Batalha nas faixas

Batalha nas faixas

A luta diária dos ciclistas contra os motoristas paulistanos

                Avenida Paulista, área que começou a ser urbanizada no final do século 19, se tornou o maior centro empresarial da América Latina, onde se localizam alguns dos mais importantes pontos da cidade: a Casa das Rosas, o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e a sede da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). A avenida é vítima da grande concentração, além de pessoas, de meios de transportes: carros, ônibus, taxis, motocicletas e bicicletas.

                Não é de hoje que a disputa entre automóveis e bicicletas no trânsito paulistano vem se intensificando nesse marco da cidade de São Paulo.

                Cercada por diversos restaurantes, dezenas de prédios comerciais, bancos, shoppings, faculdades, escolas, etc., o tráfego intenso de pessoas e meios de transporte chama a atenção. Mas o que realmente ganha destaque são os constantes acidentes envolvendo ciclistas.

                De acordo com Secretaria da Saúde de São Paulo um ciclista morre a cada dois dias após ser internado em um hospital da rede pública (nove usuários de bicicleta são internados todos os dias em São Paulo). Esses acidentes são causados na maioria das vezes devido à embriaguez e desatenção por parte dos motoristas dos veículos. As bicicletas precisam cada vez mais dividir o espaço de circulação terrestre com os automóveis. Ainda de acordo com a Secretaria, em 2012, houve 3.200 internações por esse motivo nos hospitais do estado.

                Os acidentes que mais chamaram a atenção foram os de Juliana Ingrid Dias e David Santos Sousa. Juliana, 33, foi atropelada no dia 2 de março de 2012 no período da manhã em frente à estação Trianon-Masp do metrô por um ônibus. A bióloga do Hospital Sírio-Libanês morreu no local. Em 2009, outra ciclista, Márcia Regina de Andrade Prado, de 40 anos, também foi atropelada por um ônibus na Avenida Paulilsta, próximo ao cruzamento com Alameda Campinas, local próximo de onde Juliana morreu. Na região, um memorial em lembrança a ciclista foi erguido, uma “estátua” de uma bicicleta foi colocada em um canteiro cheio de flores da calçada.

                Também na Av. Paulista o limpador de vidros David Santos Sousa de 21 anos, foi atropelado por um motorista, Alex Kozloff Siwek, também de 21 anos, que, segundo testemunhas, invadiu a CicloFaixa em alta velocidade. No acidente, David teve seu braço decepado e o atropelador fugiu sem prestar socorro, além de atirado o membro do ciclista em um rio, na zona sul, para tentar esconder o crime.

                Por conta de tantos acidentes a prefeitura da cidade de São Paulo em conjunto com o Bradesco Seguros criaram o projeto das CicloFaixas em 2009 para que os adeptos do ciclismo, por lazer ou por esporte, pudessem aproveitar o domingo junto da família ou de amigos através de uma atividade saudável e ecologicamente viável. A adesão a essa prática repercutiu de forma tão positiva que o horário de operação foi aumentado em 4 horas. Hoje em dia ela funciona das 7 da manhã até às 16 horas da tarde.

                Mas essa medida não foi capaz de solucionar todos os problemas causados pela disputa por espaço entre ciclistas e motoristas de automóveis. A CicloFaixa funciona apenas de domingo. Um único dia da semana não é capaz de suprir a demanda de ciclistas que necessitam dessa faixa para, por exemplo, ir trabalhar nos dias de semana, ir para a escola, para a faculdade etc. Portanto, esses indivíduos que precisam desse meio de transporte para se locomover se encontram em um dilema: se arriscar nesse trânsito perigoso  ou evitá-lo?

                O estudante de Ciências Sociais, Pedro Lucas de Oliveira de 20 anos, expõe o que sente ao circular pela Avenida Paulista em sua bicicleta: “Para falar a verdade, assusta! Tem sempre um carro, um ônibus vindo para cima de você, buzinando o tempo todo, o barulho chega até a te desnortear. Você às vezes acaba perdendo o controle da bike. Não tem espaço suficiente para a gente andar, a gente tem que se virar e ir entrando no meio dos carros. A gente sabe do perigo, mas vai fazer o quê? Não tem jeito, até o dia que fizerem um espaço para as bikes circularem diariamente, a gente vai se arriscando mesmo”.

                Pedro Lucas não é o único que compartilha desse sentimento de medo quando anda na Avenida Paulista.  Carlos de Souza, 34 anos, gerente do Banco do Brasil, pedala todos os dias para chegar a seu local de trabalho. “Usar a bicicleta como meio de transporte é um risco diário que eu assumo. A ideia da CicloFaixa é muito boa, mas não é funcional e o governo não faz nada sobre isso. Esse projeto só funciona de verdade pra quem usa bicicleta para passear de fim de semana, sem compromisso nenhum”.

                É preciso haver respeito mútuo e mais locais sinalizados e adequados aos ciclistas, uma vez que a cidade em geral, população e prefeitura, não leva em consideração que as bicicletas são sim um meio de transporte, e que na verdade muitas pessoas precisam delas para se locomover.

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