Corpo e imagem

Como homens e mulheres se relacionam com a imagem de seu corpo? Grande parte delas não perde a chance de se olhar em um espelho, enquanto a maioria deles mal percebe que passou por um. Nesta reportagem, buscamos investigar se existem diferenças entre mulheres e homens na relação com as imagens que têm de si e com os padrões de beleza produzidos para cada gênero. Se elas de fato acontecem, quais as origens dessas divergências?

Para compreender melhor a relação que temos com as imagens, devemos voltar aos nossos primeiros meses de vida. Segundo a psicoterapeuta Sandra Turco Garófalo, especialista em psicologia infantil, quando recém-nascidos, não percebemos que somos separados dos corpos de nossas mães. A descoberta do próprio corpo é realizada ao longo da infância e sustentada pelo olhar materno, o qual nos serve de espelho na construção de uma imagem particular altamente rudimentar.

Entretanto, durante a adolescência, vivemos um processo de desconstrução da imagem interna, uma das razões das angústias dessa fase. O corpo infantil fica perdido e inicia-se o desenvolvimento de uma nova imagem corporal. Até então, homens e mulheres passam pelas mesmas etapas; a constituição da imagem infantil e sua desorganização são universais. O fenômeno de reconstrução da própria imagem, contudo, é influenciado por aspectos culturais e sofre determinações sociais.

O papel social atribuído à mulher pré-histórica era amplamente ligado à sua condição materna. Vista como única responsável pela reprodução da espécie, a mulher era considerada um símbolo de fertilidade. Por esta razão, a representação estética feminina baseava-se em mulheres corpulentas que demonstravam fartura. Sua importância nas sociedades primitivas era tão grande que as figuras divinas eram femininas.

O homem, por sua vez, exercia a função de provedor e protetor da tribo. Para desempenhar tais atividades, ele deveria ser forte e possuir um corpo com músculos bem desenvolvidos. O cenário muda quando eles descobrem que também participam do processo reprodutivo. Desde então, a mulher perde sua condição de deusa e se torna submissa ao homem, o qual passa a cultuar deuses de seu próprio gênero.

Ao longo dos séculos, os padrões de beleza feminino e masculino quase não se alteraram; a mulher permaneceu cultivando um corpo vultoso, enquanto o homem seguiu na busca por músculos. O que se transformou consideravelmente foi a representação estética de homens e mulheres.

Liderada por uma aristocracia guerreira, a sociedade grega possuía valores importantes para a luta, como a honra e a virilidade. Estes princípios eram demonstrados nas imagens masculinas por meio de corpos musculosos, os quais eram representados nus na maioria das vezes justamente para evidenciar a força do homem. As mulheres, por sua vez, não iam à guerra, logo, suas imagens não eram orientadas por valores de guerra, mas pela delicadeza do corpo feminino. A representação dos tecidos recebia atenção especial; colados ao corpo, eles revelavam a anatomia da mulher. Tanto nas imagens gregas masculinas, quanto femininas, a preocupação com as proporções humanas é notória.

Jorge Paulino, professor de História da Arte da Faculdade Cásper Líbero, afirma que “na Idade Média, a partir de Santo Agostinho e a patrística, o corpo é tido como objeto de pecado e, por este motivo, não temos uma representação realista dele”. Dessa forma, homens e mulheres apareciam completamente vestidos nas obras de arte e seus corpos eram pouco explorados pelos artistas.

Orientados pela religião cristã, que desestimulava qualquer culto à imagem que não fosse religiosa, tanto o homem quanto a mulher não se relacionavam de forma equilibrada com sua imagem corporal; uma vez que o corpo era visto como pecado, a organização da própria imagem se dava de forma precária.

Já no Renascimento, que se inicia ao final do século XIII e permanece até meados do século XVII, as representações humanas recuperaram os princípios estéticos desenvolvidos pelos gregos. As imagens produzidas nesse período guardavam grande semelhança com a anatomia humana e os corpos voltaram a aparecem despidos nas telas e esculturas. Novamente, as imagens femininas eram ligadas à maternidade e as masculinas representavam a força e a virilidade.

