Juventude analógica

Em tom de brincadeira, amantes da fotografia analógica
utilizam
 câmeras de filme como forma de arte experimental

Há quem diga que a fotografia analógica está de volta, mas a verdade é que ela nunca sumiu. Você pode até se perguntar: “Como assim? E as câmeras com milhões de megapixels? Já não passamos da época de rebobinar filmes?”. De fato, a fotografia digital assumiu rapidamente o espaço em que, durante muito tempo, reinou o analógico. Os que já cantavam sua morte ficaram completamente convencidos quando a Kodak pediu concordata, em 2012. Ainda antes, o fechamento da fábrica da Polaroid, em 2008, e o fim de um dos mais famosos filmes no formato 35mm – o Kodachrome –, também eram anúncios  pessimistas.

Esses acontecimentos realmente levam a crer, num primeiro momento, que não há mais espaço para as analógicas. Porém, não se engane: tudo que é velho se torna novo. No meio de uma sociedade digitalizada, há um grupo de pessoas que ainda vê potencial nos filmes. Muitas marcas nunca abandonaram o segmento também, como a Fujifilm e a Ilford, que recentemente anunciou o lançamento de uma câmera pinhole – uma câmera fotográfica sem lente, seguindo os conceitos da câmara escura, mãe da fotografia.

Como pontuou André Côrrea, dono do site Queimando Filme, esse universo analógico é composto de várias tribos, como os nostálgicos – apaixonados por câmeras amadoras antigas, como Polaroid ou Instamatic –, os puristas – que gostam de câmeras e filmes profissionais –, os experimentalistas – capazes de destruir câmeras em busca de algo artesanal e inédito. Por último, temos os praticantes da lomografia, que deram ao analógico um ar lúdico. Com suas câmeras de plástico e imagens saturadas, nadam contra a corrente do Photoshop.

COMO TUDO COMEÇOU

Para entender melhor a lomografia e seu significado atual, é preciso voltar um pouco na história e conhecer suas origens. Tudo começou em 1914, quando surgiu na antiga União Soviética uma fabricante de câmeras fotográficas chamada LOMO – sigla para Leningradskoye Optiko Mechanichesckoye Obyedinenie, que em tradução livre significa União de Óptica Mecânica de Leningrado.

Durante a Guerra Fria, o general Igor Petrowitsch Kornitzky, do Ministério da Indústria e da Defesa Soviética, se encantou por uma câmera fotográfica japonesa. Ela era compacta, resistente e possuía lentes de alta qualidade. E, o mais importante, sua produção era barata: a estrutura era inteiramente de plástico. Ordenou que a LOMO fabricasse réplicas da máquina, de modo que qualquer um pudesse levá-las para onde quer fosse e registrar o modo de vida soviético. Foi aí que nasceu a LOMO Kompact Automat, mais conhecida como LOMO LC-A, a precursora dessa história toda.

Mas foi apenas nos anos 90 que a LOMO LC-A revelou seu potencial. Você pode até achar que foi coisa do destino, se quiser. Dois amigos vienenses estavam de férias na República Checa e compraram uma LC-A para registrar os momentos da viagem. De volta à terra natal, revelaram os filmes e se encantaram pelos efeitos que a câmera produzira. Fotos com cores vibrantes e alto contraste, vinhetas criando bordas escuras nos cantos, desfoques que davam ar de sonho às imagens. A empolgação foi tanta que logo a compacta já era febre entre os jovens da cidade, espalhando a estranha beleza das fotos.

Não demorou para que criassem a Sociedade Lomográfica, com objetivo de disseminar o estilo fotográfico peculiar e impedir o desaparecimento da LC-A, já que a fábrica russa anunciara seu fechamento. A partir daí, os lomógrafos expandiram seus horizontes através da internet e com exposições ao redor do mundo, criando inclusive outros modelos de câmeras.

Hoje, a Sociedade Lomográfica cresceu e, mais do que um grupo de amigos irreverentes, é uma marca de peso, a Lomography. Não vendem apenas câmeras ou filmes, mas experiências fotográficas. A arte da lomografia é justamente o registro do cotidiano, do acaso. “Leve sua câmera onde quer que você vá”. “Não pense”. “Você não precisa saber o que foi capturado no filme”. Essas são algumas das 10 Regras de Ouro da Lomografia. Obviamente, a última regra diz para que nenhuma delas seja levada à sério. Tudo é pautado no imprevisível e deve ser, acima de tudo, divertido. Mais do que estilo de estético, para muitos é um estilo de vida: a experimentação.

