Muito além dos palcos

Com o aumento do número de espetáculos do teatro musical a seleção e preparação dos atores se torna cada vez mais desafiadora

Em um espaço despojado alunos assistem sentados a três colegas se apresentarem para as pessoas que irão avaliá-los. A vaga é para o papel do personagem Claude, protagonista do musical Hair, sucesso da Broadway que conta a história de uma tribo de hippies através de canções contagiantes. Os três candidatos atuam separadamente. Se alguém esquece uma fala, os outros alunos ajudam. “Eu? Eu na verdade não sou ninguém. Eu sou só um ser humano”. Quando começam a entoar a primeira frase, Maiza Tempesta, criadora de escola de formação de atores para o teatro musical,TeenBroadway, e Fernanda Belinatti, professora de interpretação, se concentram em analisar cada detalhe.

A preparação de atores para o teatro musical exige cada vez mais aptidões, afinal, o gênero enfrenta hoje um aumento de produções. “Não era da cultura brasileira assistir musicais” conta Maiza Tempesta. Maître em jazz dance, coreógrafa e diretora de espetáculos, ela criou em 1992 um curso para atores de teatro musical que só aceitava adolescentes na escola de idiomas Cultura Inglesa, em São Paulo. Ao perceber que havia cada vez mais adultos procurando por cursos como aquele, já que tinham que estudar interpretação, canto e dança separadamente, Maiza – que integrou o elenco do musical A Chorus Line na Broadway em 1983 – criou um curso de férias para adultos “No primeiro curso já tinha 50 pessoas” lembra.

A TeenBroadway surgiu em 1996, após Maiza perceber que ao mesmo tempo em que o número de espetáculos crescia, faltavam cursos de preparação para o teatro musical. Ela conta que a escola foi pioneira e que depois dela, outras escolas começaram a surgir através da demanda do mercado, que passou a incorporar cada vez mais profissionais que dominassem as três áreas essenciais do gênero: canto, dança e interpretação. “Abriu um mercado de trabalho para um cantor, para um bailarino. Então, quem era só cantor começou a estudar interpretação. O mercado pedia mão de obra especializada” explica.

Para a montagem do musical Hair em solo brasileiro no ano de 2011 se candidataram cinco mil profissionais que tiveram que passar por testes de dança, canto e de personagem. Dois mil atores foram selecionados por currículo e apenas trinta integraram o elenco do espetáculo de Charles Möeller e Claudio Botelho, pioneiros no estabelecimento do gênero no país.

Fernando Rocha, ator e bailarino que interpretou o personagem Berger, outro protagonista do musical, conta que no Brasil é mais difícil fazer uma carreira de musicais. Ele abandonou um curso de Direito para seguir a carreira de bailarino e dançou no Balé da Cidade de São Paulo até se aventurar pelo gênero musical. “Tive uma audição para (o espetáculo) Blue Jeans e fui fazer o teste sem saber do que se tratava um musical. Fui porque tinha um teste dança, foi na cara de pau. Nunca tinha cantado e me joguei para cantar” brinca.

Foi em 2002, com o espetáculo A Bela e a Fera que Fernando começou a se especializar para o teatro musical através de aulas de canto. Ele conta que hoje a concorrência é maior. “As pessoas estão começando muito jovens. Hoje em dia tem muita gente preparada”. Porém, as dificuldades são igualmente grandes. “Musical é muito específico, principalmente para uma carreira na qual você quer se destacar como ator” conta. Além disso, encarar a rotina de um musical requer muito esforço. Rocha entrou para o elenco do musical Hair depois que o diretor Charles Möeller o viu em um espetáculo de ópera. Como ocorre quando há indicações, o ator fez apenas um teste de personagem, no qual foi aprovado. “A indicação tem que ser válida. Se você tem uma pessoa que é muito boa no que faz e você acha que ela seria bacana então ela merece estar ali” opina.

A primeira seleção se dá por currículo, etapa na qual ocorre uma triagem grande. Dependendo do musical, a próxima etapa geralmente é um teste de dança, no qual os atores entram em contato com trechos da coreografia para serem avaliados tecnicamente. Em seguida os candidatos recebem uma partitura para executar o teste de canto. A etapa final consiste em um teste de personagem, que avalia a compatibilidade com o perfil do ator. “É tudo muito rápido. Você tem que lidar com a tensão de ter uma banca na frente. É fazendo os testes que a gente avalia como está” acrescenta Fernando.

