Do interior à capital

Como jovens estudantes nascidos e criados no interior do estado de São Paulo se relacionam com a mudança para a capital

 

Mudar de cidade significa deixar os amigos, a casa da família, os familiares, os contatos e as rotinas na cidade natal… Tudo de uma só vez. Essa mudança, às vezes significa mudar completamente seu estilo de vida. Não se trata apenas de um novo espaço físico, e sim, de novas relações sociais, novas oportunidades, nova rotina, enfim, uma nova vida. Nesta reportagem, foram entrevistados estudantes que tem uma coisa em comum em suas vidas: a mudança do interior do estado de São Paulo para a capital.

RAZÕES

A mudança de estudantes que nasceram e viveram no interior para a capital é um caso muito comum nos dias de hoje. Grande parte das faculdades conceituadas do país está localizada na capital, e essa situação faz com que jovens de toda parte do país sonhem em ingressar nessas faculdades para fazer o curso dos seus sonhos. O jovem Henrique Toledo, de Espírito Santo do Pinhal, sempre quis cursar Direito, e por buscar qualidade de ensino seu foco sempre esteve na PUC-SP. Ao ingressar na faculdade, viu que esse era o “menor dos problemas”, pois não era apenas o lugar em que ele estudava que iria mudar, e sim toda a sua vida. “Procurar um apartamento foi muito trabalhoso. Eu precisava de algo perto da faculdade, já que não tenho carro e moro sozinho, mas os aluguéis nessa região são muito elevados. Demorou até que eu e meus pais encontrássemos um apartamento próximo de tudo o que eu preciso e com um preço que eu pudesse pagar”, declarou. Ele disse ainda estar se adaptando à vida na faculdade, mas tem certeza de que fez a escolha certa: “o nível das faculdades que existem na minha cidade é muito inferior, pois são muito novas e ainda não tem consistência no ensino. Já a PUC é uma faculdade muito conceituada, que tem anos de experiência, qualidade de ensino e ótimos professores. Se mudar de cidade é o preço que tenho que pagar para fazer uma das melhores faculdades do país, faço isso sem o menor problema.”

Os jovens vêm para a “cidade grande” em busca de oportunidades. Sejam elas de estudo, de mercado ou de lazer. A gama de empregos, faculdades, cursos, baladas, shoppings, cinemas e etc. que a capital oferece, não se compara ao que encontram em suas cidades interioranas.

Isabela Marques Machado, estudante de engenharia, diz que o que mais a atrai é a diversidade de coisas para fazer a qualquer hora em São Paulo. “Mesmo com todos os problemas, eu prefiro morar em São Paulo a continuar na minha cidade (Vargem Grande do Sul), pois lá, os jovens não tem muitas opções de lazer. Para mim, é bem mais interessante morar nesse agito e ter a opção de poder ir para onde eu quiser. Além disso, minha faculdade fica em São Paulo. Sei que poderia ter estudado em alguma faculdade no interior, mas a capital é muito mais interessante em termos de mercado.”

ADAPTAÇÃO

Para que as grandes mudanças se tornem nossa rotina, é preciso passar pelo processo de adaptação. No caso desses jovens, a mudança é de um extremo ao outro, pois passar a viver em uma cidade frenética como São Paulo é algo que custa a ser absorvido por pessoas que moraram em cidades pequenas a vida inteira. “Já faz um ano e meio que moro na capital e ainda não me acostumei com algumas coisas. A vida aqui é muito rápida, todos estão sempre com pressa. Tudo também é muito longe, e é preciso planejar as coisas com antecedência, ou chegamos atrasados. Por exemplo, na minha cidade, eu morava longe (nos padrões do interior) da minha escola, mas eu acordava só meia hora antes do horário de entrada e raramente chegava atrasada. Isso é uma coisa impossível de se fazer em São Paulo, porque mesmo morando perto (nos padrões de São Paulo) da minha faculdade, preciso acordar uma hora e meia antes para garantir que eu chegue no horário. E mesmo assim, isso não acontece sempre, pois aqui dependemos de fatores externos, como o metrô, o trânsito, as chuvas. Coisas com as quais nunca me preocupei na minha cidade.” declarou a estudante Fernanda Nascimento, de São João da Boa Vista. “Outra coisa que estranho na capital é a sensação de desconfiança em tudo e em todos. No interior, as pessoas vivem dizendo que São Paulo é uma cidade extremamente perigosa, e somos alertados de que devemos estar sempre atentos, não podemos “dar bobeira”. Por isso, nunca saio na rua com meu celular na mão, coisa que faço com normalidade na minha cidade. Assim que me mudei, recebi um monte de “instruções” dos meus pais, amigos e conhecidos. O engraçado é que todos frisam: “cuidado com isso, cuidado com aquilo, São Paulo não é igual a São João”.

Gabriel Falbo, de Paraguaçu Paulista, sente em sua rotina as limitações que um estudante tem na cidade de São Paulo. “Em Paraguaçu é tudo perto. É muito mais fácil encontrar meus amigos, as pessoas são muito mais receptivas, todo mundo conversa com todo mundo. Em São Paulo, a situação é muito diferente. Aqui tem trânsito todo dia, por isso eu tenho que ficar programando horário para sair e para chegar, coisa que nunca fiz na minha cidade. Como eu ainda sou estudante, não tenho meu próprio carro e nem meu próprio dinheiro, e por isso, me sinto muito limitado. Às vezes, deixo de fazer coisas que eu gostaria com meus amigos, porque não tenho como chegar até lá. Em São Paulo, eu não tenho a liberdade de andar tranquilamente nas ruas como em Paraguaçu. Sem contar que as carnes e verduras daqui são horríveis”.

