Promessas ao Vento

Quem são as mulheres por trás das castigadas folhas sulfite nos postes da região central de São Paulo que garantem trazer a pessoa amada

Macumba, bruxaria, vudú, babaçuê, feitiçaria. Uma mulher com longas roupas de pano e grandes pulseiras, em frente a uma bola de cristal em algum cenário sombrio e misterioso. Típicas unhas e cortinas ao estilo hollywoodiano, no sentido menos original da palavra. Ela encarna fictícia e exageradamente enquanto seus ajudantes recolhem o dinheiro dos clientes, e por dentro sorri com um ar de sadismo.

Preconceitos e suposições, em detrimento de uma visão menos hostil e mais curiosa, costumam dominar o imaginário diante do comportamento por trás de práticas sobrenaturais. Talvez seja essa a razão de “Trago seu amor em sete dias” não ser uma boa estratégia de marketing. “Às vezes me pego olhando para esses anúncios, depois caio em mim e olho para os lados disfarçadamente, preocupada em não ser taxada de ridícula”, diz a administradora Sônia dos Santos. Só na região da Bela Vista, zona central de São Paulo, são aproximadamente 400 cartazes colados, muitos deles em sequência, o que, nas grandes avenidas como a Brigadeiro Luís Antônio, não deixa quase nenhum poste nu.

No entanto, ao contrário de seus números de telefone, os espíritas do amor não gostam de se expor. Depois de doze tentativas para marcar uma entrevista sobre as previsões, constatei que metade das linhas não existe mais ou permanece ocupada durante dias. Já a outra metade “não quis falar sobre o assunto” ou “não podia atender no momento”. A única terapeuta holística que concordou em conversar a respeito do trabalho desistiu mais tarde por causa do recente terceiro filho, que “a deixava sem tempo para nada”. Marquei então horários pagos, como cliente, sem que soubessem que eu era a mesma pessoa com quem haviam conversado nas ligações.

As consultas duram de 20 minutos a uma hora, “dependendo da pessoa e do trabalho que será feito”, costumam responder ao telefone. Elas – a maioria é mulher – atendem aproximadamente das 9h às 18h e cobram em média 25 reais para as cartas, 30 reais para o tarô e 50 reais para os búzios ou tarô de Marcelha, um padrão a partir do qual todos os tarôs derivam. A diferença entre a cartomancia e a taromancia está na simbologia dos baralhos. Diz-se que o tarô tem significados mais abrangentes, portanto trata do lado mais psicológico e filosófico da vida, enquanto as cartas têm símbolos mais direcionados e são mais voltadas para as previsões, mas há estudiosos que discordam. O psicanalista clínico e psicoterapeuta holístico Antonio Gallo, por exemplo, defende que as diferenças são apenas estruturais e iconográficas, logo a profundidade da leitura é determinada somente pelo grau de conhecimento, habilidade e intuição do leitor.

Cartazes na Rua dos Ingleses, no bairro da Bela Vista: concorrência com outros anúncios.

Normalmente as consultas são feitas nas próprias casas das “videntes”, que se localizam na região onde os papéis foram colados. Entre os cartazes há anúncios de previsões não só por cartas ou búzios, mas também baseadas em outras vertentes. É o caso dos que dizem “Pai Damião. Trabalhos infalíveis para todos os fins”, por exemplo. “Eu estudei muito para ler as cartas. Fiz um curso de terapia holística, portanto sou terapeuta. Mas há muitas pessoas que fazem porque aprenderam com outros membros da família ou que não têm relação com a religião católica, e sim espírita, umbandista ou outras”, explicou Renata, a taróloga citada acima que desistiu de conceder uma entrevista sobre o ofício e terceira mulher com quem marquei um horário.

A CONSULTA

Diferentemente das outras casas, que não costumam ter nenhum tipo de identificação, o seu portão serve de apoio para as letras vermelhas que indicam “Terapeuta Holística. 96431-3065/ 4113-1315”. O sobrado é cor-de-rosa e relativamente grande. Renata abriu a porta vestindo uma blusa de linho azul turquesa, uma calça preta justa e, nos pés, havaianas. Trazia os cabelos negros presos em um coque, deixando à vista seu rosto claro. Era nova e tinha mesmo “cara de mãe”. Quando contei que no momento estava sem o dinheiro suficiente para a consulta, disse: “Imagine, depois você paga, fique tranquila”.

Ela é dona da maior parte dos cartazes entre a Alameda Campinas e a Rua Padre Manoel de Nóbrega. Muitos deles competem com os de compradores de ouro e estão colados por cima de outras propagandas holísticas ou de seus próprios cartazes velhos, já depredados pelo tempo e pela chuva. Afirmou, contudo, que a maioria de seus clientes a conhecem por indicação e que são poucas as pessoas que ligam por causa dos anúncios: “inclusive foi uma cliente minha que gosta muito do meu trabalho e quis divulgá-lo que resolveu fazê-los”.

Subindo as escadas, apontou para o sofá. “Pode deixar sua bolsa aqui, querida. Não tem problema, ninguém mexe”, sugeriu. O lugar em que recebe seus clientes não é diferente de um pequeno escritório. Em cima da mesa de madeira, apenas um computador, um telefone e um pequeno livro. Atrás dela, os doze apóstolos de Jesus preparavam-se para a ceia e, ao lado desta, outras cinco passagens bíblicas seguiam suspensas em pequenos quadros espalhados pelas paredes.