“Por mais estranho que pareça, o analógico me deu mais liberdade e imaginação para fotografar, e a Lomography tem sua parte de culpa por isso. Comecei a fotografar com ainda mais vontade, a querer testar diferentes técnicas e filmes, a experimentar. Acredito que as lomos ajudaram a reimpulsionar a onda do filme com seu ar vintage e ao mesmo tempo moderno”, diz Marina Goulart de Faria, de 24 anos. Marina é assistente de fotografia e tem um espaço na internet dedicado para colecionar suas fotografias analógicas. Recentemente, Marina fez um intercâmbio de filmes com uma conhecida de Portugal. As duas gostaram tanto do resultado que já planejam uma segunda troca.

NOSTALGIA?

Por essas e outras, a lomografia tem chamado tanta atenção de jovens, até mesmo aqueles que nunca antes haviam rebobinado um filme na vida. Há uma certa divergência entre o que motiva esses jovens: seria nostalgia de período que nem viveram? Ou a inquietude diante de um mundo que muitas vezes parece ir rápido demais?

Thais Lombardi, de 23 anos, é fotógrafa e defende  o segundo argumento. Apesar de ter nascido e crescido no meio analógico, ela enxerga o sucesso da analógica como “um modo de se posicionar em um mundo que caminha a passos largos para a padronização”. Para ela, os saudosistas existem sim, mas são apenas aqueles que realmente viveram essa época. Ela, que trabalha o dia inteiro com uma câmera no pescoço, se sente realmente livre para fazer o que quiser quando faz suas experiências com a analógica, que leva sempre na bolsa. “É nesta hora que sou eu, sem contratos ou obrigações. A analógica representa liberdade, por mais estranho que isso possa parecer”, diz ela.

A capacidade de se expressar através do imperfeito acaba seduzindo, em meio a um mundo de imagem lavadas e manipuladas. “Com a fotografia digital, acabamos perdendo a surpresa, e sem querer banalizamos um pouco o que é a fotografia. O analógico resgata isso.”, diz Natália Nambara, de 25 anos, uma das responsáveis pelo site Lomogracinha, um dos muitos a respeito do tema.

Muitos integrantes não possuem apenas uma câmera. Não foram poucos que contaram nos dedos das mãos, ou que pararam para pensar sobre a quantidade de máquinas fotográficas que possuem. Aparentemente, esse é um hobby viciante e os apaixonados estão sempre testando novas possibilidades, seja com filmes, compactas ou acessórios. Além disso, não defendem a ideia de ‘guardar filme’ para ocasiões especiais, mas de levá-la sempre que possível para onde for. Você nunca sabe se algo de especial vai acontecer quando sai de casa.

“É como comida: se você quer só comer bem, pode simplesmente ir a um bom restaurante. Mas se você quer a experiência da culinária, vai querer fazer um prato você mesmo, comprar os ingredientes, pesquisar uma receita, ficar na expectativa da comida sair do forno, e degustar o orgulho de comer um prato que é realmente seu.”, diz André.

LABORATÓRIO DE EXPERIÊNCIAS

A própria Lomography faz questão de alimentar a comunidade e atrair novos integrantes, promovendo workshops e eventos regularmente. Além disso, o site oficial disponibiliza um espaço para compartilhamento de fotos e interação. O último evento realizado pela empresa foi o Caterpillar Lomográfico, dia 23 de março: cada participante deveria tirar fotos da pessoa atrás de si e passar a câmera adiante, criando uma espécie de “centopéia fotográfica”. Não importa se você é fotógrafo profissional ou não, se já utilizou alguma câmera de filme ou é a primeira vez: todos estão ali para se divertir. “Foi meu primeiro evento da Lomography, gostei bastante e estou me programando para ir em um workshop agora”, disse a Nanci Yin, animadora digital de 19 anos.

O evento ocorreu em todas as  cidades que possuem uma loja da Lomography: Nova York, Londres, Paris, Berlin, Tókio, e Istambul são apenas algumas filiais. No Brasil, as lojas estão em São Paulo e Rio de Janeiro. No mesmo dia e horário, diversos lomógrafos se reuniram e apontaram as câmeras para quem estava atrás de si. “Sempre organizamos eventos, exposições e workshops. É um reflexo da lomografia: eu, por exemplo, levo uma câmera comigo para todo lugar, faz parte da magia.”, diz Marina Marchesan, 24 anos, gerente da loja e responsável pelo evento.

