AS BANCAS DO CORAÇÃO DE SÃO PAULO

A Avenida Paulista é um dos mais movimentados locais da capital. Ao longo de seu trajeto, chamam atenção as várias bancas de jornal encontradas. E na luta árdua pela sobrevivência do material impresso em meio a inserção do digital, são necessárias novas estratégias para a rentabilidade continuar alta.

Não é preciso de muito. Sentido Consolação ou Paraíso, bastam alguns passos para se deparar com as bancas de jornal da Avenida Paulista, uma das mais modernas avenidas da América Latina. Como tal, alguns adjetivos lhe são peculiares: movimentada, agitada, acelerada. Apesar da intensidade e do ritmo frenético, há quem encontre tempo para dispensar a correria do dia a dia e desfrutar um pouco do que as bancas têm a oferecer.

“Compro aqui há 30 anos, sempre pelas manhãs, todos os dias.” São palavras de Douglas Araújo, radialista aposentado e eterno admirador das bancas. “Gosto de vir até a Paulista, andar pela cidade e de quebra ter o prazer de sentir o cheirinho do papel de jornal. Além disso, revejo toda equipe”. A equipe a que se refere Douglas é a da “Banca Gazeta”  que está há praticamente uma década sob o comando de Cristina Braulio – próximo a altura do número 900. Ao longo de 20 anos de sua vida, administrou 5 bancas e entende do assunto.

Por outro lado, as condições para a entrevista com ela não eram tão favoráveis. Dinheiro de um lado para o outro, som agudo e estridente da caixa registradora. Clientes entrando, saindo, exigindo atenção. Alguns folheavam as revistas, outros nem se interessavam e iam embora. Enfim, não foi fácil conversar com Cristina. Nem por isso ela deixou de nos atender. Entre uma venda e outra, não hesitou nem um pouco ao confessar que sempre lutou muito para chegar até a Paulista: “Trabalhei em outros pontos. Esta Avenida é lugar de desejo pelo movimento que abrange. O fluxo de pessoas é muito grande. Não importa o trecho, muita gente passa”.

E junto desta “gente”, passam também desejos distintos. Há quem queira balas, chocolates, chicletes e salgados. Outros preferem apreciar as obras de Nietsche, Descartes, Gandhi e demais pensadores. “É impressionante a pluralidade de interesse das pessoas. Já vi de tudo praticamente. Outro dia, um senhor perguntou se aqui vendia celular. Respondi que ainda não (risos).” Após a descontração, prosseguiu: “É inevitável, as pessoas veem na banca um comércio em que cabe de tudo um pouco”.

Nessa linha vai também o funcionário da “Banca Paulista II” – próximo ao número 750 – Juliano Jesus Santos. Há 4 anos ele trabalha com isso e, embora não seja o “dono”, sabe que a Paulista é referência pelas diversas práticas culturais e visões de mundo distintas daqueles que por ela passam. “É um local que reflete as diferenças São Paulo. Isso tem valor imensurável. Acho este o principal fator capaz de fazer da banca da Avenida Paulista um comércio arejado em que pode-se encontrar muita coisa diferente”.

Esta pluralidade, segundo Cristina, não é nada ruim. Pelo contrário, é reflexo da versatilidade cada vez mais almejada. “Aquele que vê as bancas unicamente pela possibilidade de compra de revistas, jornais e livros, não acompanhou a evolução necessária pela qual passaram”. Necessária porque não há mais condições de se sustentar uma banca somente pela venda de jornais e revistas.

Segundo dados de pesquisa realizada em 2012 pela agência Toolbox TM – Trade Marketing Know How, 68% das bancas vendem também gomas e confeitos e 52%, bebidas refrigeradas. A tendência vai além da Paulista: no estado de São Paulo, 54,4% comercializam cigarros. A pesquisa também apontou que, em média, as bancas faturam R$ 900 reais por dia nas maiores cidades. Mais de 3.200 bancas foram consultadas.

Por isso, uma banca de jornal moderna é sinônimo de bomboniere, tabacaria e dependendo de seu público outras coisas mais. No caso de Cristina, até por papelaria sua banca se passa: “Estamos em frente a um cursinho, a um colégio e a uma faculdade. Este conglomerado de estudantes não pode ser dispensado. Temos de nos adaptar ao público”.

Da mesma maneira, Juliano tenta se adaptar. No caso da banca em que trabalha, a estratégia é buscar um diferencial. “É a maneira para atrair um público fiel. Aqui nós temos a máquina de recarga do Bilhete Único, isto nos ajuda muito. Grande parte do nosso movimento é consequência disso, pois somos a única banca da Paulista que conta com o serviço”. Juliano ainda acrescenta que a maioria dos que vêm buscando recarregar o bilhete acaba consumindo outras coisas. Os atrativos não são mais protagonizados pelo material impresso.

Na década de 80, a situação era diferente. Maria Julieta Xavier, de 68 anos, conta que quando trabalhava na banca da Avenida Pavão – esquina com a Avenida Santo Amaro – jornais e revistas bastavam para uma rentabilidade alta. “Cigarros, nem pensar. O máximo a que chegávamos era a venda de brinquedos – peão, bolinhas de gude, carrinhos – até porque as crinças tinham mais liberdade para ficarem na rua naquela época. Mas era um detalhe. 80% da fatura vinha das revistas e dos jornais.”

Ao seu modo de ver, esta mudança no panorama das bancas de jornal é positiva, pois “revela um avanço grande da plataforma digital.” Talvez sua aposentadoria contribua para este posicionamento, pois tanto Juliano quanto Cristina – que dependem da renda das bancas – concordam que a internet deslocou o serviço: “Há de chegar um tempo em que as bancas de jornal venderão tudo, menos jornal.”, confessa Juliano.

Além disso, não se pode esquecer que o número de bancas na Paulista é alto. Afinal, são mais de 15 num espaço relativamente pequeno para ser dividido entre tantas. Neste ponto, as visões são distintas. Cristina crê que o atendimento e a atenção são suficientes para assegurarem que os clientes se fidelizem a uma banca. “São muitas, mas num local como a Paulista, cada trecho é frequentado por pessoas que sempre passam pelo mesmo. Quem desce no metrô Consolação para ir trabalhar vai se deparar com as bancas perto desta estação. Na Brigadeiro, o trecho é outro, as bancas são outras. Enfim, o grande diferencial daqui é que o movimento independe do trecho, todos são agitados”.

Já Juliano acredita que isto é um obstáculo, mas pequeno em relação às bancas bairristas. “Nelas a rentabilidade é boa somente se o próprio dono fica auxiliando as vendas e cuidando de tudo. Hoje não há mais possibilidades de se ter funcionários. Acho que a única exceção é aqui na Paulista. Que bom porque é aqui o meu ganha pão (risos).”

Após muito trabalho de apuração, o que resta dizer é que além dos restaurantes, bares, prédios empresariais, museus e veículos de comunicação, a Avenida Paulista também dá força e sustentação às bancas de jornal. Trata-se de um local onde muitas opções podem ser encontradas. Nem por isso a multiplicidade esvazia o coração de São Paulo. Afinal, como disseram aqueles que foram entrevistados, a Paulista consegue fazer da pluralidade sua maior virtude.

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