O SUS em estado de coma

Minha filha nasceu numa manhã cinzenta de agosto num quarto compartilhado do SUS.

Até então, eu fazia do sistema público de saúde um daqueles monstros marinhos dos antigos mapas de navegação, uma aberração colossal da qual era bom manter-se distância caso se quisesse sobreviver.

Não era um medo em vão. Desde pequenos crescemos ouvindo histórias aterrorizantes de pessoas que morrem esperando atendimento, bebês que são roubados de suas mães das incubadoras, pacientes que entram para operar o joelho e saem sem um dos rins.

Por razões como estas, no dia que soube de minha gravidez corri ao primeiro escritório de uma companhia de saúde e fiz um plano que me garantia atendimento médico a curto prazo, exames a preços baixíssimos e uma estrutura de emergências e internação livre de maiores perigos à minha integridade física e à do meu bebê.

Mas como a vida não leva em conta convênio, acabei por dar à luz numa maternidade pública em Joinville, Santa Catarina, uma instituição chamada Darci Vargas. De fachada cor-de-rosa, sem maiores requintes, mais tarde fiquei sabendo se tratar de uma entidade que é referência internacional em parto normal, e que médicos até do Albert Einstein recebem treinamento por lá.

Esta experiência acabou por desmistificar todo o medo preconceituoso que tinha sobre o sistema público de saúde e decidi aderir ao SUS. Por que afinal, se uma maternidade de uma cidade do interior conseguia oferecer um serviço de tal excelência, por quê todo o sistema de saúde não funciona bem?

Pelos meus cálculos, cheguei à conclusão de que o SUS não funciona bem pelo mesmo motivo que os sistemas públicos de ensino e de transporte vivem à beira da eutanásia, aqui no Brasil: lobismo.

O SUS definha porque o lobby das empresas de saúde privada boicotam medidas governamentais de investimento. A falta de recursos desestimula o trabalho de bons profissionais, que migram para o sistema privado. Nesse panorama o cidadão que não ganha o suficiente para comer tomates e pagar um plano de saúde, fica na mão de profissionais mau-humorados ou acomodados do funcionarismo público, que faltam a seu plantão por qualquer jogo do São Paulo ou pneu furado de sua SUV.

Segundo um estudo do SUS, em 2011 apenas 1,9% da população tinha acesso a um serviço de saúde que poderia ser considerado bom. Isso acontece em 347 municípios, dos quais 345 encontram-se no Sul e Sudeste. Em 20,7% das cidades o atendimento foi reprovado, e em 73,1% o atendimento foi definido como “razoável”.

Desde então passei por várias salas de hospitais, prontos-socorros e postos de saúde, pelos mais diversos males: remoção dos pontos da cesariana, gripe, infecções na bexiga, crise de ansiedade e mais recentemente um dedo do pé luxado.

Nessas idas e vindas fui atendida por todo tipo de funcionário – desde aquele que pensa que está fazendo o favor de atender o paciente, até aqueles que parecem ter nascido com o coração de Madre Teresa, que você tem vontade de abraçá-los no final da consulta.

Meu histórico com o sistema público de saúde paulistano, até algum tempo atrás, resumia-se a algumas consultas no Hospital das Clinicas. O HC é realmente um lugar legal. Não sei se sempre tive essa impressão por se tratar do campo de estudo da melhor Universidade de Medicina do pais, ou se é por causa dos prédios imponentes, mas sempre me senti segura lá.

Há algum tempo me mudei pro bairro da Santa Cecília, no centro de São Paulo, e a partir de então comecei a freqüentar o Pronto Socorro da Barra Funda e o Posto de Saúde da Barra Funda.

O atendimento emergencial do ponto-socrro é satisfatório. O atendimento é relativamente rápido – nada muito fora do tempo de espera numa sala com ar condicionado da Unimed – os médicos, apesar de muitos, mal humorados, são prestativos. Medicações e exames são feitos na hora, os resultados ficam prontos na hora programada, e com a carteirinha do SUS o cidadão tem direito a medicamentos gratuitos como antibióticos, antiinflamatórios, anticoncepcionais e coquetéis retrovirais.

Sobre o sistema de consultas já não posso dizer o mesmo. Para minha surpresa, ao marcar minha primeira consulta médica oficial em solo paulistano, recebi uma consulta pra 4 meses depois. Ou seja, qualquer que fosse minha necessidade, provavelmente já estaria resolvida ou agravada até lá.

