Por uma Superliga melhor: Craques das quadras trocam a regata pela gravata para criar um torneio nacional de qualidade

No país do futebol, outros esportes disputaram historicamente o segundo lugar na preferência popular. O voleibol sempre foi um deles. E, principalmente desde o ocaso dos grandes pilotos nacionais no automobilismo, esse posto tem sido dos gigantes da rede.

O caminho não foi fácil. Antes esporte de mulher, o vôlei garantiu seu espaço entre os homens através de muitas conquistas. Em um período de trinta anos, dos anos 80 para os dias de hoje, as vitórias fizeram da seleção masculina de vôlei um símbolo nacional.

Número um do ranking mundial, desde 1992 a seleção conquistou dois ouros e três pratas olímpicas, três Jogos Pan-americanos, três campeonatos mundiais, duas Copas do Mundo e nove títulos da Liga Mundial.
Tudo isso serviu para que nomes como Maurício, Giovane, Giba, Ricardinho, Dante, Marcelinho, Serginho, Murilo, Gustavo, André Nascimento, Bruninho, Rodrigão e Bernardinho passassem a ser lendas. Ídolos. Heróis.

Todo esse furor motivou também o nascimento de um campeonato nacional de correspondesse ao novo nível do vôlei brasileiro. A Superliga surgiu em 1994 como uma reformulação do campeonato nacional, disputado anualmente com seus altos e baixos desde 1981.

Mas, mesmo com semelhanças perante os campeonatos nacionais europeus, a Superliga nunca conseguiu se consolidar. Mudanças constantes no número de equipes, no modo de disputa e, principalmente, nos próprios clubes fizeram com que aquele que é o principal torneio do segundo maior esporte do país não tenha a mesma relevância e sucesso da seleção, tanto esportiva quanto financeiramente.

A base para a criação de times não tem formado vínculos duradouros com o público nem os atletas. Apoiado em um sistema de patrocínio único e centralizado apenas em exposição de marca, o formato criou uma enorme dependência dos clubes em relação aos patrocinadores, que funcionam de acordo com as oscilações da economia. Ao se firmar em um só apoio, a estrutura costuma quebrar, e tem deixado jogadores e torcedores órfãos de camisas e cores que simplesmente deixam de existir.

Assim foi com equipes como o Cimed Florianópolis, maior campeão da história da Superliga, com quatro títulos. Após o fim da temporada 2010/2011, o time perdeu o patrocínio da empresa que lhe dava nome e, de um dia para o outro, fechou as portas.

Nos últimos dias de março, o fim do ciclo chegou para outra importante equip. O Vôlei Campinas anunciou a saída do laboratório farmacêutico Medley do posto de principal patrocinador da equipe após o fim da campanha do time na atual temporada da Superliga masculina. A perda de patrocinador não é nenhuma novidade para os clubes de vôlei brasileiros.

Mas a revolta de seus atletas sim.

Cansados das constantes saídas e trocas de empresas no esporte, mais de 280 atletas e ex-atletas dos 12 times da Superliga, liderados pelo ex-seleção brasileira e capitão do Canoas Gustavo Endres, lançaram uma campanha nas redes sociais por mudanças no formato de disputa do principal torneio nacional da modalidade: “Unidos pelo Voleibol”.

O novo formato aumenta o período de disputa da liga de quatro para sete meses, com as equipes jogando uma vez por semana ao invés de duas, como é atualmente. Entre outras medidas estão a criação de uma Copa do Brasil paralela à Superliga e disputada em jogos eliminatórios, e a realização de um Jogo das Estrelas, assim como acontece no Novo Basquete Brasil, por exemplo.

Segundo Gustavo, “uma duração maior da Superliga ajudaria os clubes que pagam 12 salários para o jogador e só tem suas marcas na mídia durante por quatro ou cinco meses”.

Outras alterações também foram sugeridas pelo grupo. O repasse das cotas de televisão para os clubes, e não somente para a CBV, e o aumento do espaço de exposição dos patrocinadores nas placas de publicidade são algumas alterações que serviriam para melhorar a condição financeira das equipes.

Até o momento, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) ainda não se manifestou sobre a possibilidade de que as sugestões sejam implantadas, mas se declarou aberta a debater com clubes e jogadores.

