Escrita de Fã para Fã

A consolidação de uma nova plataforma de expressão para a juventude

“Escrevo desde que me entendo por gente. Eu escrevi poemas e pequenos contos. As fanfics só me deram o motivo certo pra aprimorar isso”, afirma Letícia Black, de 21 anos. Há dez anos, a estudante de publicidade entrou na internet para procurar spoilers dos próximos filmes da série Harry Potter quando se deparou com novas histórias dos personagens. Achando ter encontrado o novo livro da saga, Letícia estava, na verdade, lendo uma fanfiction.

Com a internet e as ferramentas proporcionadas por ela, este gênero, que surgiu em meados da década de 1960 para designar histórias escritas pelos fãs de Star Trek baseadas na própria franquia, virou um fenômeno mundial.

Fãs de diferentes livros, seriados, bandas, filmes e animes escrevem dando continuação às histórias que adoram ou criam novos universos com os personagens ou celebridades adorados. “As fanfics são, nada mais, nada menos, que uma homenagem para aquelas histórias que amamos, que mexeram com nossos corações ou para aquele ídolo com quem a gente tanto se identifica”, declara Letícia.

Os ares de um novo gênero

A internet está cheia de fóruns, comunidades e portais que abrigam fanfictions – também chamadas de fanfics ou só de fics – dos mais diversos tipos. Camila Sodré, de 23 anos, é uma das donas do Fanfic Obsession, um dos maiores portais de fanfictions interativas do Brasil.“O site cresce todo dia, é uma loucura. O e-mail sempre tem dezenas de novas histórias, de autoras novas e antigas.A impressão que eu tenho é que hoje em dia as autoras estão muito mais novinhas, na faixa dos 14 anos, e já querem publicar suas ideias, o que acho incrível”, conta Camila.

O Fanfic Obsession hoje possui em seu contador de visitas um número próximo dos 20 milhões. Uma das razões do portal ser tão requisitado – o levando, inclusive, a ficar fora do ar ocasionalmente devido ao grande número de internautas o acessando ao mesmo tempo – é a interatividade proporcionada nas fanfictions que publica.

Quando os leitores abrem as páginas das fanfics interativas, aparecem diferentes janelas, perguntando o nome de quem está acessando, o apelido, o sobrenome e outras questões, dependendo do autor ou da história. Desta forma, o leitor se torna protagonista da fanfiction, tendo a possibilidade de escolher, inclusive, seu par romântico e seus amigos. “Acredito que isso é um grande fator para o sucesso, porque faz com que cada um se sinta muito “dentro” daquele universo, torna tudo mais humano, torna cada história muito pessoal, mesmo que não tenha sido escrita por você”, confessa Camila Sodré.

A interatividade varia em cada portal. O Floreios e Borrões, segmento do site Potterish, que é destinado aos fãs de Harry Potter, por exemplo, trabalha com fanfictions tradicionais, ou seja, todos os personagens são fixos, somente o autor tem controle sobre eles. Nestes casos, outros tipos de interações podem surgir. Como os flamers, por exemplo. “Flamers são pessoas que postam vários comentários na sua história, mas todos eles são extremamente negativos. Geralmente xingando o autor”, explica Beatriz Salvador, estudante de História na USP.

Outra prática recorrente são as ripagens: uma espécie de versão comentada de fanfictions consideradas ruins. “Você vai colocando comentários e vai detonando. O problema é que quem faz isso não percebe que eles pegam fanfics de gente que está começando. Às vezes a menina tem 12, 13 anos”, conta Beatriz.

Para publicar fanfictions online, é necessário ter, além de jogo de cintura, domínio da nova linguagem proporcionada pelo gênero. “Não dá pra você escrever uma fanfic da forma que você escreve uma história usual. A fanfic exige um formato meio de hipertexto: tem que ter dois espaços entre um parágrafo e outro, porque você lê pela internet e cansa demais se você fizer algo muito grande”, declara Nicole Bianchini, estudante de História na USP.

