Paulista: muito além de um centro econômico

Ela é tida como representação do poder de São Paulo. Mas muitas pessoas também a chamam de lar. Conheça mais sobre esse lado velado da avenida mais famosa do estado

De barões a executivos

A Avenida Paulista é, há muito tempo, símbolo da grandeza do estado de São Paulo. Conhecida em todo o Brasil e reconhecida mundialmente como um dos centros econômicos globais, a Paulista existe há 121 anos.

Quando foi construída, em 1891, São Paulo ainda não era o expoente que viria a ser algumas décadas depois. O prestígio dela cresceu em conjunto com o da cidade em que estava situada. Depois da sua criação, não tardou para que ela começasse a crescer e atrair os olhos de quem tinha dinheiro. Logo, se tornaria residência de muitos dos condes da região, e virou área nobre – estado que preserva até hoje, de certa maneira.

Com o avanço econômico do Brasil, depois da década de 60, a Paulista sofreu outra grande modificação: a avenida começou a crescer verticalmente. Escritórios do mundo inteiro que estavam interessados no potencial verde-e-amarelo instalaram-se ali: bancos e multinacionais transformaram essa região em um poderio econômico paulista.

Assim, os nobres que povoavam esse lugar foram substituídos pelos executivos, brasileiros e estrangeiros, e a Paulista se tornou multifacetada. Nesse ponto, ela já estava mais próxima da avenida que conhecemos hoje, onde podemos ouvir, sem nenhum tipo de estranhamento, pessoas conversando em português, japonês, espanhol ou inglês numa mesma quadra.

Assim amadureceu a Avenida Paulista, ostentando o que há de mais belo em São Paulo, e exportando essa imagem para o resto do mundo. Uma região que sintetiza todas as qualidades da cidade, ou pelo menos é o que parece.

“A loucura das grandes cidades”

O domingo do dia seis de abril amanheceu chuvoso. No começo da tarde, estive na Paulista. Esperava uma amiga, que chegaria em 15 minutos. Durante o intervalo de espera, decidi apenas observar as pessoas que transitavam por ali, sobre a calçada ainda molhada da chuva, e neste pouquíssimo tempo, aquela avenida se revelou.

Não como o centro econômico que tinha a fama: por ser um fim de semana, o vai-e-vem de executivos apressados, de terno e com suas pastas de couro, haviam desaparecido. Em seu lugar, estavam as mais diferentes pessoas que resolviam ter seu momento de lazer no fim de semana, ou que vinham participar dos eventos que só a Paulista poderia oferecer. Um garoto que conversava ao celular do meu lado não conseguia conter um sorriso no rosto.

Enquanto observava o movimento, uma mulher passou por mim. Era idosa, deveria ter por volta dos seus setenta anos. Usava uma saia muito esfarrapada e uma camisa igualmente rota. Segurava uma sacola furada pesada, e todos os seus pertences deviam encontrar-se ali dentro.

Ao mesmo tempo em que parecia olhar para todos os que estavam à sua volta, olhava além de todos e para ninguém. Estava inquieta e andava a esmo; parecia xingar uma pessoa invisível com palavras de baixo –calão. Ao mesmo tempo em que parecia se dirigir a todos os que andavam à sua volta, esquivava-se de qualquer um que estivesse perto demais. Ela sofria daquilo que alguns chamam de “loucura”. Assim como Estamira, protagonista do filme de 2004 do diretor Marcelo Prado, esta moradora de rua encontrou na insanidade uma forma de lidar com a condição em que vivia – a de viver, desprotegida, nas ruas de São Paulo.

Ela logo desapareceu da minha vista, ainda amaldiçoando todos e ninguém. O menino de antes agora chorava no celular ao meu lado, e minha amiga chegou. Resolvemos andar um pouco na Paulista. Percebia que, apesar de o perfil dos transeuntes ter mudado muito por ser um fim de semana, alguns deles permaneciam ali, apesar de serem invisíveis para muitas pessoas que ali transitavam. Os que não tinham para onde ir, aqueles que adotaram a avenida mais famosa de São Paulo como seu lar.

A vergonha e o desvario

Naquele domingo, uma multidão se reunia na avenida para mais um protesto, mais um contra a presidência de Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos.  Por este motivo, aquele lugar se tornara ainda mais plural. Enquanto os manifestantes se organizavam na Praça do Ciclista, um morador de rua se aproximou, apenas observando o movimento. Boné desfiado na cabeça, de onde saíam cabelos grisalhos e desgrenhados, que se juntavam a uma vasta barba. Estava de cadeira de rodas.

