Quem manda é o público

O mercado de materiais artísticos sem dúvida é vasto. Mas por que alguns materiais parecem ser mais difíceis de serem encontrados que outros?

Madeira, grafite, tinta, carvão. Muitos são os materiais que podem ser usados na criação artística. O mercado brasileiro de materiais para a arte vem crescendo a cada ano, mas nem sempre os produtos criados mantêm-se ativos no mercado. É o caso da Super Polymer Clay Bozzi.

A polymer clay, conhecida como “cerâmica plástica” no Brasil, é uma espécie de argila que pode ser utilizada para diversas finalidades. É bastante usada por animadores na hora da criação de modelos em escultura de personagens, de modo que se possa observar seus vários ângulos. Contudo, seu uso não se resume a isso, podendo ser ela utilizada até mesmo para a criação de bijuterias.

As argilas plásticas existentes hoje no país são, em sua maioria, importadas. As marcas mais famosas incluem a Sculpey, da americana Polyform, e a Fimo, fabricada pela Staedtler, uma companhia alemã. Proveniente do território nacional, temos a massa Bozzi, produzida pela Bozz Emborrachados. Em fevereiro de 2013, o Portal Bozzi exibiu um anúncio onde comunicava o encerramento de suas atividades, devido à falta de demanda da massa. O site exibia a mensagem de que, logo, o portal seria desativado.

A respeito do assunto, Amanda Eskenazi Misan, de 32 anos, empresária da loja Casa do Artista, diz que a polymer clay é mesmo difícil de ser procurada. “Há várias dificuldades em se trabalhar com ela: uma é o mercado, que realmente não tem muita demanda. São artistas específicos que acabam trabalhando com essa massa, e a gente acaba mantendo alguma coisa (na loja) para atender essas pessoas e não deixá-las na mão, porque não tem muita saída.”

Amanda explica que, devido à falta de demanda, houve até mesmo mudança de importadores que traziam a marca Fimo para o Brasil. “Os importadores acabaram mudando de um para outro, porque na verdade não é um mercado muito atrativo aqui no Brasil. Ela (a cerâmica) endurece muito rápido; muitas vezes ela chega aqui já sem a mesma qualidade que tinha antes de vir, então acaba-se tendo muita perda de material. Esse com certeza deve ser um dos motivos.”

A falta de demanda e de instruções para o uso da massa acabam contribuindo para que suas vendas não sejam elevadas, e isso não diz respeito apenas à cerâmica plástica. Diversos artistas, ao tentarem se utilizar de novas técnicas ou materiais para a criação de seus trabalhos, encontram um ou outro obstáculo difícil de ser transposto. É o caso de Laís Sawaia, dona da loja virtual Lasawaia Mosaicos, “A dificuldade maior foi moldar as pequenas peças no formato que eu pretendia. No mosaico, cortamos pastilhas em pequenos ‘cacos’ e para o trabalho ficar mais bonito é preciso a técnica de ‘moldar’ o caco, arredondá-lo.”

Laís conta que começou a trabalhar com mosaicos após sua cunhada ter mostrado a ela uma mesa que havia feito. Depois de aprender as técnicas, Laís e o marido resolveram tentar fazer suas próprias experiências: “Pegamos algumas peças de piso de cerâmica, cortamos em cacos e começamos uma mesa. Pareceu-me mais fácil do que eu imaginava. Porém, o primeiro trabalho com piso de cerâmica foi mais difícil para cortar em cacos e eu me machuquei um pouco, mas valeu muito!”

O mesmo diz Azul Cantú, de 18 anos. O rapaz comenta que começou a desenhar desde pequeno, por influência do pai e da irmã mais velha, que sempre gostaram de deixar linhas no papel: “Eu aprendi a maior parte vendo os outros fazerem, com meu pai sempre colocando sua critica sobre o que eu fazia.”Ainda, sobre seus desenhos, afirma: “Eu não era um bom aluno, então toda teoria pra mim era cansativa e eu não absorvia muito bem, mas quando se tratava de algo que me atraía, eu pegava com certa rapidez.”

