O que eles pensam enquanto ruam?

O que é a vida, se não uma andança? “Tudo flui”, já diria o filósofo Heráclito em cerca de 500 anos antes de Cristo – uma máxima que, em contradição, adequa-se até aos dias de hoje. Na cidade de São Paulo, que tem uma população de 11,32 milhões de habitantes e ainda conta com a visita diárias de transeuntes, oriundos desde as regiões próximas até de países estrangeiros, isso é mais do que notável: basta tentar ficar parado na avenida Paulista ao meio-dia, ou nas vias de circulação interna das estações de metrô em horários de pico para perceber.

Com todo esse movimento, as ruas ganham um papel importantíssimo na vida das pessoas, que são por elas levadas a seus locais de trabalho, lazer, estudos, tratamentos de saúde e afins. Além disso, também são palco de obras de arte de todo tipo – providas por grafiteiros, músicos, atores, entre outros artistas – e, principalmente, de relações humanas.

A via pública é acessível a todos – ao menos em princípio – e útil a todos. Os transeuntes passam, assim, grande parte de seu tempo indo de um lugar para o outro, percorrendo trajetos e convivendo com desconhecidos. Essa vivência em grupo cria a oportunidade de trocas, mas não é sempre que se concretizam.

Fisicamente em grupo, mas isolados em seus mundos internos, os “rueiros” – as personagens principais desta reportagem – refutam o diálogo com o outro. Resta a eles conversar consigo mesmos.

A alma encantadora das ruas

“É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes — a arte de flanar. É fatigante o exercício?”

O flâneur referido no texto de João do Rio é uma observadora personagem urbana preocupada apenas em experimentar a cidade. Do francês “vagabundo”, seu espaço é a rua. Mas quem tem tempo de andar sem rumo hoje em dia?

A admiração e a contemplação da paisagem deram lugar ao cumprimento de tarefas. A rotina corrida suga o interesse pelos caminhos que percorrem os andarilhos. Separam o caminho de todo dia do ambiente de lazer; procuram espaços em que possam encontrar gente nova sendo que têm nas avenidas, calçadas e no transporte público uma fonte de novidades para fazer da experiência cotidiana algo mais rico e diversificado.

A rua como meio

São sete horas da manhã e o trem chega à estação terminal Grajaú já com seus assentos ocupados. Ao abrirem-se as portas, pequenas multidões adentram os vagões em uma velocidade impressionante. Uma vez estabelecidas em seus limitados espaços, os usuários da Linha 9 – Esmeralda da CPTM tentam se acomodar, na medida do possível. Quatro senhoras que pareciam ter se conhecido ali mesmo começam a discutir questões em que todos ali devem estar pensando: a falta de respeito pelo próximo, as más condições e a lentidão dos trens, a falta deles. E riem, brasileiramente.

As ruas servem, antes de tudo, para levar as pessoas de um lugar ao outro. Para isso, não faltam formas – extensões da rua – para por elas circular: seja a pé, de skate, bicicleta, moto, automóvel, ônibus, trem, metrô ou a opção que melhor satisfizer o transeunte. O episódio narrado é comum à vida de muitos cidadãos que frequentam o transporte público durante o horário de pico de São Paulo. O que foge à normalidade é a discussão; o costume seria o pensamento silencioso. Mas o que pensam os que passam na rua todos os dias?

Dona Aparecida, uma senhora aposentada de 72 anos, esperava o ônibus em direção ao Terminal Capelinha em um ponto da avenida Brigadeiro Luís Antônio quando foi abordada com essa questão. De postura curvada e olhos no horizonte – da avenida -, pensa nos familiares que estão longe e torce pela saúde deles. No ônibus, vai “tranquila, lendo meu livro. Não tem porque ter medo. Violência tem em qualquer lugar e, sabe o que mais? Já não tenho medo de nada. Nem da morte”.

Já Cristiano, de 28 anos, corre contra o tempo. “Fico pensando se vai dar tempo de chegar, no que farei, no que esqueci de fazer.” O jornalista utiliza como principal meio de transporte o ônibus e, como muitos outros, idealiza-se tranquilo dentro de um carro. “Mas é muito gasto e preocupação. Eu preferiria mesmo se desse para ir andando para o trabalho. Pelo menos eu teria certeza do tempo que demoraria para chegar”, diz, questionando a eficiência do modal.

A rua como fim

Enquanto muitos usam a rua como passagem, outros têm-na como local de trabalho. É o caso de Denício, de 36 anos, que trabalha como carteiro em um bairro da zona Sul de São Paulo. “Liberdade” é a primeira palavra que diz quando questionado sobre a especialidade de sua função. Gosta de trabalhar caminhando, pois não é controlado de perto por superiores, conhece pessoas diferentes a cada dia e ainda faz um exercício que favorece sua saúde.

Ultimamente, ao percorrer os oito quilômetros que percorre a pé diariamente, vem pensando na proposta de emprego que recebeu: “ofereceram-me o cargo de motorista do carro de entregas rápidas, mas terei que ir para longe e pegar trânsito. E a qualidade de vida vai embora.”

Em oposição a Denício, Pedro prefere ir trabalhar de carro. Publicitário, seu segundo emprego é o de metroviário. A função de Pedro é oferecer auxílio aos frequentadores da na estação de metrô Trianon-MASP, por onde passam cerca de 50 mil pessoas por dia. Assim como o serviço de transporte, para atender as demandas do trabalho, Pedro está sempre em movimento.

Ao ceder entrevista, não conseguia responder duas perguntas em seguida, pois era sempre requisitado para resolver problemas técnicos e responder perguntas para transeuntes perdidos. “Não tenho tempo para ficar pensando na vida”, diz, mas compartilha as observações que faz sobre o os usuários do metrô. “As pessoas são muito distraídas; não leem os sinais básicos, como o verde de ‘siga’ e o vermelho de ‘pare’. Tentam entrar pela saída e só percebem que estão no lugar errado depois de passar o Bilhete Único umas três vezes pelo leitor.” Segundo Pedro, o paulista tem preguiça de pensar e de se programar: “querem tudo mastigado”.

Apesar de trabalhar no metrô, utiliza o carro como meio de transporte, pois transita em horários de pouco trânsito e porque é mais confortável. Enquanto dirige, pensa nos afazeres publicitários.

Também associado à Publicidade, Edinézio, vendedor gráfico de 58 anos, complementa sua renda segurando placas de propaganda de novos edifícios aos finais de semana. Sob o sol de uma esquina na região do Campo Belo, zona Sul, tem o dia todo para fazer planos de melhorias em seu negócio. “Agora, trabalhando durante a semana, não tenho tempo para ficar pensando. Não paro um minuto!”

Não é o único. Como as águas do rio de Heráclito, que em questão de segundos deixam de ser as mesmas, segue em frente o paulistano, sempre com pressa demais para olhar a sua volta. E você, o que pensa quando está ruando?

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