Nadando contra a corrente

Nadando contra a corrente

Em uma sociedade onde o álcool é a droga mais bem aceita, o que passa na cabeça dos jovens que fizeram outra escolha: a de não beber.

            Os dias passam lentamente e o tão aguardado final de semana parece não chegar. Quando ele finalmente aparece, os bares começam a lotar. Seja no período da manhã ou da noite, as calçadas estão abarrotadas de jovens e de garrafas de cerveja. Na balada, a cena é mais frequente ainda, é difícil encontrar um rosto novo que não esteja acompanhado de seu melhor amigo: o álcool.

Dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) comprovam que 78% dos jovens brasileiros entre 18 e 25 anos são consumidores de bebidas alcoólicas. O consumo de álcool na juventude não é um assunto que aparece só em território nacional, mas presente no mundo todo. Apesar disso, há uma minoria que se mantém firme na decisão de não beber. Seis desses jovens explicam porque fizeram essa escolha, e provam que álcool e diversão não estão diretamente ligados.

Izabela Parra, 19, é estudante de estética e nunca sequer experimentou bebidas alcoólicas. Por ter tido um avô alcoólatra, ela afirma ter adquirido uma consciência maior em relação aos problemas causados pelo alcoolismo: “Eu simplesmente nunca tive vontade de experimentar. Meu avô era alcoólatra e acho que pelo fato dele ter dado tanto trabalho com bebida, meus pais nunca precisaram falar nada. Se não tivermos limites, a bebida é a capaz de acabar com uma família”. Assim como Izabela, Pedro Fernandes, 18, também nunca experimentou o álcool. Além de os pais do estudante de rádio e tv não beberem, ele possui um histórico de problemas hepáticos na família e faz parte de uma denominação da religião protestante que é também metodista e prega a abstinência.

Para Pedro, o aumento no consumo de bebidas pelos jovens está ligado a um aspecto natural de querer conhecer novas sensações: “É meio natural do jovem querer  ter experiências diferentes, e o álcool  faz você perder um pouco do controle”.  Ele acredita que isso não é atual, mas que hoje em dia o acesso às bebidas é menos controlado: “É uma coisa de muito tempo. Na Europa teve muito surto de vício de ópio, porque as pessoas têm há muitos anos isso de experimentar. Hoje em dia é mais fácil de conseguir. Qualquer moleque de 15 anos faz um rg falso em casa e vai comprar bebida no mercado”.

Juliana Gomes, 18, é estudante de moda e pesquisadora e resolveu parar de beber há cinco meses. Nesse período sem consumir o álcool, ela tenta descobrir se é possível se divertir sem precisar estar sob efeito dele. Juliana não possui influências na família, e diz ter parado com a bebida por ela mesma, por uma questão de saúde. Ela acredita que o consumo tem a ver com a publicidade: “Acredito que os profissionais de marketing têm feito um ótimo trabalho com o álcool e o cigarro. São drogas que estão tão visivelmente expostas e que o estranho é não consumi-las. Apesar de não ser escancarado, eu acredito que o consumo do álcool dá certo status, ainda mais quando se está passando para a maioridade”.

Para Izabela Parra, os motivos que levam os jovens a beber são variados: “É muito relativo, cada um tem um por que. Uns gostam, outros procuram o álcool pra esquecer os problemas, e acho que tem uns que não tem nem 12 anos e bebem para se mostrar mais velhos”. No quesito álcool e diversão, ela é categórica: “Me divirto mais que meus amigos que bebem, sempre. Acho que no meu caso não é a bebida quem faz a festa”.
A maioria dos jovens que não bebem, possuem influências dentro de casa. É o caso de Felipe Iodice, que tem 19 anos e cursa engenharia. O estudante experimentou cerveja e vodca uma única vez, quando tinha 15 anos e estava em uma festa de debutante. Felipe considera sua opção uma questão de costume aprendido dentro de casa: “Eu vou muito pelo exemplo dos meus pais. Eu nunca vi meus pais bebendo, e também pelo fato de eu ter experimentado e não ter gostado, foi uma decisão que eu tomei”. Assim como Felipe, a estudante de nutrição Estela Perroni,18, também tem pais que não consomem álcool: “Meus pais já não bebem, e eu tenho um tio que teve problema sério com isso, já chegou a ficar internado”.

Estela afirma já ter experimentado a bebida e até gostado: “A primeira vez eu gostei, mas não é uma coisa que eu me sinta bem quando faço. Eu só experimentei, mas nunca cheguei a beber mesmo, pegar uma lata e tomar sozinha. Acho que você não precisa disso pra se divertir na balada, é só uma desculpa que as pessoas dão”.

Elcio Junior, de 25 anos, é analista de sistemas e também chegou a experimentar para entrar “na moda do pessoal”. Mas assim como Izabela Parra, passou por problemas com álcool e familiares: “Tomei essa decisão por ter tido um pai alcoólatra e que acabou com a família. Essa juventude burra de hoje em dia acha que precisa beber para se divertir, mas isso é questão de atitude e autoafirmação”.

A própria publicidade promove o álcool como uma droga de maior aceitação social, ao contrário de outras. Nesse quesito, as opiniões são variadas. Élcio é direto: “Acho ridículo, pois é algo tão maléfico quanto, além de ser viciante também”. E Juliana parte da mesma ideia: “Eu acho ridículo e é um dos motivos pelo qual eu parei. Não entendo a hipocrisia das pessoas de condenarem o uso de drogas com um copo de cerveja na mão. Só porque é legal não quer dizer que não faça mal à saúde, ao psicológico. Como qualquer outra droga pode te acentuar a curiosidade de experimentar outras”.