Embaralhando o tarô, quis entender porque eu estava fazendo a consulta. Respondi que nunca tinha experimentado, mas que sempre tive curiosidade nas cartas. Depois perguntou o meu nome completo e minha data de nascimento, colocou duas fileiras de cartas sobre a mesa e começou a adivinhar a minha personalidade. Incrivelmente, acertou em detalhes. Em seguida, espalhou linearmente todo o tarô e pediu que eu perguntasse o que quisesse e tirasse três cartas para cada questão. Ela as interpretava então de acordo com as minhas indagações. Durante a leitura, fazia mais perguntas, previa acontecimentos do ano seguinte e dava conselhos enfática e repetidamente, citando sempre Deus.

CRENÇA OU ENGANAÇÃO

Renata não ofereceu nenhum tipo de serviço para remover “encostos” e “forças ruins” ou qualquer produto. Já as cartomantes e tarólogas Letícia e Ludmilla recomendaram trabalhos com este fim. Diferente da primeira, as duas afirmam ter muito retorno com os cartazes.

Entre uma embaralhada e outra, Letícia, que também segue a vertente católica, apontava para uma carta e dizia “olhe”: “Você tem uma barreira no amor, olhe”. Indicou então uma vela de 41 dias, se dirigindo ao espesso cilindro laranja sobre a mesa ao lado: “Cada uma custa 52 reais, quantas velas você quer acender para ele?” Quando perguntei se não havia outro jeito, respondeu: “Não. Não faço essas coisas de macumba, macumba não entra aqui não! Esse menino te ama, querida, com a vela com certeza ele voltará para você.” Acabei convencendo-a de que uma era suficiente. “Coloca a graça aqui”, disse apontando para a mesa, e vendo minha cara de dúvida continuou: “O dinheiro, querida”.

Questionada sobre a credibilidade e as intenções das cartomantes, Giovana, outra terapeuta holística que segue a linha católica, respondeu: “Não existem médicos que desligam os aparelhos para colocar outro paciente no lugar do que morreu? Não existem advogados que mentem para tirar vantagem dos clientes? Então é claro que há quem queira tirar proveito com as cartas. Existem pessoas mal intencionadas em qualquer lugar. Mas também tem outra questão. Se você me diz uma mentira, eu vou fazer uma previsão mentirosa; eu não faço vidência, eu estudei para ler as cartas.”

CADA CASO COM SEU CASO

O quarto de Letícia era diferente do escritório de Renata. Era pequeno e tinha muitas alusões a figuras de diversos imaginários religiosos, tal como arcanjos, mulheres nuas e colares de búzios. A cartomante se assemelhava mais à figura hollywoodiana. Letícia é uma senhora de estatura baixa, prende os cabelos lisos e brancos acima da nuca e mora com o neto de 18 anos. Usava uma saia azul abaixo dos joelhos, um par de óculos de hastes finas e delicadas pulseiras. Falava rápido e baixo e articulava um “r” levemente puxado para o espanhol que escondia suas origens soteropolitanas. Tinha um ar cansado e agia como dona do meu destino.

Contou ter começado a ler as cartas aos 11 anos, o que não é raro neste ofício. Ludmilla começou aos 9. Hoje, aos 17, decidiu seguir a carreira de cartomante depois de terminar o colegial. Pela pouca idade, não me chamava de “filha” ou “querida” como as outras. Os seus longos cabelos pretos caíam sobre a camisa xadrez, que cobria o início da calça jeans branca. Brincava com o cachorro quando ele invadia o quarto semelhante ao de Letícia, decorado com velas e arcanjos, e ficava sem graça quando eu perguntava sobre a sua história de vida. Em geral as cartomantes evitam falar sobre si mesmas; costumam desviar o olhar ou mudar de assunto.

Espaço reservado para consultas na casa de Ludmilla, de 17 anos. Ela divide os clientes com sua mãe.

O trabalho delas muitas vezes não se resume só às consultas. Ludmilla, por exemplo, frequenta um centro espírita todas as noites com sua mãe para realizar trabalhos espirituais. Contou que as duas são frequentemente convidadas para casamentos de pessoas que uniram. Já Renata escreve na coluna de astrologia do jornal editado pelo marido, cujo nome não citou, mas, por causa dos filhos, está parada há seis meses.

Perguntei como Ludmilla havia tomado a decisão de se tornar cartomante, ao que ela respondeu: “Não recebi nenhum tipo de chamado, é mais um dom. E também considero o fato de que muitas pessoas na minha família têm a mesma habilidade.” Renata discorda: “Não acho que tem que ter um dom, mas com certeza o leitor precisa de uma sensibilidade maior”.

Cada caso é um caso. As opiniões, intenções e métodos em torno do ofício da previsão variam largamente. Em outras palavras, os estereótipos não são suficientes para explicar a diversidade que existe por trás das castigadas folhas sulfite dos postes da cidade de São Paulo, sejam elas coladas por cartomantes, pais de santo, médiuns ou terapeutas holísticas.

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