Sem filas, sem preço

A arte musical muito além das casas de show e dos espaços privados

Sob o sol refletido nas janelas da Avenida Paulista, misturado com o ruído dos carros e a marcha de passos rápidos, o som de um violino, um bandolim e um violão ecoavam pelas calçadas em perfeita harmonia, em frente à estação de metrô Trianon/MASP. Era o trio de músicos Teko Porã, que apesar de ter sido expulso da estação pelos seguranças, não deixou de trabalhar por isso. Continuou sua música na calçada da Avenida, fazendo apenas o que faz constantemente: levar arte às pessoas em todo tipo de espaço público. Enquanto alguns param para ouvir, a grande maioria sequer vira o rosto para olhar quem ousa quebrar o padrão de executivos engravatados e trazer música a ouvidos tão perturbados e acostumados com os barulhos do trânsito de metrópole.

“O objetivo é mudar a mentalidade das pessoas quanto à arte de rua”, diz Pablo Nomás, 27, do Teko Porã. Os integrantes do trio se conheceram, como era de se esperar, nas ruas, enquanto “capitán Pablo”, o mais antigo deles quando se trata desse tipo de trabalho, tocava em faróis e em praças. Para Gabriel Almeida, 21, violinista, o objetivo é o mesmo: “Pelo menos estou levando música àqueles que não conhecem o violino”. Tocar nas ruas de São Paulo é o trabalho desses artistas que destoam da multidão, estando parados em um local de movimento, quebrando a rotina.

Com uma vida desregrada, porém, alguns problemas do mundo capitalista vêm à tona. Em plena segunda-feira, o trio tocava na Paulista para conseguir o dinheiro que faltava para pagar o aluguel do apartamento que dividem, que vencia no mesmo dia. Assim levam a vida, tocando onde e quando querem – e também quando precisam -, compondo sempre que têm inspiração.

Mas mesmo com as implicações de não ter um emprego fixo, a recompensa é a que eles desejam. Quando tocam na calçada, nada parece perturbar a paz que circunda os músicos. As músicas, em especial as de Teko Porã, são de composição própria. A simpatia dos seus compositores e a naturalidade com que tocam atrai as pessoas. Uma pausa para conversar não é um problema para eles; na verdade é uma ocasião para acender um cigarro e mudar os bancos para a sombra de um prédio.

“Tocamos música na rua pelo bem-estar de se fazer o que gosta e viver disso”, diz Hefesto Ladeia, 25, o violinista do trio. Viver majoritariamente da música feita nas ruas, sem uma rotina fixa, sem as amarras de prazos ou um chefe para dar satisfações é a opção de vida desses artistas, uma vida “cigana”. “Teko Porã não é desgarra, é fazer o que se escolhe, mas com um sentido de bel-prazer. As coisas não podem viver sua vida, você deveria viver em comunhão com ela”, diz Juan Morales, 25, que toca bandolim. “Quando se aprende com a rua, é impossível ir e voltar pelo mesmo caminho todos os dias.”

Nos últimos anos, a arte de rua, uma atividade antes pacífica, passou a trazer problemas à esses artistas. Iniciou-se em dezembro de 2010 a Operação Delegada, na qual artistas de ruas passaram a ser alvos de repressão policial. Em um acordo da prefeitura de Kassab com o governo do estado, a operação teria o objetivo de coibir o comércio ambulante ilegal. À época, a PM afirmou em nota oficial: “As manifestações culturais podem ser exercidas em qualquer lugar e a Polícia Militar respeita e garante os termos constitucionais. Contudo, é preciso separar manifestação cultural da comercialização do talento. Quando há qualquer tipo de exploração comercial, caracteriza-se um evento e há a necessidade de autorização da Prefeitura, que é competente para disciplinar o uso e a ocupação do solo. No caso de artistas e pessoas que aproveitam para divulgar seu trabalho e comercializar CDs e DVDs, (…) são situações que descaracterizam a manifestação cultural e se classificam como um evento”.

As manifestações artísticas desses músicos teriam sido consideradas comércio ilegal, mas eles discordam disso. “Ninguém é obrigado a contribuir, não cobramos nada”, diz Hefesto. “Alguns pensam que o que fazemos é mendicância, mas não é; as doações são espontâneas”. Hoje os artistas têm suas apresentações regulamentadas e permitidas em qualquer via pública pelo decreto municipal 52.504, devendo respeitar os limites de som estabelecidos pelo Programa do Silêncio Urbano (Psiu), além de não cobrar pelas apresentações. As contribuições são permitidas. Quando algum policial aborda o trio Teko Porã, os músicos nunca se exaltam. “Eles nunca foram opressores, dizem que é o trabalho deles nos expulsar de certo lugares. Recolhemos e continuamos em outro lugar”, diz Morales.

