A herança dos barões de café não se resume a pó na Avenida Paulista

Casarões são poucos, mas ainda compõem a paisagem de uma das vias mais famosas do país

O MASP, o Conjunto Nacional, a Fundação Cásper Líbero, o prédio piramidal da FIESP. Essas são respostas comuns quando se pergunta quais as construções mais famosas da Avenida Paulista, em São Paulo. A via se tornou cartão-postal da cidade e símbolo do poder empresarial. O mar de prédios, o predomínio do cinza misturando-se aos grafites coloridos e às árvores sobreviventes, tudo isso se mescla numa desorganizada harmonia para formar a paisagem paulistana.

Mas o que já foi a Avenida Paulista? Qual o passado que existia num dos lugares mais movimentados do Brasil? Difícil responder. Pouco resta da época dos grandes barões do café, dos bondes e de casas residenciais às margens da via. Hoje, caminhar na Paulista é andar em um microcosmo, em um patrimônio histórico. Patrimônio representado atualmente pelos arranha-céus, mas que antes fora pelos casarões e sobrados.

Quem contra quem na preservação dos casarões?

A luta para preservar o passado histórico da cidade de São Paulo tem alguns inimigos, como o tempo, gestões de patrimônio desastrosas e o abandono ou destruição daquilo que não gera lucro. Mas para o presidente da Associação Preserva SP, Jorge Eduardo Rubies, o maior vilão é o mercado imobiliário.

A conversa com Jorge ocorreu na própria sede da entidade: um prédio antigo, localizado no centro histórico de São Paulo, ao lado da Catedral da Sé. O apreço pelos tempos que já passaram pode ser percebido a partir do elevador de madeira até o mobiliário da sala. Atrás da mesa, uma janela de vidro mostra a Praça da Sé. Nas estantes, livros sobre arquitetura e meio ambiente.

A Preserva SP, reconhecida pelo Ministério Civil como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, defende a proteção do patrimônio cultural, histórico e também do meio ambiente. A entidade é jovem, foi fundada oficialmente em 2007, e se fez presente em diversas situações em que casas históricas da Avenida Paulista estavam envolvidas.

Um exemplo envolve o casarão Dina Brandi Bianchi. Antes localizado no número 91 da Paulista, a construção era uma das últimas elaboradas no início do século XX. O imóvel foi vendido para a empresa Even Construtora e Incorporadorae demolido no ano passado. Hoje, ao passar em frente do terreno de mais de 1300 m², tudo que se vê são andaimes, operários e uma estrutura em andamento. O futuro prédio comercial contará com escritórios distribuídos em aproximadamente 12 andares.

A Preserva SP tentou salvar o casarão, por meio de manifestações e pela requisição de um tombamento. No entanto, a ação ocorreu muito rápido. Em apenas uma noite, tudo foi demolido. Para Jorge Rubies, se trata de mais um caso da “luta de um Davi contra Golias, sendo que o Golias é 150 mil vezes mais forte que o Davi.”

Ele alerta ainda para o poder que as imobiliárias possuem, e acredita que possuem grande influência sobre as decisões políticas: “Infelizmente a especulação imobiliária domina de uma forma tão absoluta a cidade, que o patrimônio histórico fica sempre em segundo plano. Eles querem mais é passar o trator mesmo.”

Na opinião de Rubies, há uma relação direta entre o poder que as imobiliárias exercem e o dos políticos e autoridades. “As construtoras dão dinheiro para eles se elegerem, e consequentemente, conseguem autorização para qualquer obra.”

Tombados e de pé: a Casa das Rosas e outros casos

A Avenida Paulista conta hoje com cinco casarões em estados de conservação distintos. São eles o Instituto Pasteur, duas agências bancárias, o casarão Franco de Mello e a Casa das Rosas, que ocupa o número 37 da via. Esta é provavelmente a construção que se encontra em melhores condições.

Foi construída em 1935 pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo, e habitada por sua filha até 1986, um ano após ser tombada pelo governo do Estado.

Hoje, a Casa das Rosas é aberta ao público, conta com exposições culturais (como sobre a vida e obra do poeta Haroldo de Campos), cursos para escritores e clubes de leitura. Por dentro, mantém seus aspectos originais, tendo apenas restaurado os pisos, vitrais e escadas. Do lado de fora, telhas, beirais e janelas também têm os mesmos materiais e formatos.

