Luz, câmera, cadê?

Os tempos modernos chegaram e levaram das ruas os charmosos cinemas “de calçada”.

“O cinema não tem fronteiras, nem limites. É um fluxo constante de sonhos” – Orson Welles

As mais nostálgicas histórias sobre o passado em São Paulo coincidem em um ponto: as ruas, principalmente próximas ao centro, onde se podia passear, ver crianças brincando e encontrar quaisquer serviços que fossem necessários, eram quase unanimidade entre os que viveram boa parte do século XX. Logo no início deste, no ano de 1907, a famigerada Avenida São João foi a primeira a receber um estabelecimento que mudaria a indústria cultural nacional e que se espalharia como uma epidemia na região: o Bijou-Theatre, dos empresários Francisco Serrador e Antônio Gadotti, que foi o primeiro cinema de rua inaugurado na cidade.

Os primeiros cinemas de rua eram caracterizados por público, interesses e estrutura bastante diferentes dos cinemas nos moldes em que são concebidos atualmente. Geralmente ofereciam uma sala única, o que possibilitava que apenas um filme estivesse em cartaz durante determinado período de tempo. Diferentemente das salas atuais, reduzidas e dispostas em forma de auditório, grande parte dos antigos cineteatros comportavam públicos maciços, frequentemente acima dos 1000 espectadores, e tinham cadeiras dispostas no mesmo plano.

O público que fazia filas nas bilheterias para assistir aos primeiros ensaios da filmografia brasileira ou às grandes obras dirigidas por Alfred Hitchcock ou Charlie Chaplin e estreladas impecavelmente por nomes como James Stewart, Paul Newman e Grace Kelly tinha outra motivação: ir ao cinema não era apenas um passatempo ou a realização da vontade de ver um filme; era uma experiência completa por si só. Era o que trabalhadores e estudantes planejavam para seu tempo livre e o que os extasiava e satisfazia. “Não tenho tantas memórias de infância, mas jamais esquecerei a primeira vez que entrei em uma sala de cinema, na Vila Madalena, para assistir Tubarão, de Steven Spielberg. Não sei o porquê, mas me marcou”, desabafou o comerciante Eduardo Gusmão, de 52 anos, que admite ter deixado de frequentar os filmes após sua mudança quase total para os shopping centers.

No começo do ano de 2011, o Cine Belas Artes, localizado próximo à esquina da Rua da Consolação com a Avenida Paulista, um dos mais importantes cruzamentos da cidade, foi fechado por motivos financeiros, como a crônica de uma morte anunciada há, pelo menos, 30 anos. Com sua ida, veio a reflexão: por que os tradicionais cinemas de rua foram abandonados?

As respostas são muitas, como também as reações a elas. O que se convenciona é de que o declínio começou a partir da década de 1970. Nesta época, o centro de São Paulo perdeu parte do encanto que inspirava Adoniran Barbosa a Caetano Veloso e passou a se tornar um lugar temido e evitado. A falta de segurança afastou o público da região onde se encontrava a maior parte das salas tradicionais. Segundo Affonso de Oliveira, síndico há 22 anos do Edifício Copan, na Avenida Ipiranga, onde funcionava o antigo Cine Copan, “quando cheguei à administração, o prédio, como todo o centro, era um lar de marginalizados. O excesso de criminalidade, prostituição e mendigagem afastou o lazer do centro, o que só voltou a mudar próximo à virada do século”. O destino do Cine Copan foi o mesmo de muitas outras salas. Em 1986, ele foi fechado e ocupado pela Igreja Evangélica Apostólica Renascer em Cristo. A própria disposição de cadeiras colaborou para que muitas igrejas se instalassem onde outrora haviam cinemas.

Outro problema foi a entrada da televisão e, posteriormente, do VHS e do DVD no cotidiano paulistano. Segundo pesquisa do Instituto DataFolha de 2007, apenas 48% do público brasileiro revelou que costuma ir ao cinema, seja em um período de mais de uma vez por semana a menos de uma vez por ano. A mesma pesquisa apontou que 95% do público tem o costume de assistir filmes. Contudo, a preferência de 44% destes é pelo DVD, a de 25% pela TV e apenas 23% admitiram preferência pelas salas de cinema.