Alexandre Stanzioni, gerente do São Bernardo Vôlei, criticou a atual situação dos clubes e elogiou a iniciativa dos jogadores: “O formato atual faz os clubes dependerem exclusivamente do patrocinador, mas as entregas não são exatamente como as empresas precisam. Os times mudam muito e você não consegue sempre mover a torcida, porque não há identificação com o clube. Não existem clubes de vôlei e sim times, momentâneos, que duram dois ou três anos”.

“Dessa maneira, fica inviável para as empresas permanecer. O problema é que os clubes não são sustentáveis sem esses patrocínios e não conseguem se manter apenas com as outras receitas. O modelo é o mesmo desde a década de 80. A televisão compra e não repassa. Patrocínio é apenas um dos problemas”, completou Stanzioni.

“Converso muito com o Gustavo e falamos bastante sobre a duração do campeonato. Os jogadores têm um peso diferente, uma imagem muito mais reconhecida pelo público. A liga precisa dessa união e desse poder para mudar”, afirmou o dirigente.

Sobre o aumento da duração da Superliga, o gerente do São Bernardo se mostrou positivo: “É uma das soluções porque, para entregar maior exposição e mais qualidade técnica, o campeonato mais importante do país tem que ser mais valorizado e tem que ser bem feito”.

Fernando Maroni é gerente de alto rendimento da agência ESM. A empresa administra o próprio Vôlei Campinas, ex-Medley, onde o executivo atua como supervisor. Ele afirma que os clubes são os grandes responsáveis pela fragilidade do formato: “Os grandes culpados somos nós mesmos. Os clubes não vão às reuniões com a CBV e não se manifestam, pensam apenas no seu umbigo e a curto prazo”.

A movimentação de empresas dentro do vôlei foi comentada pelo executivo do vôlei Campinas: “Não podemos apenas incriminar as empresas por entrar e sair do esporte. Ainda vivemos um processo de maturação do mercado do esporte. Há dificuldades das empresas de definir os objetivos do patrocínio. Hoje o vôlei é um ótimo produto. O público assiste cada vez mais. O potencial de entrega das equipes é muito bom, mas é necessário um amadurecimento das equipes e das empresas. Por isso, ainda temos muita dificuldade de fechar contratos a longo prazo”.

Maroni considera positiva a manifestação dos atletas, mas analisa a questão com cautela: “Temos que ter cuidado nesse tipo de manifestação. A CBV nunca se recusou a ouvir sugestões. Há de se fazer uma autocrítica: os dirigentes e os clubes não são inocentes, têm mais poder que imaginam”.

“A discussão é muito positiva, mas tem que ser interna. As coisas caminham para o que todo mundo quer, vão evoluindo, mas a longo prazo. E a gente tem que pensar serenamente e olhar pra trás e ver que já evoluímos”, afirma Maroni.
Stanzioni critica também o espaço dado pela televisão: “A cobertura até é ampla, mas não é feita com uma avaliação prévia. O campeonato começa sem que as equipe saibam quantos jogos vão ter na TV. Como eu vendo a minha exposição sem isso? Deveria ser estabelecido um mínimo de jogos e daí vai se ajustando de acordo com o desempenho, a importância do jogo. Tem equipe que passou duas vezes e outras vinte. E a cota ainda fica pra CBV enquanto os clubes nem sabem o valor dela”.

Já Maroni discorda da opinião do gerente de São Bernardo: “A CBV faz a escolha junto com a televisão. Temos que ver que a televisão também é um produto. Tudo depende muito da audiência e do retorno. Mas de uns anos para agora a situação melhorou muito. Hoje o vôlei é um ótimo produto. O público assiste cada vez mais e mesmo as equipes menores têm tido mais espaço, com pelo menos quatro ou cinco jogos por temporada”.

Mesmo com as divergências, Stanzioni e Maroni concordam na necessidade de buscar alternativas: “A ideia de pensar em uma solução além do patrocínio é o começo do caminho”, disse o dirigente da equipe de Campinas.

“Por filosofia das equipes e até por medo dos parceiros, falta hoje essa alternativa. É necessária uma mudança”, afirma Stanzioni.

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