Cães-guia: emprestando seus olhos àqueles que não podem ver

No Brasil, poucos deficientes visuais possuem um cão-guia, mas existem algumas instituições bastante interessadas em mudar esta realidade e transformar a vida de um cego

As pessoas que possuem deficiência visual, sendo esta tanto parcial quanto total, encontram uma série de dificuldades ao realizarem as diversas tarefas do dia a dia, por mais simples que estas sejam para nós. A cada dia, essas pessoas encontram novos desafios dos quais elas precisam vencer, do contrário, deixarão de realizar atividades importantes, ou até mesmo essenciais. “Se não vencermos as dificuldades de cada dia, não vivemos, não saímos de casa, não fazemos nada.”. Essa frase foi dita por Maria Lúcia da Silva, deficiente visual desde o nascimento, moradora de uma pequena cidade do interior de São Paulo. É conversando com pessoas com a mesma deficiência de Maria Lúcia que se consegue compreender a dimensão das dificuldades enfrentadas pelos portadores de deficiência visual e o quanto eles lutam por uma qualidade de vida melhor. Antigamente, as barreiras encontradas pelos cegos ao saírem nas ruas eram extremamente difíceis de serem dribladas. Não havia leis que regulamentassem a questão da acessibilidade como há hoje, resultando em uma maior dificuldade de locomoção para os deficientes visuais. Hoje em dia, mesmo com as leis de acessibilidade e de uma série de fatores que auxiliam essas pessoas a andarem pela cidade com segurança (um exemplo são as faixas em relevo nas calçadas como uma forma de orientação), a circulação dos cegos desacompanhados continua sendo um desafio.

No Brasil, porém, há cerca de 30 anos uma iniciativa que partiu de ONG’s preocupadas com o bem estar dos deficientes visuais inaugurou uma nova forma dessas pessoas se locomoverem pelas ruas. A ideia consistia no treinamento de um cão de raça mansa, inteligente e amigável para que este guiasse seu dono quando fora de casa. O princípio da ideia era muito simples: esses cães seriam os olhos daqueles que não podem ver. É evidente que, como toda iniciativa, o projeto demorou a ficar conhecido e ser levado a sério. Muitos, na época, achavam que isso jamais se tornaria viável uma vez que um cão não é capaz de guiar um ser humano por pertencer a uma “raça inferior”. Mas, hoje, vemos que essas pessoas estavam completamente enganadas.

Com o passar dos anos, o projeto foi ganhando mais força. Foi constatado que os cachorros conseguiam guiar seus donos com deficiência visual desde que treinados corretamente. Segundo a organização Cão Guia Brasil, tudo começa pela escolha do cão. Geralmente, as raças preferidas para essa função são Labrador e Golden Retriever por serem cães mais calmos, extremamente dóceis, amigos e muito apegados aos seus donos. Dessa forma, os cãezinhos são selecionados por treinadores em seus primeiros meses de vida de acordo com suas características genéticas e comportamentais: os cachorros que aparentam ser mais calmos e tranquilos são os escolhidos.

                Após esse período de seleção, o cão é encaminhado, aos três meses de idade, para uma família voluntária que se compromete a cuidar e treinar o animal durante aproximadamente dez meses. O papel dessa família na formação do cão-guia é essencial, pois ela fica responsável pela socialização do cão, ensinando a maneira como ele deve se portar no dia a dia. Além de ensinar comandos básicos como sentar e deitar, os voluntários tem a missão de apresentar a esses cães o mundo da porta para fora. O animal precisa se habituar ao ambiente externo ao seu lar provisório. Precisa saber, também, como se comportar em ruas e avenidas de grande movimento, desviar de obstáculos, subir e descer escadas com calma, atravessar ruas, como agir diante de outros animais, etc. É fundamental que o cão entenda que ele deve obediência a seu dono e que, como forma de recompensa, receberá muito amor, carinho e gratidão. É uma relação de confiança mútua, o cão tem que confiar em seu dono e vice versa. Passado esse período de dez meses, o cão é encaminhado para um centro de treinamento para receber instruções específicas de treinadores para, então, poder ser entregue a um deficiente visual.

O processo que vai da escolha do cão ideal até a entrega do animal a um deficiente é bastante demorado e requer tempo e dedicação. Além disso, todas as pessoas que participam do projeto (inclusive as famílias que acolhem os cachorros) são voluntárias, não há nenhum tipo de remuneração para esse trabalho. Esses projetos são coordenados por ONG’s que se dedicam a melhorar a qualidade de vida dos cegos, porém recebem pouquíssimo apoio de pessoas e empresas, o que dificulta a expansão do projeto. Segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia, o número aproximado de cegos no Brasil é de 5.400.000. Ao mesmo tempo, o número de pessoas na fila aguardando um cão-guia é de 2.000 deficientes e o número de pessoas que já contam com esse auxílio é de 70 deficientes.