AMOR E ÓDIO

A vida na maior cidade do Brasil não é fácil. Os fatores a que ela está submetida – trânsito, violência, altos preços – atingem a todos os habitantes. Isso faz com que todos se vejam inseridos em uma relação de amor e ódio pela cidade. Para quem veio de fora, esses sentimentos são muito mais constantes. Letícia Flamínio, de São João da Boa Vista, nos exemplifica: “Eu gosto de morar em São Paulo porque a cidade me oferece tudo o que eu preciso – e o que eu não preciso também. As oportunidades aqui são muitas e também são as melhores. Eu adoro ter sempre o que fazer, o que não acontecia na minha cidade, onde eu tinha opções muito limitadas. Mas ao mesmo tempo, as coisas são muito mais caras. Em São Paulo, tudo é extremado: a pobreza, a frieza, a poluição, os preços. As pessoas são muito desconfiadas, ninguém conversa, não olham nem ajudam umas às outras e têm medo de tudo.” Percebemos que mesmo quem gosta da cidade coloca as qualidades e defeitos da cidade na balança o tempo todo. “O que eu mais gosto em São João é que lá todo mundo sabe quem você é. Em todo lugar que você vai, sabem quem é seu pai e seu avô, e ainda por cima contam histórias sobre eles. A vida no interior é muito diferente, pois eu posso andar na rua com meu celular na mão, já que não existe muita violência. Eu nunca ouço notícias sobre assassinatos e nem roubos, coisa que em São Paulo, eu escuto todos os dias”. A jovem também sente que sua relação da natureza é quase inexistente depois que se mudou para a capital: “Em São Paulo, eu não consigo ver o céu, já que moro em um apartamento tem janelas muito pequenas, e é rodeado por outros prédios. As ruas da cidade tem poucas árvores, são todas grandes blocos de cimento. O que me assusta é que até os rios são cimentados em suas margens, além de serem muito poluídos. Na minha cidade, mesmo que estejam localizados em trechos urbanos, os rios são rodeados por uma enorme quantidade de plantas, árvores e animais”.

CHOQUES DE REALIDADE

A realidade da capital do estado costuma assustar aos novos moradores que vieram do interior. “Quando eu me mudei para São Paulo, escolhi um apartamento perto da minha faculdade, e isso fez com que eu acabasse morando na Zona Leste. Eu não sabia o que isso significava até que eu me mudei. Fique muito chocada com a situação do bairro, porque a maioria das pessoas que eu conheço já foram assaltadas por aqui. Minha insegurança em São Paulo é muito grande, porque na minha cidade – São João da Boa Vista – a maioria das pessoas nunca foi assaltada. O que mais me chocou – e choca até hoje – é que em São Paulo, toda vez que eu abro a janela do meu apartamento, dou de cara com um albergue, que é rodeado de moradores de rua que estão esperando uma vaga. Eu nunca tinha visto pessoas naquela situação antes. Em São João, toda vez que abro a janela, tenho a vista da serra da Mantiqueira. É muito triste que a situação de duas cidades que não são muito distantes uma da outra – São Paulo e São João da Boa Vista são separadas por 239 km – tenham realidades tão diferentes”.

FICAR OU VOLTAR?

Quando questionados se voltariam para suas cidades, a maioria respondeu que sim. Os que disseram não foram aqueles que escolheram carreiras que não têm tanto campo de atuação como em São Paulo. Foi o caso do estudante de direito, Henrique Toledo, que disse que não voltaria para sua cidade, porque em São Paulo o mercado é mais dinâmico. “Faço direito e, com certeza, quero trabalhar aqui. Na minha cidade o mercado é bem mais lento, pois poucos advogados são realmente bem-sucedidos. Em São Paulo, eu posso trabalhar em grandes empresas ou escritórios.” Por outro lado, alguns jovens colocam a qualidade de vida frente ao mercado, com o caso de Izabela, que prefere ganhar menos no interior e viver uma vida tranquila, do que ter um ótimo salário e viver na capital. “Eu sei que na capital existem muito mais oportunidades do que no interior. Mas eu acho que não vale a pena viver uma vida estressante como a que têm as pessoas de São Paulo só por causa de um emprego. Existem coisas que eu prezo mais na vida, como estar com a família, ter uma boa qualidade de vida e não viver sempre com pressa. Não me vejo criando filhos na capital, por exemplo.”

Por todas essas razões, os jovens tem uma relação peculiar com a cidade. Como ainda estão no início de suas vidas fora de casa, eles se veem em um paradoxo: ao mesmo tempo em que morar na capital traz a liberdade de não depender mais dos pais para tudo, faz com que eles se sintam impedidos de muitas coisas devido à fatores externos que não encontravam antes.

Mesmo que cada um tenha uma opinião sobre a cidade, a unanimidade entre os estudantes foi a de que São Paulo é o melhor lugar para trabalhar e se divertir, enquanto o interior é o preferido para viver e se relacionar. Como a estudante Letícia deixou bem claro: “Gosto de morar em São Paulo por conta do mercado e das opções de lazer, mas ao mesmo tempo, sinto falta da tranquilidade do interior, da família, dos amigos e da situação de que todo mundo se conhece. É uma pena que seja impossível viver em um lugar que tenha ambas as qualidades ao mesmo tempo.”

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