevivência frente ao surgimento de novas mídias.

Imagine chegar em casa após um longo e exaustivo dia de trabalho e estudos, abrir a caixa do correio e ver que o carteiro só te deixou uma pilha de contas para pagar. Desanimador, não? Agora imagine que junto a essas contas, venha um envelope de endereço e remetente desconhecidos. Você, curioso, abre o envelope e descobre que seu conteúdo é um cartão postal artístico. Melhor?

Os participantes de grupos de Arte Postal dizem que essa experiência de chegar em casa após um dia cansativo e ver que em meio a contas do mês se encontra um pequeno envelope anônimo, alegra o dia, tornando-o mais leve e gostoso. Para Raquel Marques, artista e professora de artes na Rede Municipal de Jandira, “a melhor parte da Arte Postal é a troca, a ansiedade de saber se a pessoa recebeu, se gostou. É a sensação de receber uma carta quando menos se espera e isso mudar todo seu dia”.

 

A Arte Postal surge nos anos 1960 a partir do compartilhamento de criações artísticas através dos correios, como uma alternativa às exposições de arte. O marco do seu surgimento é a criação da “New York Correspondance School of Art” em 1962 pelo artista americano Ray Johnson.

Johnson rompeu com o conceito de privacidade das cartas ao utilizar o envelope para se expressar, escrevendo frases e colando imagens no lado externo, de forma que qualquer um pudesse ver o que estava sendo enviado. Ele não limitava o envio para seus amigos e conhecidos, e trocava postais com quem quer que enviasse cartas à escola, formando assim uma grande rede de artistas.

O artista, porém, não foi o primeiro a utilizar os correios para difundir arte. Pintores e escultores como Pablo Picasso, Henri Matisse, Marcel Duchamp e Francis Picabia já utilizavam os correios para compartilhar sua arte com seus colegas. Os vanguardistas enviavam obras por correio para pedir opiniões, incrementos e divulgar para seus amigos suas novas criações. Futuristas e dadaístas defendiam que qualquer pessoa poderia intervir em uma criação, os surrealistas acreditavam no coletivismo e intercâmbio de obras, e os seguidores da corrente Merz introduziram a lógica da não comercialização de obras, fatores captados pela Mail Art.

A década de 1960 viu a bipolarização do mundo e o nascimento de regimes ditatoriais, e a arte refletia esse momento, no qual as ideias e os conceitos reproduzidos eram mais importantes do que a arte como peça. Ray Johnson fazia parte de um grupo de pessoas interessadas em fazer com que o objeto artístico voltasse a ser mais importante que a ideologia retratada e, a partir da Mail Art, ajudou a criar uma nova visão de arte.

A Arte Postal surgiu também em resposta à mercantilização da arte, que estava sendo julgada e burocratizada, restringida a galerias. Para o movimento, arte é um meio de comunicação e expressão, e não uma mercadoria. A utilização dos correios é uma forma de democratizá-la, tornando-a participativa e acessível para todos.

Uma das características mais marcantes da Mail Art é a formação de uma rede de contatos alimentada por uma lista de endereços, da qual qualquer pessoa pode entrar ou sair a qualquer momento.

As regras do movimento foram criadas conforme o seu desenvolvimento. Os pontos mais importantes são: as obras não podem ser comercializadas, julgadas, devolvidas ou censuradas; todo postal recebido deve ser respondido e, para receber um postal, é preciso primeiro enviar um para qualquer pessoa da lista. É essencial que a arte seja produto da comunicação e que haja a possibilidade de um intercâmbio cultural, artístico e político.

No Brasil, a Arte Postal caminhou com a luta pela liberdade de expressão. Seu surgimento coincide com a Ditadura Militar, período no qual muitos artistas tinham suas obras condenadas. Buscando um meio de se expressar e comunicar sua revolta sem sofrer censura, os artistas aderiram à Mail Art.

Assim como outros movimentos contrários ao sistema, ela acaba caindo nas teias dos militares. Em 1975, os artistas Paulo Bruscky e Daniel Santiago são presos após a abertura da 2ª Exposição Internacional de Arte Postal organizada no Recife, fechada pelos militares uma hora após sua inauguração. A prisão da dupla teve repercussão internacional, escancarando para o mundo a ditadura que não só o Brasil, mas outros países latino americanos também enfrentavam.

Reprimida, a Arte Postal volta a se fortalecer somente na década de 1980, quando ganha uma sala na 16ª Bienal Internacional de São Paulo, contando com a apresentação de obras de quase 400 artistas do Brasil e do exterior. Apesar de favorecer o movimento por dar-lhe maior visibilidade, a existência de exposições de Mail Art é um tanto contraditória, uma vez que ela surgiu com o ideal de que a arte deveria ser livre e circular fora das galerias.

A contradição não está somente nas exposições, mas também no que foi feito com o material exposto. Se a princípio a Arte Postal tinha como intuito ser algo não colecionável, hoje existe na Pinacoteca Municipal de São Paulo, o Escritório de Arte Postal, com seis coleções e cerca de 3.500 peças catalogadas.

A parceria com universidades também parece ir contra o princípio de não institucionalização da arte. Porém, por não terem características típicas de mercado e não visarem o lucro, as universidades não agridem os princípios do movimento. A Universidade Estadual de Campinas tem grande papel no processo de manutenção da Arte Postal. Há na universidade o Núcleo de Arte Postal da Unicamp, que, criado na década de 80, promoveu uma série de eventos e intervenções artísticas com objetivo de estimular a criação em rede, recebendo postais de diversos países.

