O hip hop da gente: breaking e street dance

A descriminalização do hip hop é a maior batalha que quem dança enfrenta. O hip hop é de toda a gente, da gente que aprende nas ruas ou nas academias de dança.

O hip hop está entre os mais populares movimentos culturais da atualidade e vem agregando e moldando pessoas de todas as classes sociais. A cultura hip hop teve origem nas pequenas comunidades afro-americanas, jamaicanas e latinas da cidade de Nova York dos anos 70. Os subúrbios, ou guetos, que viviam o hip hop tinham como objetivo lutar contra a descriminalização racial e problemas frequentes, como a pobreza, a violência e as drogas. Por não terem infra-estrutura adequada para suprir as necessidades básicas de uma comunidade, como educação e cultura, os subúrbios começaram a apostar no hip hop como uma forma de direcionar suas crianças e trazer os jovens para a sociedade novamente.

A primeira organização oficial do hip hop foi criada no Bronx,bairro suburbano de Nova York, e visava acabar com os problemas dos jovens e criar “batalhas” não violentas entre os guetos para pacificar os bairros periféricos. A OMG Zulu Nation foi criada pelo DJ Afrika Bambaataa (pseudônimo de Kevin Donovan) e tem como prioridade deixar vivo o espírito do hip hop, este que é baseado no amor, paz, união e diversão. A ONG organizava palestras chamadas Infinity Lessons, ou seja, aulas cujo conhecimento seria levado para a vida toda, como prevenção de doenças, matemática, ciência, economia e outros conceitos que ajudavam a direcionar o pensamento das gangues. Além disso, a ONG abria espaço para a liberdade de expressão através da arte, para assim, os jovens que se sentissem excluídos por pertenceram aos extratos descriminados da sociedade, pudessem ter voz.

A fim de organizar as vertentes do hip hop, Afrika Bambaataa , reconhecido como o criador do movimento, dividiu o hip hop em rap, djing, breakdance e grafite . Na proposta deste trabalho, iremos analisar o mundo por trás da dança dentro do hip hop que carrega filosofia e movimento.

O hip hop vem crescendo cada vez mais no mundo dos jovens, seja ele da classe social que for. Uma das grandes casas de hip hop é a filial da Zulu Nation no Brasil, em Diadema. Lá são organizadas diversas batalhas, palestras, festivais e aulas.  A cidade de São Paulo é o grande palco para os que desejam aprender e mostrar sua arte. Foi nas praças da Zona Leste de São Paulo que Leonardo Henrique Vilela teve contato com o hip hop pela primeira vez. “Comecei a dança vendo os shows numa praça e procurei a escola que eles treinavam, aí fui, curti e comecei a dançar”. Leonardo estava entre os participantes da Final Regional Batalha de Breaking, organizada pela prefeitura de São Paulo.  O evento tomou o Vale do Anhangabaú e foi parte da “Semana da Cultura Hip Hop”, cujo tema desse ano foi “arte pela vida”. O evento celebrou o Dia Internacional de luta Contra a Discriminação Racial, comemorado no dia 21 de março. A Final Regional Batalha de Breaking reuniu um público bastante variado, desde crianças fascinadas pelos participantes do breaking e seus movimentos precisos e cheios de acrobacias, até curiosos, praticantes e jovens que vibravam com as batalhas centradas no palco.

Os participantes, chamados de “Bboys”, vieram de diversas regiões de São Paulo para disputar no palco o tão esperado primeiro lugar da batalha. Embora a competição tivesse o intuito de dar o primeiro lugar a um grupo de breaking, o que realmente se tornou centro do evento foi a diversidade. Em meio ao público, a dança, a música alta ecoando pelo Vale e a gente dançando, havia invisível a bandeira da luta contra a discriminação hasteada. Não havia distinção de raça, classe social, sexo ou idade. O hip hop abraçou a todos e o Anhangabaú foi palco disso. O jovem “B-Boy” Leonardo , membro do grupo “Gang Style Tradicional”que ficou em segundo lugar na competição, adotou este novo estilo de vida chamado hip hop. “O hip hop é minha vida. É um estilo de vida muito diferente e tira muita gente do caminho errado. Não tem essa de classe social, de cor e de raça. Quando tá todo mundo junto, é uma coisa só. Não tem preconceito”. O Bboy acredita que São Paulo está pronta para agregar o hip hop à sociedade e passar a valorizar a dança como um estilo de vida que encaminha os jovens.