Hugo Bonemer, ator paranaense que interpretou o personagem Claude em Hair, conta que o teste para o musical foi carregado de muita tensão. Ao conseguir o papel do hippie introspectivo que é convocado para lutar na guerra do Vietnã, Hugo mergulhou em dias de muito estudo. “A busca pelo personagem Claude foi uma pesquisa intensa do texto. A peça tem uma série de elementos incríveis para uma construção” conta. O musical é acompanhado por canções às vezes frenéticas e exige muita energia dos atores. “Fazíamos um treinamento físico quase militar para suportar a temporada que viria. A exigência física e mental foi gigantesca. Mas, depois de um tempo, passou a ser o ‘novo-normal’” conta Hugo. Com tanto estudo e concentração o trabalho acaba rendendo bons frutos e os atores se acostumam com a dor, que passa a ser uma companheira. “Tanta coisa se aprende e tudo o que parecia difícil foi se tornando prazeroso” lembra.

Para Fernando Rocha, que interpretou o personagem Berger em São Paulo, o desafio também foi grande. “Fiz o pai do Claude no Rio de Janeiro e era cover do Berger. Um dia o Igor (Rickli) se machucou e eu tive que entrar em cima da hora. Imagine uma cena de abertura como a do Berger e entrei quase sem ensaio”. Fernando teve que entrar em cena com um solo no qual cantava de tanga depois de interagir com a platéia subindo nas poltronas. Quando um ator tem que entrar em cima da hora para substituir um colega, quase não há tempo para ensaios. “Você passa o dia todo estudando. O coração parece que vai explodir, mas você tem que fazer. Foi um sufoco, fiquei sabendo no dia, mas o show não pode parar” lembra Fernando, com certo desespero. A sua atuação agradou os produtores do espetáculo e quando Hair foi para São Paulo, Rocha foi convidado a interpretar o personagem Berger, já que o ator que o interpretava antes se engajou em outro projeto.

No Brasil, os espetáculos geralmente têm sessões de quinta a domingo, diferente da Broadway que investe em dois elencos para encarar sessões de terça a domingo. Em dias de duas sessões, como nos sábados, a exigência física é muito maior. “A gente fica morto no final. No começo é sempre mais cansativo, mas no decorrer do tempo você aprende a dosar a energia” completa Fernando. O cansaço assim como a recepção do público varia ao longo das apresentações. “Cada dia é um dia, cada sessão é uma sessão, cada público é um público, não há muita regra” explica.

Se antes os atores viam o gênero com certo receio e tinham que estudar tudo separadamente, hoje a preparação dos atores para o teatro musical acompanha as exigências do mercado, que promete crescer ainda mais. “O mercado de musical chegou para melhorar a qualidade dos atores porque deu esperanças a milhares de pessoas que queriam seguir a profissão e não sabiam por onde começar. Agora existe um ponto de partida. Canto, dança e interpretação. Todo mundo está correndo atrás por uma questão mercadológica” resume Hugo. Com o aumento da concorrência, o investimento dos atores para se aprimorar no cenário começa cada vez mais cedo e fora dos palcos. “Quem está começando já tem essa consciência. Os cursos de teatro musical hoje em dia são quase uma faculdade” analisa Fernando.

Na escola TeenBroadway, que é voltada para o público jovem, os alunos aprendem atuando em diferentes gêneros de musicais e é a partir deles que se estuda a técnica e os estilos de cantar, dançar e atuar em cada caso. “Cantar para o teatro musical é diferente, a atuação e o modo de dançar também. Todos os testes aqui são feitos como é feito no mercado profissional” explica Maiza, criadora da escola. Segundo ela, os treinos ocorrem com a leveza e a rigidez necessária para prepará-los para o mercado. A única diferença está no fato de que na TeenBroadway os alunos recebem um feedback para avaliar o que precisam mudar, algo que não ocorre em testes de elenco do mercado. “Costumo dizer que a gente faz um espetáculo profissional para amadores” define. Desde a iluminação até a qualidade técnica do som, a infraestrutura segue os padrões de espetáculos profissionais.

No primeiro semestre de 2013, os alunos têm a oportunidade de estudar a partir dos musicais Mamma Mia e Hair. As audições para selecionar os alunos para cada papel ocorreram na manhã de um mesmo sábado. Na audição do espetáculo Mamma Mia havia crianças. Os alunos conversavam sentados no chão e pediu-se silêncio. Aqueles que estavam sendo testados pareciam nervosos e os avaliadores indicavam os pontos a serem melhorados e às vezes pediam que alguma cena fosse refeita. No final, houve uma apresentação com todos os alunos, que levaram um puxão de orelha por esquecerem parte da letra e da marcação. “Tem que estudar em casa” aconselhou Maiza Tempesta. Logo em seguida ocorreu a audição para o musical Hair, no qual só podem se inscrever adultos por causa da temática do espetáculo. “É um espetáculo que pede menos técnica na parte de dança. É mais complexo na parte da atuação e de canto. Então damos preferência para atores que consigam se desenvolver melhor nas duas áreas” explica Fernanda Belinatti, atriz, diretora de espetáculos e professora de interpretação da escola.