Os fãs dos fãs

Nicole admite que as fanfictions foram essenciais para a sua formação. No auge do seu período de escrita – entre os 14 e 15 anos -, a estudante realizou a maior parte de sua produção, que carrega fãs até hoje, 4 anos depois. “Depois que eu comecei a faculdade – que foi quando eu passei a escrever fanfics cada vez menos – foi quando as pessoas começaram a me procurar no meu Tumblr e no meu Twitter, mandando mensagens e perguntas falando o quanto sentiam falta das minhas atualizações”, confessa Nicole.

Assim como a estudante de história, a maior parte dos autores deixam, no fim da página de sua fanfic, seus endereços nas redes sociais e um espaço aberto para comentários. “Eu tive leitores maravilhosos. Eles ajudaram muito. Tive até leitor de Portugal”, conta Beatriz Salvador, com um sorriso. A relação entre fãs e autores é especial a ponto de poder mudar a história. Foi o que aconteceu com Letícia Black em sua fanfiction mais famosa, a Garota de Domingo: “Meu desejo era fazer com que os principais não ficassem juntos, mas eu não podia fazer isso com todas aquelas meninas que comentavam chorosas sobre como tudo era lindo e tudo mais. Então eu engoli minha vontade e fiz um outro final pra elas”.

Ultrapassando fronteiras

A história Garota de Domingo, escrita por Letícia acabou se transformando num livro: a estudante de publicidade ganhou de aniversário exemplares de sua fanfiction. Os fãs da história ficaram tão empolgados que a autora teve que pedir que mais cópias fossem feitas. “Tenho só mais uns 4 ou 5 aqui em casa, perdidos em algum canto”, conta a autora, que conseguiu vender praticamente todo o seu estoque.

Este é um rumo que muitos escritores de fanfictions tomam. A britânica E.L. James, por exemplo, começou escrevendo fanfics do livro Crepúsculo. Uma delas, a erótica 50 tons de cinza, fez tanto sucesso que – após a mudança de nomes dos personagens de Edward e Bella para Christian e Anastasia – foi publicada por diversas editoras ao redor do mundo. Hoje, a fanfiction de E.L. James se transformou numa trilogia que tem presença constante na lista dos mais vendidos.

Óperando

A primeira vez em que leu a fanfiction Ópera, Bia Matera, aluna de Rádio e TV da Faculdade Cásper Líbero, estava no cursinho. “Ficava imaginando um filme na minha cabeça”, conta Bia, que logo entrou em contato com Larissa Nicolau, a autora de Ópera,“Eu falei que gostava da história dela e que um dia gostaria de transformar em uma série, numa novela ou em algo assim”.

No ano passado, durante uma conversa, Bia e uma colega de classe, Mariane Pessoni, descobriram o interesse em comum por fanfictions. Foi quando Bia teve a ideia de adaptar Ópera para uma websérie. “É uma série normal, mas postada no Youtube ou em outros sites de vídeos. A vantagem é que você pode ver onde, quando e quantas vezes você quiser. Geralmente dura de 15 a 20 minutos para ficar mais leve”, explica a estudante.

Após retomar contato com Larissa e receber a aprovação desta, a estudante de Rádio e TV embarcou no processo de produção: “Montamos um projeto, fizemos uma Bíblia, que é um guia geral da série, você monta a sinopse, um argumento de por que essa série deve ser realizada, quais são os objetivos que você tem com ela, qual é o público alvo, quanto tempo terá de duração, descrição dos episódios, quantos personagens vai ter”.

O projeto foi bem aceito pela Produtora Experimental da Faculdade Cásper Líbero, no entanto, foi ressaltada a necessidade de se obter recursos financeiros para a realização da websérie. A solução veio em forma de um teaser: uma espécie de trailer que uma vez colocado online, que servirá como uma forma de captar recursos para a produção dos episódios da primeira temporada. “A nossa ideia é conseguir patrocinadores, se não rolar, paciência”, declara Bia.

A página da websérie Ópera no Facebook já possui mais de 2000 curtidas, a equipe inteira consiste em 13 pessoas, os atores já foram selecionados – foram no casting desde fãs da fanfiction até atores profissionais – e a produção está a procura de locais para as gravações. “Não custa nada, a gente não tem nada a perder. O mundo precisa conhecer essa história”, conclui Bia.

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