No final do ano passado numa das minhas visitas ao Pronto Socorro da Barra Funda, notei um volume que se encontrava no estacionamento da unidade. Depois de analisá-lo compreendi que se tratava de leitos envolvidos em uma lona preta, com uma nota que informava “Aguardando liberação da SMS”.

Até aí tudo bem, o pronto-socorro havia recebido equipamentos novos e estava aguardando alguma questão burocrática para liberá-los. Porém, dois meses depois, na minha última e mais interessante visita ao PSBF, os leitos ainda estavam lá, no mesmo lugar, com a mesma lona, com o bilhete ainda colado no mesmo lugar.

Naquele momento me inquietei. Afinal, um hospital que recebe leitos, é porque precisa deles, mas de que servem estes parados, sob ação da intempérie, aguardando liberação? E que tipo de liberação era esta que em dois meses não havia sido autorizada? Que motivos burocráticos deixavam, pelas minhas contas 18-20 leitos novos, enrolados numa lona sob a chuva, na cara do usuário?

Meu número chamou, entrei ao salão principal, passei pelo médico, Dr. Paulo – perguntou como eu estava, olhou meu pé e me encaminhou ao raio X.

Caminhei até o corredor de exames, passando pela ala infantil, e me sentei no corredor para aguardar meu turno. Havia 4 pessoas na minha frente, que foram chamadas uma a uma, num processo que levou uma meia hora até minha vez.

No corredor havia quatro leitos com pessoas deitadas neles, com suas fichas coladas na parede. Uma cena como esta pode revelar duas coisas: ou o hospital está superlotado, ou estão faltando leitos fixos.

Enquanto aguardava o exame, dois enfermeiros entraram carregando um senhor de aproximadamente uns 80 anos que acabava de chegar de ambulância. Eles solicitaram a uma das enfermeiras um leito para onde o pudessem transferir.

A enfermeira, que diga-se de passagem, era a responsável também pelos curativos, saiu à caça de um leito, e voltou alguns minutos depois, informando que estavam sem mais.

O paramédico perguntou qual deveria ser o procedimento neste caso. A enfermeira respondeu que arranjaria uma cadeira de rodas até que algum dos pacientes que levaria alta pela tarde, liberasse algum leito.

O paciente foi passado para a cadeira, sem muito gosto, onde ficou resmungando de dor e desconformidade durante mais ou menos 15 minutos.

A partir de então a história começa a tomar outra forma, passando de uma cena do seriado ER para uma notícia sensacionalista do Datena.

O senhor em questão começou a ligeiramente escorregar pela cadeira enquanto pedia a atenção da enfermeira, que ocupada com a medicação de outros pacientes, não ouvia seu chamado. Sua descida cadeira abaixo acontecia lentamente, quase imperceptível aos olhos dos pacientes, mas notava-se sua angustia em pedir ajuda e nada acontecer. Num determinado momento, uma enfermeira passou perto de mim, e eu lhe mostrei o que estava acontecendo.

Agora já não mais reclamando, porém gemendo de incomodo e de fraqueza, o senhor tentava explicar para a enfermeira que já não podia mais ficar sentado. Por ser magro demais seus ossos estavam machucando suas nádegas, e as fraldas só pioravam a situação.

A enfermeira que tentava reacomodá-lo na cadeira pedia sua ajuda, que curvasse a coluna e dobrasse as pernas, para que ela o pudesse sentar, enquanto o paciente mantinha-se duro, resistente a sentar-se novamente.

Uma outra enfermeira que passava decidiu ajudar a arrumar o paciente na cadeira, e neste momento a situação tomou um ar tragicômico – uma dobrava os pés, a outra erguia o paciente pelos ombros, e o paciente relutava enrijecendo-se na posição mais ereta que sua coluna permitia. “Não dá mais, não dá mais”, ele agora gritava com ar de ódio.

Todos os presentes olhavam-se, como testemunhando um momento de descaso e de injustiça coletiva. Aquele senhor encontrava-se numa situação em que o sistema público degradava sua vida, enquanto suas calças caiam e ele escorregava em direção ao chão.

Naquele momento, uma funcionária que eu avistara previamente na seção administrativa, passou pelo corredor sem dar maior atenção ao acontecimento que se desenrolava diante de seus olhos, com a indiferença de quem se acostuma a esse tipo de situação. E eu, que transitava entre observadora e cúmplice do descaso, decidi abordá-la.

