Jornaleiros do século XXI

Como é a rotina de quem trabalha nas bancas de jornal  da avenida mais importante da capital paulistana

A Avenida Paulista, inaugurada no final do século XIX, cartão postal da cidade de São Paulo, tem como componentes visuais desde os mais clássicos edifícios até os mais modernos, alguns casarões que sobreviveram ao século XXI, o MASP, o parque Trianon, e entre essas construções passa a larga avenida. Mas, polvilhadas beirando a rua, estão as bancas de jornal, tão comuns a cada quarteirão que acabam passando despercebidas, mesmo pelos leitores de manchetes e compradores de balinhas e de cigarros.

Despercebidas no sentido da reflexão, as bancas já estão tão enraizadas no cenário da Avenida Paulista que parecem até que nasceram junto com a Avenida e que por lá permanecerão eternamente.  Ao todo são 30 bancas que se localizam ao longo da Avenida. Trinta bancas, muitos jornaleiros, muitas histórias e uma grande importância.

Mas para entender melhor o que se passa em cada banca, cinco bancas vizinhas que se situam no lado ímpar da Avenida Paulista, bancas que estão especificamente entre as estações de metrô Trianon Masp e Brigadeiro, foram escolhidas. E cada jornaleiro ajudou a entender melhor o funcionamento e rotina das bancas.

Bancas de jornais e os jornaleiros                          

Hoje, com a virtualização da notícia o trabalho do jornaleiro não deixa de ser menos importante, mas acaba sendo ignorado por algumas pessoas.  Depois da invenção da prensa os jornaleiros foram os segundos maiores responsáveis pela propagação dos jornais às massas. Aqueles menininhos personagens típicos de filme que gritavam: “Extra, extra!”, são conhecidos como os primeiros jornaleiros da história. Conhecidos como “newsboys” esses personagens entregavam jornal nos EUA em meados do século XIX.

Sendo assim, não podemos desconsiderar que em boa parte dos séculos XIX e XX de nada adiantariam jornalistas sem os jornaleiros. No Brasil, segundo estudos publicados no SINDJORSP ( Sindicato dos vendedores de jornais e revistas de São Paulo), os primeiros jornaleiros apareceram há cerca de 150 anos. Na verdade, esse trabalho era feito por escravos negros que saíam as ruas gritando as principais manchetes dos jornais da época.  Com a chegada dos imigrantes italianos vieram os “gazeteiros”, que andavam pela cidade carregando uma pilha de jornais no ombro e vendendo.

Diz a lenda dos jornaleiros que o primeiro ponto fixo para venda de jornais surgiu no Rio de Janeiro, instalado pelo imigrante italiano Carmine Labanca. De modo que o nome “banca” para os pontos fixos de venda de jornais surgiu a partir do nome desse italiano. Até então os jornais eram vendidos em caixotes de madeira, posteriormente, em 1910 passaram a ser vendidos em bancas de madeira e só na década de 50 é que essas bancas começaram a ser feitas de metal. Em 1954, Jânio Quadros, na época prefeito de São Paulo, regulamentou a situação das bancas, por conta do paisagismo da cidade.

A jornaleira Ana Lúcia Couto, 44, proprietária da banca “JC”,  é herdeira da banca de seu pai. Ela conta que a localização da banca não é escolha do jornaleiro, e sim da prefeitura.  Quando o pai de Ana Lúcia, em 1987 resolveu abrir uma banca, a prefeitura apresentou algumas possibilidades de locais para a banca, esses como Praça da Sé, Avenida Faria Lima, Avenida Brigadeiro Luís Antônio, entre outros.  Depois de muita burocracia o local escolhido pelo pai de Ana Lúcia foi um ponto estratégico na Avenida Paulista. A banca JC se localiza na saída do metrô Trianon Masp.

Rotina

Provavelmente, se você anda pela Avenida Paulista em horário comercial, percebe que as bancas estão todas abertas. Mas na verdade, existe uma considerável diferença nos horários de trabalho e organização interna de cada uma.