Fomos até ele e lhe perguntamos o que achava da manifestação. Ele apenas balançou a cabeça negativamente, claramente envergonhado. Disse que estava apenas de passagem, e evitou olhar-nos nos olhos. Não quis prolongar a conversa, e logo se foi. Ficou claro que muitos também se envergonham da situação em que se encontram e pensam que não são capazes de ter uma opinião formada a respeito de qualquer assunto, que seja ouvida.

De volta à caminhada na avenida. Ao longe, avistamos uma moça sentada em um pequeno murinho, próximo ao MASP. Usava uma camisa social, e parecia mexer dentro de uma bolsa vermelho vivo. Conforme nos aproximávamos, a primeira imagem foi se desfazendo. A camisa, de cor verde-limão, estava cheia de remendos e tinha muito tempo de uso; a bolsa estava na verdade muito desbotada, de alças esgarçadas. Seus pés estavam nus, onde deveria haver um sapato. Ela parou de mexer na bolsa e começou a olhar com indiferença à sua volta.

Sentamo-nos no mesmo murinho, ao lado dela, e começamos a conversar. Percebi que ela ficou inquieta, assim como a primeira mendiga que encontrei aquele dia. Enquanto eu conversava com minha amiga, a mulher levantou-se tranquilamente. Passou por nós, e simplesmente nos deu um susto. Sim, um susto. Como uma criança de 5 anos faria, e ainda saiu com um sorriso no rosto, como uma criança que acabou de fazer uma travessura.

Mais uma que se encaixava no perfil de “insanidade” criado pela sociedade. A violência de viver nas ruas só poderia ser suportada por algumas mulheres através da loucura. Devo salientar que, mais uma vez, os dois pareciam ser um ímã repelido por todos à sua volta. Era como se simplesmente não existissem.

Enfim, um passo a frente e uma conclusão

Depois de tanto andar, resolvemos nos sentar na escada de um Banco Itaú. À nossa frente, mais uma mulher pedia esmola para os transeuntes, ignorada por todos. Foi aí que nos demos conta de um homem sentado também na escada do banco. Ele observava a pedinte com furor, e fazia comentários exaltados contra a pobre mulher. Quando perguntei para ele o porquê da indignação, ele respondeu: “as pessoas não param não, fico nervoso. Se fosse ladrão, davam celular, dinheiro, tudo”.

Logo, soube que seu nome era Carlos Alberto Rodrigues, e que viera de Minas Gerais. Há 3 semanas estava em São Paulo, e não tinha como voltar, pois estava sem dinheiro. Tinha olhos cansados e entreabertos, barba farta e sem corte, e estava com camiseta e calça desgastadas. Em uma mão, segurava uma Coca-Cola, enquanto a outra segurava uma mochila – o que parecia ser seu único pertence. Um tênis de esporte aparentemente novo destoava do resto de sua imagem.

Depois de um pouco de conversa, ele revelou que já era avô, com 44 anos. Porém, há muito tempo não via sua filha e nem sua neta; não tinha mais contato com sua família. Só soube informar que eles estavam “lá para os lados de Rondônia”. Quando morou em Minas, trabalhou como taxista e fazia mudanças também. Em São Paulo, tudo isso acabou.

Contou que fora roubado na semana anterior, e só lhe restava a roupa do corpo. O mistério do tênis dissonante foi revelado, quando disse que este lhe foi dado por uma loja de calçados da Paulista, porque o produto tinha um pequeno defeito e não poderia ser comercializado.

Era uma pessoa muito lúcida, e se dispôs a contar as andanças que havia feito ultimamente. Eu me surpreendi quando ele disse, de forma extremamente natural, que já foi para Praia Grande a pé, a partir da Avenida Paulista. “Eu já fui pra Santos, peguei a Paulista aqui e fui diretão. Deu na praia. Fiquei um mês em Praia Grande. Lá é bom pra passar Réveillon e mais nada”.

Quando terminei nossa conversa, ele pediu dinheiro para que pudesse, finalmente, voltar para sua terra natal e recomeçar sua vida. Desconfiei da veracidade do seu pedido, mas dei o dinheiro mesmo assim e me despedi. Passei lá na semana seguinte, e ele estava no mesmo lugar.

Sim, ele mentiu. Mas será que estou em posição de julgar o fato de ele ter contado uma mentira? Viver nas ruas é muito intenso e degradante. As pessoas precisam se adaptar bem a esse meio para sobreviver. Se muitas perdem inclusive a sanidade neste penoso caminho, outras dariam tudo por alguém que lhes desse um minuto de atenção.

 

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