A saída do cinema das ruas está intimamente ligada à mudança do olhar sobre o fenômeno cultural em si, seu público e a programação exibida. Ao procurar a segurança e o conforto dos shoppings, dentro do maior símbolo da sociedade consumista contemporânea, em meio a lojas e restaurantes, os cinemas atraíram um novo público. “O que vemos mais aqui durante a semana são pré-adolescentes e adolescentes em grupos grandes, ou casais jovens. Nas sextas, há mais casais e nos finais de semana aparecem as famílias”, revelou Jaqueline dos Santos, gerente da unidade do Shopping Jardim Sul, no Panamby, da rede UCI de cinemas.

A programação da rede UCI favorece essa maior abrangência de consumidores: os filmes que entram em cartaz são produções de alto custo e grande potencial de publicidade, que chegam como sucessos de bilheterias nos Estados Unidos, principalmente. A rotatividade dos títulos disponíveis também é maior; se a procura por algum filme está abaixo do esperado, ele é substituído prontamente, o que é reflexo da ligação deste mercado com o lucro.

Já o CineSESC, localizado na Rua Augusta, na região dos Jardins, possui uma lógica de funcionamento diferente. Em sua grade de programação, não há tantas sessões diárias como na UCI, e os chamados “blockbusters”. Ou seja, os sucessos de público são minoria, em detrimento a documentários, mostras de renomados diretores e alguns filmes mais artísticos, tanto em forma, como em conteúdo, os chamados filmes “cult”. Esta sala foi a escolhida por Manuel e Odete Ferreira em uma tarde de quinta-feira deste mês de abril para conhecer a produção iraniana “A Separação”, vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2012. O casal, que beira os 70 anos de idade, revelou que frequenta salas de cinema sempre que possível desde que se conheceu, há cerca de 50 anos. Manuel explicou a mudança estrutural ocorrida com o passar do tempo: “No meu tempo se saía para o cinema sem nem sequer saber que filme estava em cartaz. Ir para o cinema no centro, com os amigos, com os pais, primos, irmãos, era um dia em que nada podia dar errado, só queríamos chegar em tempo de pegar a próxima sessão. Hoje se consulta a programação via internet para depois se decidir se vale a pena ou não. Não se vai ao cinema, se vai ver tal filme”.

Para a estudante de cinema Mariana Pereira, a situação é compreensível: “Por estar dentro do shopping, as salas de cinema atendem à filosofia que rege o espaço sociológico do shopping, ou seja, eles precisam lucrar. Abre-se várias salas, com pequenos intervalos entre as sessões, o que não é a lógica do cinema de rua na sua origem”. Além da forma, Mariana defende que o conteúdo exibido se insere na mesma lógica: “Raramente se verá Bergman, Hitchcock, Kurosawa ou Fellini em cartaz em um shopping. Primeiro porque não se exibem mostras ou clássicos, apenas lançamentos. Segundo porque são densos e seu público é restrito e específico. A grade dos shoppings quer produções de Hollywood, que são mais digeríveis, têm começo, meio e fim e uma estética agradável. Normalmente você assiste a esse filme e sai com ele completo, pois não há o intuito de induzir reflexão ou angústia. Nas salas das ruas, não há essa preocupação. Pode-se exibir aquilo que você sabe que tem gente interessada, e essas pessoas sabem que só vão encontrar lá”.

Outra pesquisa realizada pela Ancine revelou a decadência do cinema em geral, mas excepcionalmente do cinema de rua. Segundo os dados, há cerca de 1000 salas de cinema a menos hoje do que havia em 1975. Além disso, 83% das salas atuais estão dentro de shoppings, sendo que nos estados do Maranhão, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe não possuem uma sala de cinema de rua sequer. Em São Paulo, há mais de cinco salas em shoppings para cada cinema na rua.

O cinema enquanto estabelecimento seguiu a linha de condomínios, lojas e restaurantes: enclausurou-se na tentativa de oferecer maior conforto e segurança. Com a atual revitalização do centro da cidade de São Paulo, algumas salas, em sua maioria modernizadas por investidores como bancos, voltaram a ter certa procura e conquistam um público fiel. Geralmente mais crítico que o do shopping, esse público não pode ser estereotipado, mas une-se em torno da paixão pela sétima arte. Os espectadores que preferem redes como Cinemark ou UCI procuram em sua maioria o lazer e, muitas vezes, a abstração.

Seja como for, por lazer, profissão, hobby ou passatempo, o cinema enquanto lugar físico, assim como os jornais e os livros impressos, não desapareceu com a competição da TV e da internet. Como diria o personagem Alex DeLarge, de Laranja Mecânica: “É curioso como as cores do mundo real parecem muito mais reais quando vistas no cinema”.

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