A banca JC abre de segunda a sexta das 6h às 7h e fecha as 20h30, já a banca vizinha, a “banca do Chico”, abre as 5h30 e fecha só as 22h. A menos de um quarteirão da banca do Chico está a banca Central Paulista, que abre entre 7h e 8h e fecha só às 1h da manhã. Caminhando mais um pouco encontramos a banca “Paulista 2” que abre de segunda a sábado das 6h as 22h, e logo mais a frente, um pouco antes do metrô brigadeiro, a banca” Paulista news” tem o mesmo expediente da banca Paulista 2.

O número de funcionários vária entre 2 e 6 funcionários por banca. Mas a rotina de trabalho é parecida. Quem trabalha na parte da manhã é responsável por abrir a banca, pegar os jornais e revistas que os fornecedores deixam na “caixa” que fica atrás da banca, e montar esses jornais. Bruno Pereira,17, que trabalha na banca ZZZ, explicou que os jornais chegam em pacotes separados por cadernos editoriais, então os jornaleiros do primeiro turno tem que montar todos os jornais e depois expor. Assim começa o dia dos jornaleiros.

E quem trabalha na parte da noite tem a responsabilidade de fechar a banca. Aírton Figueiroa,68, que é o gerente da banca Central Paulista e está lá há mais de 25 anos, trabalha de segunda a segunda das 15h a 1h da manhã, conta que apesar de já ter sofrido um assalto a mão armada na banca, o que o bandido levou foi o de menos. Aírton explica porque gosta de trabalhar a noite: “É uma movimentação normal, nós temos movimento porque tem muita gente que trabalha, dentro desses prédios aqui, que eu não sei te explicar que profissão essas pessoas tem, e saem tarde. Quando essas pessoas saem, elas ficam muito agradecidas em ver uma luz no meio da escuridão, que sou eu, já me falaram isso. Não sei se você já percebeu que é bem escuro pra lá, então quando as pessoas enxergam essa luz aqui, parece que tem uma salvação”.

Conveniência na Paulista

Quem trabalha em uma banca de jornal na Avenida Paulista, não é só jornaleiro, também é uma fonte de informações e coordenadas geográficas para os transeuntes. Em todas as visitas, em todas as bancas, foi possível notar que em média a cada 5 minutos alguém para na banca para pedir informações, seja de nome de ruas, a direção do metrô, onde é a livraria, entre outras.  Ana Lúcia Couto confirma que o que ela mais faz durante o expediente é dar informações, ela e todos os jornaleiros já estão acostumados a informar.

Mas se engana quem pensa que as bancas ainda têm como carro-chefe de vendas os jornais. Apesar do nome, “banca de jornal”, hoje é praticamente impossível que uma banca sobreviva somente com a venda de revistas e jornais.

Assim como a cada 5 minutos passa alguém para pedir informações, mais ou menos nessa mesma média de tempo vem alguém comprar cigarro na banca, seja um cigarro individual ou um maço.  Bruno Pereira,17, da banca Paulista News, esclarece que economicamente não é possível comparar a venda de coisas de preço baixo como cigarros e doces às vendas dos produtos editoriais, mas que com certeza os produtos da conveniência vendem muito mais. Ana Lúcia também confirma que a banca não se sustenta só com a venda de jornais e revistas, outros produtos como guarda-chuvas, por exemplo, acabam vendendo bastante. E também há maior procura de produtos do mercado editorial como os livros de bolso e as coleções que são lançadas periodicamente por alguns veículos como a Folha de São Paulo ou a revista Caras.

Quanto à venda dos jornais, é bem menor do que muita gente imagina, a banca Central Paulista que é relativamente grande recebe por dia uns 20 exemplares de cada grande veículo, desses 20 raramente todos são vendidos. Aírton, o gerente da banca, conta que nos últimos tempos, com a propagação da internet, a venda de jornais caiu cerca de 90%. Já a banca  JC, que é relativamente menor, recebe apenas 5 exemplares de cada veículo.

