É pela barriga: restaurantes temáticos de São Paulo

Espalhados pela cidade, esses restaurantes oferecem muito mais do que uma refeição.

A correria já está inserida no DNA do paulistano. Não importa se ele está adiantado ou atrasado, o melhor jeito é sempre o mais rápido. Uma prova da correria cotidiana é o crescimento das redes de fast-food. Oferecendo alimentos rápidos e, nem sempre saudáveis, elas se tornaram a opção número um do paulistano na hora do almoço.

Os restaurantes a seguir não servem comida rápida e para viagem. Eles contam com uma temática, decoração, iluminação e atendimento únicos. Não são lugares só para pegar comida, são lugares para serem vividos.

Escondida no fundo de uma galeria na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio está a WAKA HOUSE. O visual do lado de fora dá uma pista sobre a especialidade do restaurante. Especializado em cozinha japonesa, o restaurante nos surpreende logo quando passarmos pelas suas cortinas na porta de entrada. A sensação é de que estamos em outro tempo, em um Japão feudal.

A história do lugar é contada pela gerente Maria Mello “Esse restaurante foi criado em 1960, desde então não mudamos o cardápio uma só vez”. O sucesso do restaurante não está só nos pratos mais conhecidos como o yakissoba e o tempurá, mas sim na criação de uma experiência que parte da escolha do lugar na bancada de madeira, continua na degustação das primeiras entradas, tem seu ápice no prato principal e termina suavemente com a sobremesa.

Os detalhes do trajeto começam nas bebidas. O refrigerante e a água dão lugar ao chá verde. Servido em uma xícara que mais parece um pequeno barril, ele reconforta e aclimata o estômago para o que está por vir. A simplicidade e suavidade dos pratos escondem algumas dificuldades para encontrar certos ingredientes, como explica Maria “Tem uma florzinha chamada mioga, ela é muito difícil de encontrar porque ela floresce só uma vez por ano. Também é difícil encontrar verduras realmente frescas, bem crocantes”.

A rodada de entradas começa com verduras em conserva e tofu (queijo de soja) e são encerradas por legumes cozidos no vapor e fatias de peixe cru com broto de feijão. A seguir o prato principal depende da escolha de cada cliente, mas o mais pedido e recomendado é a pescada frita servida com molho de soja. Falando em favorito, Maria destaca dois perfis distintos de público “Na hora do almoço a maioria são empresários que trabalham por perto, mas na parte da noite o número de japoneses é maior. Eles vêm para beber e conversar até de madrugada.”.

Antes de continuarmos o relato, vale ressaltar a organização dos pratos. Tudo é servido em pequenas tigelas e com o maior cuidado. Isso faz com que nenhum componente seja mais importante que o outro, tudo é apreciado em seu devido tempo.

Um pai sentado com suas duas filhas reforça a última fala de Maria durante nossa conversa “Tem muitos clientes que vinham comer com os pais quando eram pequenos e agora trazem os seus filhos para comer aqui, é uma maneira de transmitir a cultura de geração em geração”.

A refeição termina com bananas carameladas de sobremesa. E ao sairmos pela porta voltamos à correria do dia a dia. Mas com a barriga satisfeita e com a alma tranquila.

Seguindo a linha de uma experiência imersiva, o Gopala Hari também foi uma descoberta muito agradável. Localizado perto da estação Consolação do metrô, o restaurante indiano tem uma característica muito especial, ele é lacto vegetariano. Isso significa que os pratos não possuem qualquer tipo de carne e são preparados utilizando somente vegetais e derivados de leite. Mas se você acha que a comida fica sem graça ou sabor, você está muito enganado.

Como sempre, o almoço não começa na chegada dos primeiros pratos, mas sim logo na entrada do restaurante, as janelas e fachadas decoradas se destacam no meio das casinhas residenciais. As pétalas de rosa nos degraus da escada, o cheiro de incenso e a música fazem a “descompressão” de quem vem da correria do dia a dia.

Nenhum detalhe escapou dos olhos da gerente Mitra. Tudo tem um toque indiano, de pinturas na parede até o suporte do ventilador. O cardápio do restaurante está restrito a duas combinações a cada dia da semana.

Escolho o arroz jasmine com manga verde, a pakora (legumes empanados com especiarias), torta de abobrinha com tomate seco e Gulab Jamun de sobremesa.  A melhor pedida pra se beber é o txai, um chá com leite e especiarias.

A minha primeira surpresa chega depois de uma salada fresca e bem temperada. A sobremesa chega junto com os pratos principais.

