Temos a nossa história

No meio de tanto caos, não podemos parar e ouvir uma história por cinco minutos. Cinco pessoas param por alguns segundos e conversam sobre suas vidas.

São Paulo tem quase onze milhões de habitantes. Em média, as catracas dos ônibus são giradas por mais de dez milhões de vezes por dia. Um carteiro visita em torno de quinhentas casas. Um lixeiro passa por duas mil residências. Essas pessoas, apesar de conviverem muito com outras, são tidas como invisíveis aos olhos da população, sofrendo uma exclusão devido à marginalização de suas profissões. Mas afinal, quem são essas pessoas? Como elas se sentem? O que as levaram a escolher suas profissões? Há uma explicação para tal fenômeno?
O fenômeno da individualização entre as pessoas, como abordado no livro de E.Fischer, “A necessidade da arte” é um fenômeno observado desde que o homem se separou em classes e o trabalho passou a ser feito individualmente, e não mais coletivamente, como era feito até então. O professor e sociólogo Liraúcio Girardi Júnior, aponta que desde o começo do século XX a “invisibilidade” existia, como aponta o estudo de Georg Simmel. “Há varias formas de invisibilidade. Há os que são invisíveis geograficamente, por morarem muito longe de onde as pessoas moram, e estas acabam por não frequentar os mesmo lugares, nunca se veem. Há os invisíveis pela mídia, pois a mídia escolhe uma pessoa e a torna visível. Mas tem que tomar cuidado com essa visibilidade, analisar o foco que quer dar para a pessoa, pois nem sempre há uma visibilidade positiva, e sim negativa. E há a visibilidade pelo trabalho, pois não vemos a execução deste, só vemos na hora que está pronto, a não ser que não atrapalhe a vida de ninguém, pois se atrapalha, logo notamos e observamos”, diz o professor.
Na correria do mundo pós-moderno, o professor diz que é normal que as pessoas atentem apenas ao destino final, ao invés de olhar às coisas que as circundam. ” Na normalidade parece que não existe. É fetichismo da mercadoria. O trabalho some das coisas”. Lembrando que fetichismo é um conceito de Karl Marx e é um fenômeno social e psicológico onde as mercadorias aparentam ter uma vontade independente de seus produtores. Um exemplo disso, é que ao pegar um ônibus, as pessoas não costumam olhar para o motorista e o cobrador. Elas esperam chegar ao destino final e só isso, não nota que ambos estão em seus trabalhos.
Para Maria de Fátima Guilherme, 55, as pessoas não param para falar com estes trabalhadores pelo fato de sempre estarem com pressa. “Elas não olham para nada ao redor, estão sempre correndo. Eu sempre tento falar, conversar com essas pessoas, agradeço quando me fazem algo, comento sobre o trânsito, clima, não devemos deixar de falar com elas”, diz. Diana Maria de Sousa, 37, concorda. “Sempre que dá, eu falo, agradeço, converso. Mas realmente, as pessoas não fazem isso por sempre estarem correndo, essa vida em São Paulo é muito agitada” diz Diana, que nasceu em Minas Novas, interior de Minas Gerais, e vive em São Paulo há 15 anos.
Para Camila Galupo de Lourenço, 20, as pessoas não param por dois motivos. O primeiro, é que elas ignoram os que estão trabalhando na rua, não veem, e por isto passam reto. Mas há um outro lado, segundo Camila, que é o lado de que “muitas destas pessoas, às vezes, são grossas e mal-humoradas quando se vai falar com elas”. Já para José Maximiano Macedo, 52, o que o professor Liraucio falou é o que acontece: Quando ele tem um vínculo com a pessoa, ele tem um relacionamento, diferentemente das pessoas que trabalham na rua. “Eu as vejo como pessoas necessárias para a organização e funcionamento de casas, limpeza pública e transporte (…) mas diferente das pessoas que trabalham em casa, que eu tenho uma relação mais próxima, agora, se é uma pessoa que pega e trabalha na rua, e ocasionalmente você vê e não vê com frequência, acaba sendo uma pessoa que em termos assim .. acaba simplesmente sendo mais uma pessoa na rua. Elas são indiferentes para mim, mas entenda, eu não as maltrato e não sou mal-educado com elas. É que como eu não tenho nenhuma relação com essas pessoas, tanto faz eu vê-las ou não”.

Tá, e quem eles são?