O terreno, no entanto, sofreu alterações. Um prédio espelhado comercial de mais de 20 andares se localiza atrás do casarão. A historiadora Ana Carolina Rodrigues, responsável pelas visitas guiadas no local, conta que houve um acordo para a construção do edifício, nos anos 90. “Foi feito entre o governo e a construtora, que pagaria o primeiro restauro da casa em troca do terreno. É meio confuso, não se sabe ao certo se eles passaram a ser proprietários do terreno todo ou de apenas uma parcela”. Ela também ressalta que todos os gastos com o casarão são custeados pela Secretaria de Estado da Cultura.

Os proprietários do Condomínio Edifício Parque Cultural Paulista são inclusive responsáveis pela manutenção dos jardins da Casa das Rosas, famosos justamente pelas roseiras. Mesmo assim, para o presidente da Preserva SP, Jorge Rubies, o balanço da situação é positivo: “É um caso em que todo mundo ganhou. A cidade ganhou, a construtora ganhou, a população ganhou. Poderia se replicar esse exemplo em todos os casarões da Paulista, porque os terrenos em geral são enormes. Nada impede que se aproveite o espaço, desde que se preserve o patrimônio”.

Dois outros casarões estão bem preservados, ainda que somente pelo lado de fora. As construções de fachada branca se destacam no meio de prédios envidraçados e calçadas cinzentas; ambos pertencem a instituições financeiras. A antiga Casa das Uvaias, no número 1811, se tornou uma agência do Itaú Personalité, e o outro casarão, no número 709, é um banco Santander. Por dentro, são bancos comuns, modernos, com caixas eletrônicos e até tablets para os correntistas utilizarem. Mesmo assim, se mostraram como alternativas para relembrar a primeira metade do século XX na Avenida Paulista.

O Casarão Franco de Mello e o mito do tombamento

O Casarão Franco de Mello é talvez o mais triste dos exemplos de construções históricas que a Avenida Paulista oferece. Frequentemente envolvido em embargos e processos judiciais, seu estado de conservação é muito diferente da Casa das Rosas ou dos bancos anteriormente citados.

Essa construção é um caso a parte. Tombada no ano de 1992 pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat), foi o segundo processo da história de São Paulo em que um proprietário foi indenizado por um tombamento. Isso porque os donos afirmavam ter sofrido prejuízos por não poder vender o prédio.

De acordo com a ação que chegou ao fim no ano passado, o governo do Estado deveria pagar R$110 milhões aos donos, além de se tornarem responsáveis pelo imóvel. Porém, essa desapropriação indireta ainda não foi realizada. Não se sabe também se o valor já foi pago.

O principal argumento dos proprietários para que recebesse a indenização foram os prejuízos causados pelo tombamento. Conforme apontam entrevistas dadas por Renato Franco de Mello a outros veículos da imprensa, qualquer tentativa de aproveitar economicamente o imóvel era legalmente frustrada.

Já o presidente da organização Preserva SP, Jorge Rubies, afirma que isto é uma mentira. “A especulação imobiliária criou uma ideia falsa de que o tombamento prejudica o bem. Tombar um imóvel não impede que ele se transforme em uma loja, por exemplo. Só é necessário manter os aspectos estéticos originais, como a fachada e a disposição dos cômodos, etc”.

Segundo o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), o tombamento não impede que o imóvel seja vendido, alugado ou adaptado ao novo uso, desde que não se descaracterize o mesmo. Ainda de acordo com o órgão, caso sejam necessárias mudanças físicas, é preciso elaborar um projeto arquitetônico a ser analisado e aprovado pelos órgãos de preservação.

O imóvel ocupa o número 1919, e embora suas estruturas estejam preservadas, há avarias na fachada que dão certo ar de abandono à construção. Muros pichados, grades enferrujadas e vidros quebrados nas janelas transmitem a sensação de que ninguém vive lá há muito tempo, embora não seja bem assim.

O atual proprietário, Renato Franco de Mello, não foi encontrado pela reportagem. Um pedinte, que não quis se identificar, diz ficar o dia todo em frente ao casarão. Ele afirmou que o “Doutor Renato” ainda vive lá, mas “passa muito tempo fora de casa”.

Contradições a parte, o Casarão Franco de Mello é um daqueles casos em que a preservação do passado histórico compete com aspectos econômicos. Além disso, o auxílio dos órgãos públicos é questionado por todos os lados da história: proprietários, imobiliárias e manifestantes pró-conservação. Discute-se muito, por exemplo, a necessidade de continuar pagando integralmente o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) após o tombamento, ou ainda, a demora em quaisquer processos envolvendo edifícios tombados.

Enquanto isso, um dos principais cartões postais de São Paulo, se mantém como uma espécie de patrimônio. Futuro e passado compõem um único cenário. E por mais que alguns arranha-céus substituam alguns casarões, sempre haverá memória. Alguma memória. Seja na fachada do que está conservado, seja nos resquícios do que foi destruído.

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