Como era de se esperar, tudo é muito colorido. O arroz mistura o amarelo, com o verde e o vermelho. Os legumes são crocantes e leves. A organização dos pratos lembra um restaurante oriental, tudo vem separado em tigelas de inox. Os temperos também marcam forte presença, desde o agridoce até o picante. Mas nenhum deles chega a se destacar em excesso. Eles conseguem trabalhar juntos tornando o prato leve, mas muito carregado em sabor e personalidade. Três indianos se sentam ao meu lado passam a elogiar a comida em um inglês carregado de sotaque, a impressão é que concordam com as minhas afirmações.

O Gulab Jamun fecha a refeição. Feito com leite e farinha, o bolinho é frito e depois mergulhado em um xarope de água de rosas. O resultado é uma sobremesa incrivelmente leve e ao mesmo tempo doce.

Antes de voltar à correria, dê uma passada na loja que fica embaixo do restaurante. Nela você pode comprar especiarias importadas diretamente da Índia, tapetes e roupas, incensos e acessórios de cozinha.

Enquanto os restaurantes acima se especializaram em temáticas de seus respectivos países, o restaurante a seguir foi mais radical: se especializou em um tipo de peixe.

Assim funciona a Salmon & Co. Localizado na Rua Jaú, o estabelecimento estampa a sua especialidade logo na entrada. O cardápio só tem pratos preparados com peixes nobres como truta, salmão e bacalhau. Quem me conta a ideia de criar o lugar é o gerente Araújo “Quem pensou foi o Hélio, meu sócio, ele saiu do Banespa em 1996 e a gente já tinha essa vontade de criar uma casa de peixe. Acabou calhando com a chegada do salmão no Brasil.”.

Separo este parágrafo para contar algo engraçado que aconteceu comigo durante a refeição. Entro no restaurante e peço mesa para um. O garçom me oferece uma mesa e me entrega o cardápio. Pergunto a especialidade da casa e ele responde: É o salmão. Você gosta de salmão? Ah, deve gostar sim. Não sei se o fato de eu ser japonês influenciou na resposta. Talvez sim. Voltemos à matéria.

A ambientação do lugar é igualmente bem feita se comparada com os outros restaurantes. As mobílias de madeira, a luz baixa, a adega, tudo trabalha junto para criar um ambiente agradável e aconchegante. Quem frequenta a casa? Araújo responde “É relativo, por ser um lugar comercial, segunda a sexta são os dias que pagam as contas. Então nos dias de semana quem frequenta são executivos que trabalham por aqui. Sábado e domingo diferencia. Ai o público é “público de peixe”, pessoal com uma faixa etária entre 50 e 70 anos.”

Estar funcionando a 17 anos é uma prova da aceitação do público. Sobre o prato favorito de quem frequenta, Araújo surpreende na resposta “O salmão é o carro-chefe, apesar de hoje estarmos vendendo muito é pescada branca que na verdade não é pescada, é filé de pangasius, um peixe do sul do Vietnam.”.

Os prêmios na parede dão uma dica da qualidade dos pratos. Por escolha do próprio gerente, sou servido com um salmão À Belle Meunière. Preparado com champignons, alcaparras e camarões, o peixe vem grelhado a perfeição. A pele é frita até se tornar crocante e prender todo o sabor do pescado. A carne se desfaz com facilidade e não tem sequer um espinho. O prato é saboroso, mas não chega a ser salgado demais. Todos os ingredientes convivem muito bem entre si. As alcaparras, e seu salgado, não conseguem esconder o sabor característico de mar do salmão e do camarão. Os champignons e a manteiga harmonizam muito bem com os outros componentes. O veredito é uma refeição que alterna entre momentos de sabor acentuado e momentos de sabores suaves.

Ter um restaurante com pratos tão específicos causa certas dificuldades para manter sempre as mesmas opções no cardápio, como conta Araújo “É meio coisa do tempo, sazonal. Tem épocas onde o salmão sobe muito, ou no Natal o bacalhau também sobe de preço e isso acaba afetando o consumidor. Mas a gente conseguiu montar um menu bem diversificado pra que a gente não fique sem trabalhar só porque está difícil de adquirir um certo produto no mercado”.

A refeição se encerra com um caloroso “Até logo!” e voltamos para a correria do dia-a-dia com a sensação que almoçamos com velhos amigos.

Restaurantes como esses estão espalhados por toda a cidade. E cabe a nós encontra-los, pois nunca se sabe quando uma simples refeição pode se transformar em um episódio que marcará a sua vida.

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