Já Izabela acredita que isso se dá pelo fato da sociedade não ter noção que o álcool pode fazer tão mal quanto as outras drogas, e Estela pensa que o maior motivo para isso acontecer é outro: “Acho que é porque o teor de álcool da cerveja é o mais baixo, e eles acabam abusando disso”.

Pedro vai além: “Acho isso um pouco ruim porque querendo ou não é uma coisa que faz mal pra saúde e que não precisava ser tão amplamente divulgado. Na verdade, é um grande estilo de vida boêmio que é propagado, e não só o consumo. Isso de divulgar precisar consumir um produto pra conseguir status é preocupante na sociedade como um todo”. E Felipe completa: “Acho que pode ser um pouco perigoso, pode ser uma maneira de você banalizar o uso de bebida alcoólica. Você deixando o álcool mais acessível, pode contribuir para que menores de idade tenham acesso mais fácil a ele de uma maneira mais rápida”.

Por terem uma visão “de fora” sobre o alcoolismo na juventude, quem não bebe às vezes pode dar outro panorama sobre os motivos que levam os jovens ao consumo das bebidas, se isso acontece porque apreciam o sabor, ou se possuem outras razões. Estela Perroni assume: “Acho que quem faz isso é pra se encaixar em determinado grupo, ser legal. Eu acho que eles gostam, mas o problema é não saber se controlar. Porque gostar eu também gostei, só que não me sinto bem bebendo”.  Para Elcio Junior, o álcool assume outra função: “Acredito que seja para muitos uma válvula de escape, assim como é o cigarro e outras drogas, porém não acho que sejam válvulas de escape válidas, pois uma hora, o corpo reage mal à ingestão de qualquer tipo de droga”.

Felipe Iodice e Pedro Fernandes possuem opiniões similares sobre essa noção de gostar de beber ou ter outros motivos. Para Felipe, existem os dois lados: “Tenho amigos que reparo que bebem mais por coisas forçadas, por pensar que a bebida pode ajudá-los a se integrar em determinado grupo ou até mesmo para aparecer. E têm outros que bebem porque gostam, é um costume. Às vezes as pessoas têm problemas em casa, ou emocionais e têm vergonha de se abrir com os pais, não conseguem suportar a pressão e acabam indo por esse caminho”. Pedro segue a mesma linha de raciocínio de Felipe: “Tem muitas coisas que eu acho que acontecem. Um pouco de pressão de grupo, e tem gente que bebe porque gosta realmente do sabor das bebidas, e aprecia, além dessa coisa do alcoolismo, que vai pra um lado mais sério”.

Tanto Elcio quanto Izabela pretendem cultivar o hábito de não beber para os filhos no futuro. Elcio se orgulha de ter passado isso para seu irmão mais novo, e acha necessário continuar transmitindo essa ideia. Izabela acredita que hoje em dia os pais falham em educar seus filhos, e acha necessária uma educação onde eles imponham mais limites, inclusive na questão das bebidas alcoólicas.

O ponto mais importante pra quem não consome álcool é se isso o atrapalha em seu espaço social, e se é um desafio manter-se firme em sua decisão.  Para Felipe, isso não é um problema, assim como para Pedro, Izabela e Elcio. Já Estela e Juliana consideram essa escolha desafiadora.

Felipe é tranquilo em sua resposta: “Quando a gente toma uma decisão na vida, temos de ter personalidade pra assumi-la enquanto for possível”. E assim também é Elcio: “A questão é ter atitude, autoafirmação e opinião própria, para não ser ‘maria vai com as outras’, e conseguir se divertir com os amigos sem fazer uso de nenhuma droga (lícita ou não)”. Izabela complementa: “Acho que tudo tem a idade certa, a dose certa. Acho que beber socialmente não seja um problema e sim uma descontração”.  Pedro também não passa por problemas quanto a isso: “Para mim é tranquilo. As pessoas oferecem, eu falo que não e elas entendem. O máximo que acontece é uma piadinha aqui e outra ali, mas isso a gente leva numa boa. Tenho amigos que bebem e que não bebem, e convivo com eles sem problema nenhum, não é uma coisa que me faz falta”.

Estela opina de forma diferente: “É chato porque as pessoas tentam forçar você a beber mesmo falando que não. Não os meus amigos, porque eles também não bebem, mas os amigos do meu namorado, por exemplo, pedem para eu experimentar, mesmo que indiretamente”.  Juliana, por estar sem beber há menos tempo que os outros, tem uma visão mais crítica do problema: “Não beber é um desafio sim. Eu acho que há um grande apelo principalmente em ambientes universitários. As festas me parecem um escape da realidade, da pressão enfrentada por uma geração que não está preparada para isso”. E encerra seu pensamento com maestria ao citar Nelson Rodrigues: “Nelson Rodrigues dizia que os sábados eram uma ilusão, eu digo que as cervejadas, baladas e festas universitárias são uma ilusão”.

Aqueles que vão contra as atitudes do senso comum normalmente são deixados de lado pela mídia, e quem opta por um copo de água em vez de uma dose de cachaça é um bom exemplo disso. Enquanto a maioria tenta se mostrar certa como uma forma de exibição, os “excluídos” se mantém firmes em suas escolhas. Talvez essa exclusão só exista na cabeça dos outros, ou você não considera nobre ser jovem e não beber?

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