Apesar do estilo de vida da maioria dos músicos de rua ser muito parecido, as opiniões sobre as reações das pessoas são variáveis. Para Almeida, as pessoas deveriam parar por um ou dois minutos para apreciar a expressão de cultura. No entanto, para o trio, a pressa e, na maioria das vezes, a indiferença dos passantes em nada afeta o trabalho deles. Levando uma vida boêmia e bem humorada, entendem o porquê de muitos trabalhadores não pararem para assisti-los: pela simples falta de tempo. “Muitos parariam se pudessem. O pouco que alguém pára para nos assistir ou a contribuição que fazem é uma expressão de admiração”, diz Hefesto.

Em harmonia com os ideais de liberdade de expressão e pensamento de Teko Porã, cuja origem do nome é indígena e significa “o bem-viver”, Morales diz que não se deve estipular um preço para a arte. Ninguém é obrigado a contribuir ou a parar para ouvi-los, porque é esse o intuito da arte de rua. Eles ficam em um local em que não incomodam ninguém. Quem não gosta, apenas passa reto, mas quem dedica um tempo a eles, se impressiona. Muitos filmam e tiram fotos daqueles músicos de estilo “asfáltico/afro-euro-indiano”, que refletem a filosofia de vida na aparência. Pablo entende que o quanto ganham com a arte de rua é o suficiente para eles, já que não gastam dinheiro com roupas e bens supérfluos. “No fim das contas, pisamos em uma sola de borracha. Qual a diferença entre pisar em uma sola barata e uma cara?”, diz. Além disso, essa liberdade faz parte da própria estrutura do grupo, uma vez que não há um instrumento definido para cada integrante: todos tocam tudo, ensinando o que sabem uns aos outros.

Nem todos os músicos que tocam nas ruas o fazem pelos mesmos motivos. Enquanto o trio o faz por puro prazer, o violinista Almeida faz isso principalmente para promover seu trabalho. O dinheiro ganho dos expectadores é um benefício a mais. Além de dar aulas, ele toca em casamentos e todo tipo de evento, fazendo serenatas e tocando na entrega de presentes.

Muitos estudaram música, sendo que estar na rua é uma opção. Almeida estuda música na Escola de Música do Estado de São Paulo até hoje, enquanto Ladeia passou dez anos de sua vida tocando violino em uma orquestra, que largou pela falta de autonomia e liberdade de criação. Além da formação musical, alguns desses artistas são formados em outras áreas. Morales, por exemplo, é químico; Nomás, jornalista. Vez ou outra, ainda trabalham com isso.

O Cantor Gaúcho Uai Tchê Tchê Tchê, que passa a maior parte de seu tempo tocando na Praça da Sé, tem uma visão cética e pessimista do artista de rua. “As pessoas passam reto e não dão um centavo para nós”, diz. “Oferecemos uma coisa que não tem retorno.” Para ele, enquanto ele beneficia as pessoas, seja com entrevistas e histórias de vida, seja com a própria música, ninguém se importa com o que ele recebe em troca. “Eu estou aqui, mas estou trabalhando. As pessoas se esquecem de que eu também preciso me sustentar. Cada um só se importa consigo mesmo.”

Por mais que para alguns seja por falta de opção, como para o cantor gaúcho, que quando consegue, se apresenta em bares e restaurantes, os músicos tocam nas ruas por uma escolha pessoal. O grupo Teko Porã se recusa a tocar em locais privados, postados em cima de um palco. Quando tocam no metrô, algumas pessoas pensam que eles foram contratados e ganham para estar lá, quando, na verdade, se recusam a fazer isso, uma vez que vai contra seus princípios de não estipular um valor para a arte.

Pablo ressalta a “hipocrisia do metrô”. Se um músico vai ao metrô num dia qualquer para fazer seu trabalho, é visto com maus olhos e rapidamente expulso da estação pelos seguranças. No entanto, em 2012, houve a segunda edição do festival Red Bull Sounderground, o Festival Internacional de Músicos de Metrô. O evento trouxe para o Brasil artistas de diversos países da Europa escolhidos para fazer o que Teko Porã tenta fazer toda semana: música em estações de metrô, trazendo melodia e cor ao dia dos paulistanos. “Ora, por que eles podem tocar lá e nós não?”, diz Pablo, que se indigna, apesar de, como os outros integrantes do trio, exalar placidez na maior parte do tempo.

Enquanto no Brasil há uma lei que proíbe os músicos de tocarem no metrô, nos outros países há uma mentalidade diferente. “A arte que se tem no Brasil não é valorizada”, conclui Nomás. Nos Estados Unidos, as manifestações artísticas no metrô são permitidas por lei: há um horário estipulado e um local reservado para isso. “Não é que eles são mais evoluídos que nós por isso, nada disso. Mas a mentalidade é diferente.”

Mesmo com histórias de vida e visões diferentes, esses músicos têm algo em comum: o amor à liberdade de expressão e a visão de arte como entretenimento público. A música de rua é o contraponto, a não-rotina, é uma realidade paralela na qual as intenções coletivas superam as individuais. Isso se traduz na filosofia de Teko Porã: viver bem, independente de onde.

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