Quando a questionei sobre os aparelhos parados na entrada do Pronto Socorro, ela respondeu: “São leitos”. E porque estão parados há tanto tempo? perguntei. “Porque estão em desuso”, ela me respondeu. Acrescentou que tratavam-se de leitos que eram grandes demais para as dependências do hospital e estavam aguardando a liberação para serem devolvidos.

Ou seja, descaso ao quadrado: o responsável de compras faz má gestão da verba pública, comprando produtos incapazes de desempenhar a função necessária. O setor administrativo, por sua vez, mantém um produto novo, fruto do mau investimento do dinheiro público, jogado às traças, envelhecendo, perdendo seu valor de mercado, enquanto um senhor perde as calças e a dignidade no corredor do hospital por falta de um leito disponível para acomodá-lo.

“Você não tem nada a ver com isso” a funcionária me sentenciou no final de nossa pequena conversa. Porém eu senti que tinha, sim, a ver com essa questão, e naquele momento decidi que faria esta matéria.

Queria saber como funciona o sistema burocrático do SUS, qual é o grande problema da saúde pública aos olhos dos funcionários administrativos: falta de dinheiro, burocracia, repasse deficiente de recursos? Queria saber porque situações como aquela que experimentei no pronto-socorro acontecem.

Esse questionamento já tinha se formado em minha cabeça na primeira vez que visitei o AMA da Sé.

Inaugurado em 2007, durante o governo Kassab, o hospital tem a aparência de ter sido erguido ainda nos anos 50. Seu chão beira uma obra de Gaudí, sem esquadrias ou linhas planas, suas paredes estão visivelmente mofadas, faltam tomadas, os aparelhos  estão enferrujados, desgastados, tudo aparenta ser velho e da pior qualidade.

O mais revoltante é que ao tentar obter informações sobre o custo da obra, as empresas licitadas, os responsáveis pela administração de recursos, me deparo com a total falta de informações técnicas sobre a instituição.

O mesmo aconteceu com a administração do PSBF. Um dos primeiros passos que tomei para o desenvolvimento desta matéria, foi procurar o administrador do pronto-socorro pessoalmente. A única resposta que obtive foi o endereço da assessoria de imprensa da Santa Casa, que administra o pronto-socorro, onde eu poderia obter informações.

Me dirigi até o prédio localizado na Av. Amaral Gurgel, 206, e depois de explicar a situação à secretária da assessoria, fui aconselhada a enviar um email, solicitando uma visita. Até o fechamento desta reportagem estou aguardando uma resposta.

A situação se repetiu com a responsável pela divisão administrativa da SMS, Sandra Regina de Oliveira, cuja secretária ficou de me dar um retorno com a disponibilidade de horários da administradora, que nunca aconteceu.

Toda resposta burocrática ou administrativa que obtive foi através de agências de notiícias, eu como cidadã, só obtive mais burocracia. Ou seja, o SUS está trancado em uma torre de marfim, longe dos olhos dos cidadãos a menos que ele seja um repórter da Folha.

Minha última tentativa foi tentar falar com algum funcionário. Decidi voltar ao AMA da Sé, inventar uma dor no ouvido, e me aproximar de algum médico de quem eu pudesse extrair alguma informação.

Logo no início da consulta, o médico que me atendeu lançou uma ironia sobre ter que desligar um aparelho para ligar a lâmpada com a qual me examinaria. Aproveitei a brecha e retruquei, “eles devem ter faturado como se houvesse pelo menos cinco tomadas aqui”.

Ele se deteve e me perguntou se eu era da fiscalização. Eu falei que não, que era aspirante a jornalista. Contei-lhe sobre a matéria, e ele me respondeu que havia muitas irregularidades, que por exemplo, até poucos dias atrás o hospital não oferecia testes de gravidez de emergência, sendo que oferece atendimento ginecológico ambulatorial, e que vários aparelhos da sala ele tinha trazido de seu consultório particular.

Enfim, saí de lá sem as repostas que procurava, porém impulsionada pelas novas perguntas que poderia fazer a partir daquela conversa. Pois o  SUS não precisa de respostas, mas de perguntas. Quanto mais suas questões administrativas forem afastadas da população, mais sujeito à ação das forças ocultas do lobismo ele estará.

 

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