Skate: o Surf no asfalto ganha cada vez mais adeptos

Os shapes com rodinhas, não apenas se multiplicaram na cidade de São Paulo, mas tornaram-se um estilo de vida para muitos jovens

No início da década de 60, as águas da Califórnia foram cenário da ascensão de um novo esporte: o Surf. Quando o dia era de sol, o mar era palco de diversão e curtição para os surfistas, que saiam com suas pranchas e passavam o dia todo pegando onda. No entanto, nem todos os dias eram de tempo aberto, e foi então que os adeptos do Surf aliaram pequenos “shapes”, isto é, pedaços de madeira, a rodinhas de patins para que fosse possível surfar em terra firme. Este pode ser considerado o nascimento do Skateboard.

A comercialização e industrialização se deram no ano de 1965. Os primeiros skatistas, nas pistas, abusavam do “free style”, modalidade na qual são feitas manobras em sequência no chão, sem obstáculos. Neste mesmo ano, o skate chegou ao Brasil, ainda como lazer, e não como prática esportiva.

O reinado do skate teve seu declínio no início dos anos 70. A queda dos “shapes” se deu por conta da mudança de planos da revista “Skateboarder”, um dos veículos mais importantes sobre o esporte. A revista anunciou que mudaria seu viés para cobrir assuntos associados a campeonatos de Biker’s. O anunciou foi responsável pelo fechamento de pistas de skate e pelo abandono do esporte. Apenas os mais apaixonados pelo carrinho permaneceram e começaram a andar na rua, originando então, a modalidade “street skate”. No skate de rua, os skatistas fazem uso da arquitetura urbana (escadas, bancos, corrimãos, calçamentos, etc.) como obstáculos para a execução de manobras. O street é considerada a modalidade mais difundida, popular e que possui mais adeptos no mundo.

Na metade da década de 70, com a escassez e racionamento da água nos Estados Unidos, a população teve que esvaziar suas piscinas, o que levou os skatistas de Santa Mônica a perceberem que estas, quando arredondadas e vazias, serviriam de ótimas pistas. A prática do “pool riding”, pistas em formato de bacias, é atualmente uma das modalidades undergorund praticada por skatistas que apreciam transições rápidas. Nasce então o skate vertical. Também neste período, mais precisamente em 1974, foi realizado no Rio de Janeiro o primeiro Campeonato Brasileiro de Skate e houve a inauguração da primeira pista no Brasil.

A repopularizarão do esporte se deu nos anos 80 com a inovação dos skates e a criação das pistas em “U” feitas de madeira ou concreto, também chamadas de “half pipes”. Desde então, e com uma enorme quantidade de produtos lançados e campeonatos em diversos países, o skate não passou por mais declínios, e nas últimas décadas só recebeu mais adeptos e apaixonados.

A paixão pelo skate é vista diariamente em diversas metrópoles do mundo. E São Paulo não ficaria de fora. Basta sair à rua para ver as dezenas de pessoas sobre um skate indo para a escola, faculdade, trabalho, ou apenas “dando um rolê”. A estudante de Produção Multimídia, Ingrid Micheloto, 18, há um ano e meio anda de skate todos os dias. Escolheu o shape com rodinhas como forma de aliviar o estresse, e em pouco tempo já o utilizava em parte do percurso para a faculdade. “É muito bom passar o dia andando de skate, ele te dá uma sensação de liberdade, mas com a falta de tempo do dia-a-dia, decidi incorporá-lo em alguma das minhas atividades, assim tenho sempre um tempo no dia em que posso curtir e relaxar”, relata.

Diferentemente do que parte da população acredita, skate não é um esporte praticado apenas pelo público masculino. Atualmente é possível notar que, cada vez mais, mulheres estão aderindo ao estilo de vida do skate. Ingrid é um desses casos, e diz que só neste começo de ano, mais de três amigas incluíram o skate em sua lista de opções para o lazer. “Confesso que fui a pioneira da minha turma, mas agora já tenho a companhia das minhas amigas quando quero curtir um fim de semana com o skate”, diz a estudante.

O senso comum predominante em uma parcela da população, que acredita que o skateboard é uma prática exclusivamente masculina, não existe na casa de Ingrid. Ela diz que seus pais sempre acharam normal e divertido o fato da filha o ter escolhido como hobbie. “Os pais de algumas amigas minhas não são como os meus, e falam que skate é coisa de menino, e mais, de maloqueiro. A única coisa que meus pais desaprovam é o fato de eu andar em ruas um pouco mais movimentadas a caminho da faculdade. Eles temem a imprudência dos motoristas que poderia levar a um acidente mais grave. Graças a Deus nunca me machuquei sério, só arranhões de quem está aprendendo a andar de skate (risos).”.

Ingrid aponta que seus lugares preferidos pra “curtir” com o skate aos fins de semana são o Parque Ibirapuera e o Parque Villa Lobos, por apresentarem lugares específicos para a prática, além de possuir ladeiras propícias para o uso do longboard (skate cujo “shape” é maior). Ingrid acredita no skate como um estilo de vida, e diz que este seria a mistura do esporte, com o modo de se vestir, e com a música, por exemplo. No iPod, a skatista não abre mão de um bom Rock and Roll, e diz que uma das suas bandas preferidas é o Red Hot Chilli Peppers. Originários de Los Angeles, Califórina, ela diz que o som “junta a vibe” do skate com a do surf, e por isso é muito apreciada por skatistas e surfistas no geral.