A Arte Postal viveu diversos momentos. Criação em 1960 a partir do desejo de fazer uma arte desburocratizada e participativa, ascensão em 70 com a ampliação e surgimento de novas redes de relacionamentos, ganho de espaço e visibilidade com a realização de exposições em museus e em universidades em 80. Nos anos 90, com o surgimento de novas mídias, foi o momento de adaptação e luta pela sobrevivência.

Enganou-se quem pensou que a Mail Art se extinguiria com o surgimento do telefone e da internet. Mesmo que a tendência atual seja que as pessoas utilizem cada vez menos os correios, a troca de postais se modificou, ganhou novos adeptos e visões, e sobrevive.

Se antes da internet rodavam listas de endereços nas exposições e nas próprias cartas, hoje as pessoas se organizam utilizando o e-mail ou o Facebook. Através de grupos criados nas redes sociais, formam-se as redes de artistas e organizam-se as convocatórias, postagens que convidam os participantes a desenvolver sua arte sobre um determinado tema.

As únicas regras do grupo do Facebook “Arte Postal” criado por Bruno Perê em janeiro deste ano são: para receber um postal é preciso primeiro enviar, e, todo postal recebido deve ser postado no grupo.

Há total liberdade de criação, as obras podem ser feitas com diversas técnicas – colagem, desenho, fotografia, estêncil – ficando a critério do artista. Não há nenhuma espécie de censura quanto ao material a ser enviado, mas Lautaro Salgado, fotógrafo e gestor cultural, diz que tenta não enviar algo que possa desrespeitar seu destinatário.

Como o grupo de Perê é pequeno, os participantes dizem não ter receio de expor seus endereços para desconhecidos. Lautaro afirma que, inevitavelmente, a maioria dos seus dados pessoais podem ser encontrados na internet. Já a designer Carolina Daffara e a professora Raquel Marques seguem por outra linha, confiam nos integrantes do grupo, já que a maior parte deles é de “amigos de amigos”. A primeira considera “pouco provável” que alguém queira lhe causar algum prejuízo através do endereço, e a segunda brinca que “tecnicamente é uma rede segura. E se alguém aparecer pessoalmente na minha porta entregando o postal, vai ser o máximo, vou adorar e convidar a pessoa pra entrar e tomar um suco!”.

Lautaro entrou na comunidade há apenas dois meses com o intuito de divulgar seus projetos, mas participa de outros grupos de Arte Postal. Para ele, a melhor parte é poder “descobrir artistas, ideais e beleza. Poder trocar e democratizar a arte”. O uruguaio afirma que uso da internet pode facilitar a comunicação para “saber das chamadas, projetos e convocatórias”, além de democratizar o movimento, ideia da qual a professora de artes Raquel Marques discorda, uma vez que “se a pessoa fizer um desenho à mão e não tiver um scanner ou câmera, ela terá outras dificuldades para que o trabalho chegue ao seu destino”.

O uso da internet com certeza facilitou o processo para os artistas postais, que não precisam mais procurar listas de endereços, ir até uma agência dos correios, custear o envio e não saberem se a carta enviada chegou ou não ao destinatário. Mas quem disse que essas pessoas preferem o fácil? Para Raquel, a delícia é que o objeto físico tem um trabalho individual e pessoal, que é muitas vezes feito por um desconhecido para outro igualmente anônimo: “vai ter a letra da pessoa no envelope, vai ter o gesto marcado no traço do desenho, a digital na colagem, o tempo que ela usou para preparar aquilo para você, o deslocamento dela até uma agência, a espera na fila, o tempo que a carta percorreu até chegar em você”.

O uso de novas plataformas, porém, não substitui a troca de objetos físicos. Para a Carolina Daffara, a aura da carta enviada pelo correio é diferente, “incomparável a um e-mail”, uma vez que “o objeto real e físico toca outros sentidos que não apenas a visão”.

“Uma imagem virtual é reproduzível, uma carta é um objeto único”, afirma Carolina. Além da unicidade das imagens, Laurato ainda ressalta que a qualidade pode ser prejudicada quando se envia um postal pela internet, uma vez que “muitos artistas trabalham com as mãos, não com arte digital” e “a textura não se reproduz na internet e, em muitos trabalhos, é um elemento muito importante”.

Raquel, por sua vez, considera “super válida a troca pela internet”, mas vê o instauro de “outra dinâmica, que se configura na construção das relações, outros gestos”, porque apesar de mais rápida e prática, a internet vive a contradição de parecer “desconectar todo mundo”.

Em uma época em que tudo é imediato e as pessoas vivem correndo, a professora de artes desabafa: “o correio traz de volta aquela ‘magia poética’ do tempo, de te fazer esperar por algo”. Para ela, participar de um grupo de Arte Postal “é estar preparando a resposta e não saber se, de repente, a pessoa que te enviou um postal está preparando outro, ou se outra pessoa também está pensando em algo pra fazer pra você. Acho muito poético e muito louco essa dinâmica que acontece da vida em movimento, da criação de novas relações e conexões”.

Apesar de favorecer essas novas conexões, muitos participantes do grupo nunca desenvolveram maiores relações entre si. Raras vezes alguém adiciona um outro integrante no Facebook, por exemplo, a menos que a pessoa seja um conhecido. Raquel defende, porém, que “a troca de correspondências já é uma forma de ‘adicionar’ a pessoa na sua vida, sem necessariamente estar conectado pelo facebook, a cada postal trocado sinto como se ganhasse um novo amigo, uma parte dele. É um estreitamento de relações nesse mundo louco e (des)conectado que vivemos”.

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