Dança quem tem coragem

O preconceito que o dançarino sofre, vai além do “Balé é coisa de mulher”

Quando uma criança atinge quatro anos de idade, o primeiro impulso dos pais é colocar o menino no futebol e a menina no balé, parece até uma regra de comportamento, mas vamos seguir apenas com as meninas a partir de agora. Desde pequenas somos incentivadas a fazer o balé por ser algo feminino e que “da postura”, posso até escutar a minha mãe falando isso. Claro que existem aquelas meninas que não seguem essa linha e vão praticar algum outro esporte, mas como eu disse antes, nosso foco será a dança.

A grande maioria das meninas que dançam começou pelo balé e pelo jazz que é o que há de mais próximo da dança clássica, só que com mais ritmo e agito, por isso é comum que apenas quando elas atingem uma idade maior é que elas começam a praticar essa modalidade, assim como quem pratica o Street Dance, sapateado, dança do ventre, entre outras.

Mas afinal, dança é ou não um esporte? Quando fiz essa pergunta certa vez em uma roda de amigos escutei as seguintes afirmações convictas: “lógico que não! Dança é um Hobbie, é só por diversão” ou então, “não está nas Olimpíadas, não é esporte”. Para quem dançou a vida toda, chega a ser revoltante esse tipo de comentário. Em conversa com a professora de Dança de Salão, Sapateado, Jazz e Balé Clássico, Kelly Campos (30), ela da a sua opinião: “Para mim a dança vai muito além de um simples Hobbie, ela é sim um esporte ou até uma arte. Exercitamos e treinamos da mesma forma que um jogador de vôlei, por exemplo. Gostaria que a dança hoje fosse mais reconhecida, só que as pessoas ainda não têm consciência do trabalho e do amor que o profissional de dança tem.”.

Formado na University of Street Knowledge, Boston, dançarino profissional do grupo Funk Fanáticos e professor de Street Dance, Flip Couto (28) concorda que a dança não possui o devido reconhecimento, mas afirma ser problema do Brasil: “Estudei dança por muitos anos no exterior, sempre achei o Brasil um país com a cabeça muito pra fechada para esse tipo de coisa, há um preconceito muito grande com quem vive da dança e que a considera muito mais do que um simples Hobbie. Lá fora, tem muito mais oportunidade e ninguém te olha torto quando você diz é professor de dança”.

No país em que vivemos onde a mídia coloca a dança com lindas mulheres de roupas curtas em programas de auditório em foco, põem a dança como sendo algo sensual e fútil, a cultura foi sendo criada e transformando a dança como “coisa de mulher” fazendo com que cada vez mais alunos do sexo masculino tomem certa distância do conteúdo. Flip afirma que além do preconceito de ser professor de dança, sofre preconceito por ser um homem que dança: “As pessoas acham que porque você dança você é gay. Que ser professor de dança é profissão de mulher.”, diz ele. “Como eu já tinha estudado e morado no exterior, percebi que era só aqui que eu sofria esse tipo de preconceito, na Europa e nos EUA é muito comum a profissão.”, afirma Flip.

Aqueles que apreciam a dança, bem sabem que existem, dentro desse mercado, como em todas as áreas profissionais, celebridades que se desenvolveram por anos de comprometimento e de respeito à arte que elas apresentam. Estas bailarinas possuem um diferencial visível em relação às outras. A professora de Flamenco e dona da academia Estúdio de dança Fernanda Zuppo, Fernanda Zuppo (33) diz que a mídia trata a dança como algo que só é digno de interesse quando alguma celebridade um dia já praticou alguma modalidade. “Essa é apenas uma das provas de que não existe o respeito devido às profissionais, mas sim um interesse pela audiência.”.

A sociedade, desde seus primórdios sempre foi muito preconceituosa. As crianças crescem ouvindo barbaridades dos adultos e continuam seguindo a linha de pensamento deles. Por causa de pessoas desinformadas, muitas outras deixam de fazer as coisas que gostam com medo do que podem falar. Beatriz Lima (18), recém-formada em Balé Clássico, Jazz, Flamenco e Street Dance, hoje da aula de balé para crianças e diz ter sofrido para contar aos pais a sua escolha: “eu nunca me imaginei fazendo outra coisa, desde sempre faço dança e é isso que eu quero para minha vida” e completa “temos que parar com essa mania de ‘certo’ ou ‘errado’ e apenas fazermos aquilo que nos inspira, a dança tem o dom de tocar no coração das pessoas e nos inspirar e é isso que eu quero ser, inspiradora.”.

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