De dez anos para cá, essa iniciativa começou a ser mais bem vista pelas pessoas e órgãos públicos. Em 2005, porém, o projeto ganhou um importante apoio do governo. Foi criada, no dia 27 de junho, uma lei assegurando o direito dos deficientes visuais de circularem em ambientes públicos junto com seu cão-guia: “Art. 1o É assegurado à pessoa portadora de deficiência visual usuária de cão-guia o direito de ingressar e permanecer com o animal nos veículos e nos estabelecimentos públicos e privados de uso coletivo, desde que observadas as condições impostas por esta Lei.”. Entretanto, essa lei só é válida para locais públicos, estando os deficientes sujeitos a serem barrados em determinados ambientes privados.

Andando pelas ruas de São Paulo, não é difícil nos depararmos com deficientes visuais  sendo conduzidos por seus cães-guia, mas vê-los frequentando locais como restaurantes, teatros, bancos e ambientes corporativos já é algo raro. O que dificulta o acesso dessas pessoas em determinados lugares privados é o fato de ficar a critério do estabelecimento a entrada e permanência dos cegos acompanhados de seus animais. Ao tentar fazer uma reserva para uma pessoa deficiente visual em determinados restaurantes, informando que este utiliza um cão-guia, nota-se que muitos estabelecimentos não permitem a entrada do cão ou as pessoas não se sentem confortáveis com a presença do animal. O restaurante de frutos do mar Al Mare, por exemplo, não permite a permanência do cão e sujere, ainda, que o deficiente visual deixe seu animal no carro. A churrascaria Barbacoa, apesar do atendente deixar evidente seu desconforto diante ao assunto, recomenda que sejam feitas reservas com antecedência informando que um cliente estará com seu cão-guia. Já outros estabelecimentos como a pizzaria A Tal da Pizza se posicionam a favor da causa e, no caso da pizzaria, foi ressaltado que os deficientes visuais e seus cães são muito bem-vindos.

Beto Pereira é um deficiente visual que utiliza cães-guia há mais de 30 anos. Ele conta que não consegue mais imaginar sua vida sem esses animais porque a partir da experiência com seu primeiro cão-guia, ele explica que começou a viver de verdade: se tornou uma pessoa mais independente, passou a frequentar lugares dos quais antes só podia ir acompanhado de outra pessoa, não importando, entretanto, se esses locais são perto ou afastados de sua residência. Beto mantém um blog na internet no qual compartilha informações sobre sua vida e explica detalhes de como conseguir um cão guia, além de descrever todo o processo pelo qual o cachorro deve passar antes de ser entregue a um cego. No blog, ele ainda responde a diversas perguntas de pessoas interessadas em obter um cão-guia tanto para si próprio quanto para um parente. Ele orienta essas pessoas a entrarem em contato com a ONG Iris, que realiza esse tipo de trabalho.

No Brasil, não existem muitas ONG´s que realizem esse projeto. As mais conhecidas e que mais se dedicam a causa são as organizações Cão Guia Brasil, instituto IRIS e o SESI de São Paulo. Como o número de voluntários ainda é muito abaixo do necessário para atender a todos as pessoas interessadas em ter um cão-guia, o tempo médio de espera por um cachorro vai de cinco meses até um ano. Essas organizações contam, também, com um número de doações muito baixo, o que dificulta a realização do projeto. O ideal seria que empresas e pessoas físicas aderissem a causa, fornecendo alimentos para os animais, custeando despesas com clínicas veterinárias e cedendo espaços onde os cães seriam treinados antes de serem encaminhados a um deficiente visual.

O assunto ainda é pouco abordado no Brasil. Pessoas cegas como Maria Lúcia da Silva, citada no começo desta reportagem, nunca se entusiasmaram em ter um cão-guia pois sabem que a fila de espera é muito grande. Maria Lúcia conta, ainda, com um segundo fator que dificultaria mais ainda a obtenção de um cão, que é o fato de morar no interior e não existirem projetos semelhantes em sua cidade. Essa é a realidade de muitos outros deficientes visuais que dependem da iniciativa de voluntários para adquirirem um companheiro que seria capaz de transformar suas vidas, tornando o deficiente visual muito mais independente e com uma vida social mais ativa.

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