FOTO: Juliana Sonsin LimaFOTO: Juliana Sonsin Lima

Mas as danças do hip hop não são coisas de homem não. No meio de uma roda de Bboys no Vale do Anhangabaú, estava Ana Carolina fazendo as acrobacias no chão e no ar sem desarrumar o cabelo. Ana começou no breaking há quatro anos e já está no street dance há mais de dez e diz conciliar ambas as danças de forma harmoniosa. Ana explica a diferença entre o breaking e o street dance “O Breaking, se você perceber, é mais free style. Você dança o que cria, então exige muito mais disciplina. O Street dance já é mais coreografia, mais show”. Ana diz não haver preconceito pelo fato de ser mulher, pois o hip hop não tem preconceito com nada e nem ninguém. Embora tenha consolidado seu espaço no meio dos Bboys, a Bgirl reclama da falta de mulheres no hip hop.  “Tem pouca mulher pois exige força e resistência e muita menina não quer treinar. No street como é coreografia, é mais fácil, então tem mais mulher. A gente compete também e qualquer evento que tiver marcamos presença,  mesmo que for só pra assistir, pois queremos fortalecer a cultura hip hop”.

Os jovens do hip hop são extremamente conscientizados e por estarem à margem, vivem a descriminalização e falta de valorização todos os dias. Esta descriminalização do hip hop envolve retirar da imagem deste, aquele de periferia, bandido e ladrão. O hip hop não é isso, mas sim uma forma de expressão artística e filosófica onde os jovens encontram seu lugar na sociedade. O estudante e Bboy Erick Brown, diz que tudo no hip hop é fantasiado, pois todos acham que hip hop é coisa de bandido, coisa dos guetos violentos dos EUA, e acabam ficando na margem, sem reconhecimento. Para ele, os eventos são extremamente importantes para incluir os Bboys na sociedade novamente, porém diz que isso não é o bastante. “Tem muitos eventos, mas a maioria é de iniciativa privada. A prefeitura só sede o lugar e mesmo com alguns eventos e um investimento mínimo, acho que podia ser bem mais, por exemplo, organizar junto com os eventos de hip hop, onde muitas pessoas carentes vem assistir, uma assistência médica de graça, odontológica, workshops….”.

Erick Brown teve seu primeiro contato com o breaking dance  no interior de São Paulo, nas ruas, como quase todos os dançarinos, em um espaço que a prefeitura cedia.  Quando veio para a capital, começou a dar aulas em céus visando um trabalho filantrópico de ajudar os meninos que estavam sem rumo. “O hip hop acaba sendo um meio de recreação e um meio de salvar a vida das pessoas. O que me trouxe ao meio social novamente foi o breaking e aqui eu tenho um lugar. Na favela não tem academia, parque, nutricionista, médico…o que acaba direcionando e salvando as pessoas é o breaking, que é acessível a todos. O que me salvou e me trouxe de volta à sociedade foi o breaking. Só com o hip hop eu voltei a ser reconhecido e respeitado tanto quanto o cara que estudou, entende de política, economia e línguas”.

Em outro ambiente e numa outra condição social, o hip hop com o breaking e street dance também é praticado por inúmeros jovens das academias de dança. Embora a vivência destes jovens não seja a mesma que a dos Bboys, a filosofia da dança e da conscientização de que esta pode salvar e direcionar vidas é a mesma.

Lorenza Teixeira de onze anos é estudante de uma academia de dança da zona leste da de São Paulo. Embora sua condição social seja extremamente diferente da de Leonardo, Ana e Erick, Lorenza acredita que a dança do hip hop é uma das melhores formas de expressão. “Comecei no street dance com seis anos na escola. No início era apenas uma modalidade de dança que a escola tinha, mas depois resolvi continuar o street por conta em outra escola. Se eu fosse escolher entre jazz, ballet ou street escolheria street dance! O Street dance é mais solto, mais livre e a gente pode criar”.

Num mesmo contexto social, mas fora das academias de dança, está o estudante de engenharia Mauricio Murakami, que também tomou paixão pela dança do hip hop, porém de um jeito um pouco diferente. Maurício não treina em academias ou vai às ruas. O estudante resolveu começar a praticar o street dance por conta própria após assistir vídeos na Internet e campeonatos mundiais.  “Eu comecei através de meus amigos que viram vídeos e estavam querendo iniciar uma vida no street dance, e eu os acompanhei.” Os amigos praticam com o único intuito de viver a dança e eventualmente participam de alguns campeonatos. “Já presenciei por volta de 5 eventos e participei de 2. Impressionei-me com a diversidade de pessoas, sem preconceitos de tamanho, raça, sexo ou descendência, que participam dessa cultura hip hop”.

Mauricio também acredita no hip hop como filosofia e como guia de vidas. O filantropismo por trás do hip hop é uma ferramenta indispensável no futuro dos jovens do nosso país.  “Muitos jovens e crianças tem a oportunidade de ter um entretenimento para períodos fora da escola, e evitar com que tenham más influências para as drogas e crimes”.

FOTO: Juliana Sonsin Lima

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