Gratuito, para participar não era preciso nem ter câmera: a loja emprestou para aqueles que quiseram se aventurar. No final, todos os filmes foram enviados para a matriz, em Viena. Lá, serão revelados e se tornarão um vídeo com todas as fotos ao redor do mundo. O evento terminou com um encontro na própria loja – localizada na Rua Augusta, 2481 –, com um bate-papo descontraído. Nanci, que chegou ao evento tímida e sem companhia, terminou conversando com várias outras pessoas presentes.

E acompanhar a Lomography é apenas um dos caminhos para entrar neste universo. Como é possível perceber, a comunidade lomográfica é o principal motor para o hobby. “Quem não está ativo nos locais onde a comunidade se reúne perde muito”, completa André. Como a graça é fazer as coisas de seu jeito, muitas pessoas vão além dos eventos e projetos oficiais da marca e criam sua própria fonte de informações, como as meninas do Lomogracinha. Lá, Natália e as outras duas integrantes falam da fotografia como um todo, não apenas do universo analógico. O site, que começou tímido, cresceu e hoje é uma das principais fontes sobre o assunto. Para aumentar a interatividade entre os leitores, elas criaram um grupo no Facebook, onde quem quiser pode tirar dúvidas, trocar informações, compartilhar fotos e histórias.

Além delas, o site Queimando Filme, de André Corrêa, é um dos grandes portais para esse universo. A proposta do site é ainda mais ampla: André não queria limitar o projeto a uma tribo ou marca, mas sim um espaço que aconchegante tanto para os mais experientes quanto novatos. Com tutoriais, análises críticas e informações detalhadas, o Queimando Filme é um verdadeiro dossiê da fotografia analógica.

Para ampliar o contato com leitores, o site também conta com uma comunidade no Facebook. Desde o ano passado, em parceria com o Instituto Internacional de Fotografia, criaram o Filmepalooza, uma feira sobre fotografia analógica, totalmente independente da Lomography. Lá ocorre bazares, palestras e exposições de fotografias, de forma bem descontraída,  convidativo para os curiosos.

Além de sites e comunidades, existem projetos específicos de trocas de filmes ou câmeras viajantes. Um deles, chamado Rebobina Filme, funciona de forma coletiva e traz resultados muito inusitados. Funciona de forma bem simples: as pessoas se inscrevem para uma ‘temporada’ e as duplas são sorteadas aleatoriamente. Um dos participantes da dupla compra o filme e fotografa o rolo inteiro, rebobina e envia para outra pessoa, que também vai fotografar nesse rolo “por cima” das imagens já feitas. O resultado são duplas-exposições e um olhar novo na hora de fotografar, uma expectativa ainda maior em ver os resultados.

ENTRE NA BRINCADEIRA TAMBÉM

É importante ressaltar que você não precisa ter uma câmera da Lomography para fotografar no estilo. Embora muitos gostem das dos produtos vendidos, a lomografia em si é mais do que isso: é sobre incorporar os erros nas imagens – os desfoques, as sobreposições, vazamentos de luz, granulações, entre outros – e achar graça nos imprevistos. Você deve sempre esperar pelo inesperado. Marina Marchesan, gerente da Lomography, fala que uma das coisas que mais gosta das analógicas é a surpresa: ela às vezes até se esquece do que tinha no rolo de filme, e acha muito divertido redescobrir o que fotografou.

Um dos produtos vendidos pela marca, por exemplo, são filtros coloridos para o flash das câmeras, que resultam em imagens altamente saturadas, de forma quase psicodélica. Mas você não precisa comprar os filtros: bastam pedaços de papel celofane coloridos para fazer filtros caseiros. “O ruim de fazer coisas muito mirabolantes é na hora de revelação, pois não são todos os laboratórios que fazem direitinho, e aí eles podem danificar o seu filme”, alerta Natália.

Apesar dos primeiros resultados nem sempre satisfazerem (a fotografia analógica pode ser bem temperamental), não desista. O fotógrafo e colaborador do Queimando Filme, Bruno Massao, de 26 anos, dá uma dica aparentemente óbvia, mas valiosa: “Estude fotografia. É a primeira coisa que falo. Muita gente se frustra e acaba desistindo das lomos por conta disso, mas no fundo uma lomo é como outra câmera qualquer: tem abertura, velocidade. Sua imagem vai se basear nisso”.

Em uma sociedade onde a fotografia está constantemente presente, disponível em quase todos os celulares, a fotografia analógica se mantém como uma ilha de resistência, agregando continuamente novos adeptos e provando que o importante é registrar o momento de maneira única, e não com 200 cliques iguais. Unindo técnicas do passado e olhares do presente, a lomografia se tornou uma forma simples e criativa de se expressar. Você pode errar, você deve errar. Só não pode deixar de se divertir. Fica dado o convite.

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