O funcionário da banca do Chico, Vanderson Gonçalves, 16, ressalta que de domingo e segunda-feira eles vendem mais exemplares, e também recebem mais unidades de seus fornecedores.

Quanto às revistas, foi unânime a afirmação de todos os jornaleiros de que o que vai determinar a quantidade de vendas da semana é a capa, além do acontecimento da semana. Por exemplo: “uma capa com a renúncia do papa vende muito mais do que a capa sobre o preço do tomate”, afirma Ana Lúcia.

Também é unânime a opinião dos jornaleiros de que o jornalismo online é grande responsável pela queda nas vendas editoriais nas bancas. “Estamos perdendo muito clientes para os tablets, nós tínhamos muito fregueses fiéis que vinham todo mês, agora não, agora eles assinam na internet” lamenta Divanil.

Não há como prever o futuro das bancas de jornais da Avenida Paulista, por enquanto, mesmo não vendendo tantos produtos do mercado editorial como antes, as bancas ainda são muito procuradas todos os dias pelas milhares de pessoas que passam pela avenida. Seja para comprar um jornal pela notícia do dia, seja pela revista a qual a capa chamou atenção, seja pelo vício do cigarro, seja pela necessidade da balinha ou o guarda-chuva no momento inesperado, as bancas continuam fazendo parte de uma forma ou de outra do cotidiano de milhões de paulistanos.

E apesar da relativa queda nas vendas e toda a virtualidade do jornalismo atual, Divanil, mesmo lamentando a decadência nas vendas, acredita que os jornalistas ainda dependem dos jornaleiros: “ É um jogo de gato e rato, as editoras dependem das bancas,  se você lança uma revista ninguém vai se interessar por ela ao menos que ela não esteja em uma vitrine na banca. O primeiro contato do leitor com a revista é na banca. As editoras dependem das bancas para divulgar seu trabalho.”

Alguns lamentam a fase que as bancas de jornal passam, outros ainda acreditam em uma possibilidade de reestruturação do modelo. Bruno Pereira argumenta que as bancas podem sobreviver futuramente se adaptarem um formato parecido com uma loja de conveniência.

Unanimidade

Ainda que o funcionamento mude de banca para banca, as crenças no futuro da profissão também. Uma afirmação foi unânime entre todos os 5 jornaleiros entrevistados,  para eles, o contato com as milhares de pessoas a cada dia é a graça do ofício. Nas palavras de Aírton: “Eu adoro lidar com as pessoas. As pessoas tem magia, cada uma abre a boca e pronuncia uma coisa inesperada, o inesperado vem delas. A plástica das pessoas se difere. É muito gostoso, lidar com as pessoas é muito bom.”

E não é só de clientes anônimos que vivem as bancas da Avenida Paulista, Ana Lúcia contou que ficou impressionada com as visitas e a quantidade de presentes que recebeu de seus fiéis fregueses quando teve seu primeiro filho. “As pessoas me visitaram no hospital e me mandaram presentes. Foi muito lindo, eu não esperava por tudo isso”.

Segundo Divanil, “ trabalhar com o público é um desafio, nunca é a mesma coisa”. Bruno Pereira e Vanderson Gonçalves concordaram que a parte mais legal do trabalho é lidar com as diferentes personalidades.

O gerente Aírton e a proprietária Ana Lúcia se contagiaram com a profissão e já estão há cerca de 20 anos no ramo. Divanil trabalha há 6 anos na banca, entrou como um “bico” para melhorar sua renda e acabou se tornando gerente, hoje aos 38 anos ele melhorou sua condição financeira, está cursando direito e pretende sair da banca quando se formar. Quanto as jovens Bruno e Vanderson, resta saber se vão se encantar com o ofício ou seguirão outros caminhos.

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