Pietro Lacerda, aluno da TeenBroadway há dois anos, concorria ao papel do personagem Claude. O nervosismo o fez esquecer algumas falas, mas ele logo foi aconselhado a relaxar e a improvisar. Pietro começou a atuar aos 15 anos e quando entrou para a escola de preparação de atores para musicais não tinha experiência em canto e dança. A escolha em seguir uma carreira de musicais, diz ele, veio naturalmente. “Crescemos assistindo os musicais da Disney. É um grande impulso. Quem nunca sonhou em ser o Aladdin e cantar como ele? No teatro conseguimos consolidar isso e ser o personagem”.Hoje, aos 21 anos, Pietro tem uma carreira como ator e cursa Administração de empresas. “Não sei se eu estou completamente preparado. Hoje eles exigem muito mais do que antigamente”. Para ele, um dos diferenciais da escola, onde diz ter se sentido bem acolhido é a identificação que ela ajuda a criar entre os alunos. “É uma energia diferente. A gente aprende a ser companheiro um do outro.”

A determinação e a vontade de aprender é algo que todos parecem ter em comum. A professora Fernanda conta que aqueles que procuram pelo curso são dedicados, estudam e tiram dúvidas. Tão importante quando cantar, atuar e dançar bem é a dedicação, pois sem esforço o aluno não alcança bons resultados. “A maior dificuldade é juntar as três áreas, canto, dança e interpretação” explica. Roberto Donadelli, aluno da TeenBroadway desde 2004, sente mais dificuldade nas técnicas de dança. Ele já atuou em espetáculos profissionais como Avenida Q e hoje se considera um ator. Porém, o esforço não para por aí. “Eu ainda enfrento o desafio de mixar todas as coisas juntas. O musical é um show e sempre exige o máximo de todo mundo. É um desafio constante”. Na escola, as diferenças entre os alunos e a renovação dos cursos permitem que cada um leve um pouco de sua bagagem. Mesmo assim, os testes de elenco ainda o assustam. “Eu fico desesperado em audições. Não tem jeito, faz parte” brinca. Seu sonho? Interpretar o personagem Marius do espetáculo Les Miserables. “Hoje se perguntarem a minha profissão digo que sou ator” conclui.

Com tantos musicais em cartaz, a criadora da escola consegue identificar alunos em diversos espetáculos. “Temos alunos em todos os musicais de São Paulo e cada vez mais estão pedindo um pessoal especializado”. A explosão do número de produções do gênero no Brasil chama cada vez mais a atenção dos atores, afinal, todo ano ocorrem várias audições. Além disso, o salário para o protagonista de um espetáculo musical pode chegar a 15 mil reais. Mas nem tudo é glamour, pois muitas vezes faltam condições de trabalho. É comum que alguns espetáculos migrem de cidade sem pagar hospedagem e passagem para os atores, principalmente quando estes são coristas.

Além disso, ainda falta uma cultura de musicais no país como a da Broadway, onde a maioria dos espetáculos passa por muitas cidades antes de estrear oficialmente no circuito e nas faculdades há sempre a apresentação de um musical no final do ano. Porém, a criação de escolas específicas para a preparação de atores para o teatro musical parece ser um grande passo para aqueles que querem se aventurar pelo gênero, mas não sabem por onde começar. “Eu acredito muito no estudo de teatro musical, mas gosto de estudar tudo separadamente. Principalmente para não pegar vícios de interpretação, de canto. Tem os dois lados da moeda” pondera o ator Fernando Rocha.

A preocupação de Maiza em afinar a escola com os interesses do mercado só aumenta com a procura pelo curso. Ela conta que o objetivo da escola é treinar os alunos para que eles estejam preparados se amanhã aparecer uma audição. Todos têm alguma fragilidade, então os professores tentam trabalhar o lado que está faltando em cada um. Além disso, a criadora da TeenBroadway chama atenção para o fato de que às vezes o ator não está preparado para encarar o peso da personagem, mas não faltam oportunidades para que o aluno estude. “Dá para ver o desabrochar dos alunos” diz com certo orgulho.

Hugo Bonemer, que hoje está em cartaz como o protagonista do espetáculo Rock in Rio – O musical lembra que nem sempre os atores tem o perfil exigido por determinado musical. “Cada produção tem seus próprios critérios. Pode ser que uma queira grandes bailarinos, enquanto outra queira grandes atores e outra queira tudo. Uma talvez queira lançar uma cara nova e outra alguém que já seja de nosso conhecimento. Então não há como prever”. Resta a eles então a dedicação de se aprimorar em todas as áreas para que quando chegar a sua vez estejam preparados para encarar o desafio.

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