Já a ligação de Mathias Brotero, 19, com o skate é bem semelhante aos surfistas californianos da década de 60. O estudante diz que desde pequeno pegava onda influenciado pelo pai, que surfava. Com uma forte paixão pelo surf, mas morando em São Paulo, longe da praia, Mathias buscou no longboard a sensação mais próxima àquela que tem quando está dentro do mar. Quando criança andava de skate, mas há um ano e meio optou pelo longboard como uma forma de lazer. “As manobras do long são menos aéreas que as do skate. O long está mais associado à velocidade.”, o que o aproxima mais ao Surf.

O estudante de jornalismo aprecia andar com seu longboard em ruas que sejam mais lisas, e diz que a prática o remete a sensações de liberdade. “Gosto de andar de long com meus amigos aqui perto de casa (próximo à Avenida Santo Amaro), tem umas ruas e ladeiras boas.”, relata. Mathias disse que já “se ralou muito” nessas ruas, e acredita que a principal dificuldade para praticar o esporte seja a topografia da cidade, bem como o excesso de carros, que também não respeitam veículos como o skate, e a bicicleta, por exemplo.

Mesmo o tendo como um de seus hobbies preferidos, Mathias nunca participou de campeonatos, nem pensou em levar o skate à sério, isto é, como um esporte ou  profissão. No entanto, acompanha alguns campeonatos profissionais e diz que Bob Burnquist é um de seus skatistas preferidos. O brasileiro, nascido na cidade de São Paulo, tornou-se profissional na década de 90, aos 14 anos, e é reconhecido internacionalmente por ter influenciado e revitalizado o skate vertical. Com a chegada da megarampa no Brasil em 2008, Bob Burnquist consagrou-se campeão nesta edição, bem como na de 2009, 2011 e 2012. A primeira megarampa foi construída pelo skatista “freestyler” Matt Hoffman, entre 1991 e 1992 no quintal de sua casa em Oklahoma. As estrutras da rampa são feitas de madeira e aço e são divididas em três partes. O comprimento total destas varia de cerca de 60m a 108m e sua altura pode chegar a 27m.

Eclético, o iPod de Mathias vai do Jazz ao Indie Rock, e por conta de sua história, não acredita no skate como lifestyle. “Acredito mais no surf como um estilo de vida.”, diz. Além disso, o estudante retrata um “modismo” no mundo do skate, isto é, muitas pessoas estão comprando, sobretudo, o longboard. Ele não avalia esta moda como um ponto negativo, uma vez que por meio dela mais pessoas tem a oportunidade de saber como é andar de skate e testá-lo. Hoje em dia, ainda que com dificuldades, o mercado do skateboard cresceu em grande escala, o que se tornou um grande facilitador para que mais pessoas entrem em contato com o esporte.

Apaixonado pelo skate, Victor Cardoso, 19, conseguiu conciliar seu amor à um modo de ganhar dinheiro. O skatista, influenciado por amigos, pegou gosto pelo skate em 2007, e desde então não mais se separou do “carrinho”: “Ao passar do tempo você vai gostando de andar, evoluindo, e fazendo coisas boas através dele, você vai percebendo que já faz parte, e não tem como parar mais.”.

Atualmente, Victor leva o skate como profissão, e é patrocinado pelas marcas Bless Skateshop, Snoway Skateboard e Madrats. O patrocínio funciona “por meio de cotas de materiais mensais, sejam eles peças, roupas, tenis e também uma ajuda de custo para campeonatos e viagens.”, relata. Sua relação com as marcas não é restrita ao profissionalismo. O skatista diz que a amizade prevalece e é muito forte entre ele e seus patrocinadores.

Dentre as viagens que realizou para competir, Victor cita Rio de Janeiro e Porto Alegre, bem como cidades no interior e litoral de São Paulo. O skatista relata ter sido campeão em alguns campeonatos e ter ganhado prêmios como roupas, skate motorizado e até mesmo dinheiro. Ele completa e diz que o “skate não é só isso, é ir além. Às vezes vale mais a pena você produzir um vídeo para alguma marca ou fotógrafo do ramo, ao invés de ganhar algum campeonato. A repercurssão pode ser bem maior, o que ajudará na carreira.”.

Victor diz que grande parte da população ainda vê o skate como um esporte “de vagabundo e maloqueiro” e, portanto, o governo do estado e a prefeitura da cidade não dão o incentivo ideal que o esporte necessita, e isso implica na construção de pistas novas e de qualidade. Ainda com essa desvalorização do skateboard, o skatista diz que a cidade é um bom lugar para realizar a modalidade street do esporte.

O garoto acredita que o skate se diferencia dos demais esportes, uma vez que para que se conquistem prêmios e campeonatos, é necessário que o skatista tenha, além da habilidade, disciplina para ser autodidata. “É comum profissionais da área que ensinem os primeiros passos do esporte, mas o skate vai muito mais além, pois é como ter a liberdade de andar em algum lugar e não ficar preso a aprender, como outro esporte. Não é necessário um técnico dando ordens. O seu desempenho vai única e exclusivamente de você, do seu esforço e do tempo que você se dedica para isso.”, diz.

Victor também usa o skate como forma de locomoção para onde vai, pois acredita ser mais rápido, fácil e agradável do que ir a pé. Um elemento que está presente em todos os seus dias, Victor acredita e diz ter o skate como um estilo de vida. “Seja no vestuário, na prática do esporte, na música que eu ouço – de preferência rap, reggae e rock – nas experiências que tenho e nas amizades que construo por meio dele, o skate é o que vivo e respiro todos os dias, e levo pra vida toda.”.

 

 

 Imagem

Ingrid Michelotto – foto: Gabriela Rodriguez

 

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Mathias Brotero – foto: Gabriela Rodriguez

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