A grande ruptura com os ideais físicos de homens e mulheres ocorreu a partir da segunda metade do século XX. A década de 60 foi palco de mudanças relevantes para que novos padrões de beleza surgissem, modificando, assim, a relação com a própria imagem para ambos os gêneros. Sandra Turco comenta: “O surgimento da pílula anticoncepcional, uma das grandes conquistas femininas, possibilitou às mulheres desvincularem sua sexualidade da reprodução, devolvendo a elas o direito à liberdade sexual”.

Quando a maternidade deixou de ser um dever para se tornar uma opção, a representação feminina perdeu seus traços adquiridos ao longo da História. As imagens produzidas das mulheres já não se relacionavam com o aspecto maternal, mas buscavam apresentá-las independentes e donas de seus corpos. Outros fatores contribuíram para as transformações na forma de representar a mulher, como o movimento da contracultura, cujo um dos príncipios era a igualdade sexual, a consolidação da indústria cinematográfica hollywoodiana, que disseminava produtos culturais os quais intensificavam a construção da imagem da mulher contemporânea e o aparecimento de modelos magérrimas, que punham um fim no padrão de beleza da mulher corpulenta e iniciavam a ditadura da magreza­­­­­.

Para compreender a relação com a própria imagem da mulher atual, precisamos analisar o surgimento da mulher contemporânea. Ainda nos anos 60, a luta pela igualdade sexual mobilizava a sociedade da época. Gradualmente, a mulher passou a se inserir socialmente, deixando as tarefas do lar e a ocupação de dona de casa para conquistar uma posição no mercado de trabalho. O direito ao voto e continuação dos estudos até o ensino superior também foram frutos dessa luta. Desse modo, a pressão social sobre a mulher, a qual antes era cobrada para ser uma boa procriadora e cuidadora, torna-se, então, uma pressão muito semelhante a que sofrem os homens: ela deve ser dona de uma carreira invejável, alcançar os mais altos cargos de sua área, estudar nas melhores universidades, ser produtiva e competitiva.

Sobre essa nova cultura feminina, o pesquisador francês e professor da Universidade de Grenoble Gilles Lipovetsky argumenta, em seu livro A Terceira Mulher (Companhia Das Letras, 2000), que ela “centrada no prazer e no sexo, no lazer e na livre escolha individual, desvalorizou um modelo de vida feminina mais voltada para a família do que para si mesma, legitimou os desejos de viver mais para si e por si”. Como consequência dessas mudanças, a relação feminina com o próprio corpo se alterou substancialmente. As mulheres passaram a consumir imagens que as representassem como protagonistas de sua própria vida.

Ao contemplar essas imagens, elas acreditam que, assemelhando-se fisicamente às modelos, poderão conquistar os ideais da mulher contemporânea associados a elas. Surge, então, uma obsessão pela imagem física, um culto à beleza corporal. Dessa relação esquizofrênica com o corpo, nascem deformações na imagem que a mulher tem de si mesma, podendo levar a transtornos alimentares, como a bulimia e a anorexia.

Mas e os homens? Como eles agem diante de tantas transformações sociais? Num primeiro momento, em meados do século XX, a grande maioria deles limita-se a observar a luta pela igualdade sexual liderada pelas mulheres. A imagem corporal masculina ainda não era para eles uma grande preocupação. Ao longo da segunda metade do século XX, entretanto, o homem passa a acompanhar a mulher na mudança da relação com a própria imagem. Segundo Sandra Turco, “o homem torna-se mais delicado, mais paterno e adquire alguma maternagem”. Ele também sofre com o imperativo do corpo perfeito e passa a promover o culto à forma física, ao saudável, ao exercício físico. Exemplos dessas modificações são a proliferação de academias e o crescimento do mercado de revistas masculinas voltadas para homens que buscam o corpo ideal. Paralelamente às mulheres, a relação desequilibrada com a própria imagem também gera transtornos, como a vigorexia, doença caracterizada pela percepção do próprio corpo extremamente magro e pela compulsão por exercícios físicos, a fim de obter cada vez mais músculos.

Atualmente, vivemos em uma sociedade em que a produção de imagens é altíssima, muitas vezes substituindo o texto escrito. A imagem deixa de ser contada para ser assistida. O bombardeio de imagens ocasionado pelo cinema e pela televisão, que ocorreu também na mídia impressa, modifica a relação de homens e mulheres com suas imagens internas. Com tantas figuras invadindo o cotidiano, eles e elas encontram dificuldades para ajustar as imagens externas, propagadas pela mídia, às internas.

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