Com relação aos materiais que costuma utilizar, Laís diz que usa pastilhas de cerâmica, de vidro, pisos de cerâmica e outros materiais. “Para cortá-los, uso uma ferramenta chamada ‘torquês’, que acho bem cara, porém tem alta durabilidade. Como tudo no mercado, existem as ferramentas mais baratas – mas com menor precisão de corte – e as mais caras, que proporcionam um melhor trabalho.” Laís acredita que as cerâmicas que usa são “razoavelmente fáceis de serem encontradas em lojas de material de construção e em lojas especializadas em artesanato – mas acho que temos muito poucas opções deste tipo de loja numa cidade como São Paulo.”

Já Cantú se encontra em situação diferente. A grafitagem também faz parte de sua rotina; além de desenhar, às vezes passa seu tempo fazendo arte em paredes. Para ele, seus materiais são “apenas as latas de tintas latex. Na verdade, um material bem prático e fácil de encontrar.” Com relação à grafitagem, Cantú diz: “É uma arte que realmente está estourando. A cada dia surge uma nova maneira de se fazer graffiti, de usar uma ferramenta. E ajuda é uma coisa que não falta na internet.”

Laís também acredita que uma pessoa leiga conseguiria obter informação suficiente para começar a desenvolver mosaicos sozinha, desde que tivesse curiosidade e dedicação suficientes. “Hoje em dia, existem muitos sites na internet que ensinam, dão dicas. Também podemos encontrar lojas especializadas para comprar os materiais. Ou seja, existe bastante informação virtual.”

Analisando os produtos utilizados, Laís acredita que os materiais importados têm melhor qualidade que os nacionais. “Com certeza falta trazer material importado – ou produzir aqui mesmo – em termos de cores e texturas. Este mercado de pastilhas e afins não se diversifica e não muda em nada o que já existe, não nos permitindo melhorar ou aprimorar nosso trabalho, ou mesmo criar novidades”, diz Laís. “Sei que no exterior temos outras opções que deveriam chegar aqui.”

Já Cantú tem uma opinião relativamente diferente: para ele, o mercado poderia melhorar, mas já é satisfatório. “Poderiam diminuir o imposto de produtos vindo do exterior. O governo deveria incentivar mais a arte em geral, mas os produtos já tem bastante variedade e boa qualidade. O problema é que só correndo atrás para descobrir esses meios.”

Amanda Misan explica que essas diferenças de preço são causadas, em sua maioria, por causa dos impostos que vêm com os produtos. A empresária dá como exemplo a relação de preços entre as tintas nacionais e importadas. “Das tintas nacionais, as que vendem mais são a Corfix e a Acrilex. As nacionais são bem mais baratas, com preços que variam de três a seis, sete reais, dependendo do tubo”, relata Amanda. “Acho que o mais diferente são as importadas por conta dos impostos da importação. A gente paga de imposto quase 50% do valor da tinta, por isso que dá essa diferença absurda de preço.”

Não obstante, Amanda também comenta que a qualidade dos produtos importados tende a ser superior à dos produtos nacionais: “Uma Golden é uma tinta maravilhosa, que tem qualidade e produtos pra se misturar junto dela que nenhuma (marca) mais tem, no caso da acrílica. A Schmink, que é alemã, é maravilhosa. Ela já é uma tinta cara porque tem uma qualidade muito grande e aí chega aqui importada, dobra (o preço). Então tem qualidade e imposto. Quem compra é quem é profissional, quem trabalha realmente com isso. Não são estudantes.”

Ao relacionar as opiniões e experiências de artistas iniciantes e profissionais, alguns modelos são quebrados. Com relação à facilidade de se encontrar materiais disponíveis e usá-los, Amanda explica: “O mercado tem mudado bastante. Algumas coisas estão deixando de surgir, e temos na loja o que aparece nos cursos. Mangá, HQ, são coisas que a gente teve que começar a preencher com material, porque existe um mercado que requisita bastante. Então aumentaram muito as canetas nanquim e esses materiais mais específicos.” A empresária ainda diz que “outras coisas acabam tendo menos demanda:  material de caligrafia, por exemplo, ainda existe, mas é uma coisa cada vez menos público consome. A gente ainda trabalha com esse material, mas acho que a tendência é sumir um pouco. Acho que no futuro a gente vai entrar com os materiais que são dos cursos novos que estão aparecendo.

Dessa forma, Amanda conclui que, na realidade, a ausência ou constância de materiais, a facilidade de se encontrar instruções sobre eles ou não, não é algo aleatório: “Acompanha os cursos e acompanha o mercado.”

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