As pessoas não são vistas, porém sempre tem algo a dizer quando se precisa ouvir. Uma dessas pessoas que sempre solta palavras de carinho é Maria Marques ,37. Maria se define como uma pessoa bem feliz. Por onde passa, todos a cumprimentam, param para conversar e “se divertem com a Nega”, seu apelido carinhoso. Auxiliar de serviços gerais da faculdade Cásper Líbero, Nega diz que não foi ela quem escolheu o emprego, e sim o emprego que a escolheu. “No outro trabalho que eu tinha, eu me demiti para ir ver a minha mãe no nordeste. Quando voltei, não tinha trabalho, não tinha nada. Falei com o Zé se ele me arranjava um bico, ele me conseguiu esse e já estou aqui há três anos”, diz. Nega conta que gosta bastante quando as pessoas falam com ela, e diz que sofre preconceito em relação ao que exerce: “Tem pessoas que tem preconceito até delas mesmas”, fala.
Além de Maria, conversei com o “Seu” Fernando, ou Fernando Magalhães, 47. Cobrador do ônibus Shopping Iguatemi- Heliópolis, “seu” Fernando relata que tem muita gente que trata mal ou ignora quando ele deseja um bom dia para elas, então prefere ficar quieto. “Só respondo quando as pessoas me desejam”, diz. Seu Fernando, que tem o dedo indicador da mão esquerda deformado, diz que escolheu ser cobrador por necessidade, e por não ter acabado os seus estudos de ensino fundamental. “Durmo às 22h e acordo às 2h45. Não é fácil, é muito cansativo”, diz.
Conversei também com o “Seu Luís”, ou Luis Fernando Reis, 58, motorista do ônibus em que o Seu Fernando trabalha. Seu Luís, com seus óculos e cabelo grisalhos, é companheiro de Fernando há mais de 7 anos. Ele afirma que não é fácil mesmo, ainda mais quando se tem uma rotina dura. “É uma vida muito dura. Trânsito, cara feia, gente mal-educada”. Mas nada disso tira o sorriso que o seu Luís abre ao ver um passageiro querido ( e por querido, compreendi que eram os passageiros que conversavam com os dois e que pega o ônibus com uma certa frequência) cumprimentando-o. “Com a rotina, costumamos transportar as mesmas pessoas. Gosto quando elas falam com a gente, nos sentimos importantes”, diz. Além disso, seu Luís fala sobre como é difícil não passar tanto tempo com a família”O bom é que nessa linha não trabalhamos nem de domingo e nem de feriado. Mas tem gente que trabalha nesses dias, e quase não passa com a família”, afirma.
Vagner de Souza, 32, varredor de lixo, disse que quase nunca param para falar com ele. Apesar disso, ele diz que não se importa muito, prefere conversar com os seus amigos de trabalho. Vagner conta como começou a trabalhar “Vim sozinho para São Paulo, por indicação de um primo, para trabalhar como coletor. O que ganho hoje, é muito mais do que eu ganhava em um ano de trabalho no nordeste. Depois que eu comecei a trabalhar em julho de 2009 e consegui trazer minha família para cá em janeiro de 2010 graças ao meu 13º e especialmente às caixinhas de natal. Moramos em uma casa humilde num terreno invadido, mas apesar disso, estamos melhor. Meus filhos estão na escola e minha esposa ainda consegue um dinheiro trabalhando em faxina por duas ou três vezes na semana”, diz. Ele diz que sente preconceito, apesar de não sentir vergonha do seu trabalho. “Como as coisas são, eu podia ter ido para outro caminho, mas eu prefiro batalhar e ganhar meu dinheiro com o meu próprio suor e sustentar a minha família”.
Para Carlos da Silva, 41, ser carteiro dá muito trabalho. “Andamos muito, faça chuva ou faça muito sol”. Apesar disso, ele diz que as pessoas o tratam bem, pelo fato de que ele passa nas casas das pessoas durante os cinco dias úteis de cada semana. Fora isso, ele não muda de rota, então a vizinhança inteira fica familiarizada com ele. “Não tive muitas dificuldade para conseguir trabalhar. Passei no concurso e aqui estou”. Carlos afirma que não sente muito preconceito em relação à sua profissão, afinal, sem ele, as pessoas não pagam suas contas ou não recebem suas cartas. Como ponto positivo da profissão, Carlos diz que é o fato de conhecer muitas pessoas “conheço todos os comerciantes das ruas, muitos motoristas, cobradores, pessoas que trabalham nas casas .. são boas pessoas! E também dá para emagrecer com tanta andança”, diz, abrindo um sorriso e se despedindo.
Em meio a tantas pessoas, escolhi apenas cinco. Cinco histórias, cinco pessoas abertas e me contar sobre o que viveram, pessoas maravilhosas. Termino a matéria relatando o brilhante sorriso e aceno que o seu Luís me deu ao rever a pessoa que ele transportou durante três anos de estudos. E sobre as perguntas que ele e seu Fernando me fizeram durante todo o trajeto feito. Depois de lágrimas, termino dizendo que o ser humano pode ser maravilhoso… É só se dar a chance de conhecê-lo bem.

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