Veja: indispensável?

Seja pelas críticas ou pelos elogios, detratores ou defensores, a revista Veja sempre atrai atenção. Mas como e por que a publicação ainda se mantém como a mais popular do Brasil?

Tome alguns instantes de seu tempo para fazer um pequeno exercício: quando estiver à toa andando pela cidade, passando em frente a bancas de jornais, ou no transporte público, observe o que as pessoas lêem por aí. Inevitavelmente, seus olhos deverão esbarrar com alguma edição da revista Veja.

Justifica-se pelos números: são mais de um milhão de exemplares vendidos em cada edição, dos quais são aproximadamente 800 mil por assinatura, e o restante em bancas, estatística essa que a garante, ainda, o posto de mais vendida do país.

            Mesmo diante dessas estatísticas, é sempre interessante apontar que a revista passa longe de ser unanimidade. Para compreender melhor a popularidade considerável da publicação, é fundamental ter um olhar aprofundado a respeito de vários aspectos. Esse elevado número de exemplares vendidos não foi alcançado do dia para a noite, evidentemente. E, do mesmo modo, não foi um acontecimento desvinculado de outros fatores sociais, políticos e econômicos.

Um pouco de história

A primeira edição da Veja foi publicada em 11 de setembro de 1968, pela editora Abril. Planejada por Victor Civita como uma revista semanal ilustrada nos moldes da norte-americana Look, e, como conta Mino Carta, cujo objetivo era concorrer com a Manchete no Brasil. Sob o título de Veja e leia, o número inicial abordava os conflitos no Leste Europeu.

Adotando esse modelo popular nos Estados Unidos, com a publicação de reportagens elaboradas pela própria redação, a revista enfrentou dificuldades financeiras nos primeiros anos. A Veja não conseguiu se estabelecer no segmento das revistas semanais, em parte por esse já estar em decadência devido à chegada da televisão. O sucesso da edição número um, que alcançou a venda de 700 mil exemplares, não se repetiu nas edições seguintes, chegando a despencar para apenas 40 mil. Essa situação instável só foi revertida em 1973, com o estabelecimento do sistema de assinaturas, que logo alcançou 100 mil compradores. Até então, a Veja só era publicada por pertencer ao forte grupo de Victor Civita, que conseguiu cobrir o prejuízo dado pela publicação.

Houve um salto nas vendas durante a década de 1970: dos pouco mais de 100 mil exemplares de 1973, passaram-se aos 170 mil em 1976 e 250 mil em 1979 (dos quais 200 mil eram para assinantes).

E, se o crescimento durante a década de 1970 foi significativo, na década seguinte mostrou-se ainda mais espantoso. No início dos anos 80, a Veja alcançou os 400 mil exemplares vendidos, incluindo aí 340 mil assinaturas. Da década de 80 até os anos 2000, foram mais algumas centenas de milhares de exemplares vendidos, passando de um milhão atualmente.

Nesse período, vale ressaltar que o crescimento da Veja se deu em meio à ditadura militar, estabelecendo-a como a revista que reproduzia, principalmente, a ideia da classe média brasileira.

O estabelecimento entre esse segmento garantiu consumidores cativos, que passaram a se sentir representados pela mentalidade da revista.

 

Conhecendo o público

            Para continuar a analisar essa popularidade da Veja, é essencial conhecer, mesmo que minimamente, uma amostra de seu público. Sabendo as motivações daqueles que lêem a revista permite compreender se, de fato, as observações relacionadas à história da publicação apresentadas anteriormente são confirmadas na prática.

Andréia tavares, 49 anos, tem seu desapreço pelo PT, em especial pelo governo Lula, como principal motivo para ler a Veja. “Ele prometeu muita coisa e não fez nada em oito anos no governo,” diz. “É só olhar o Nordeste, a terra dele. É de dar pena a situação.” Para ela, a revista serve igualmente como informação a respeito dos acontecimentos na política nacional: “A Veja mostra isso nas matérias, o que acontece no Brasil,” completa.

Juliano Carneiro, de 26 anos, conta que se identifica com as ideias do colunista Reinaldo Azevedo: “Ele é um dos melhores jornalistas do país”. Alexandre Mendes, 41, lê a Veja por uma questão de “praticidade”. “Acho que assinar uma revista é importante, e a Veja, para mim, é a melhor opção”.

 

Finalizando…

O ponto de vista polêmico da Veja a respeito de questões políticas, sociais e econômicas sempre divide opiniões. E gera dúvidas sobre como a revista ainda consegue se manter como a mais popular do país no século XXI, mesmo mantendo uma posição conservadora e uma fórmula com poucas mudanças ao longo de 45 anos.

Nota-se que essa manutenção do modelo jornalístico ainda encontra espaço, principalmente entre a classe média, principal parcela do público leitor da revista. Apesar de terem havido modificações no Brasil ao longo desse tempo, os anseios e pensamentos de alguns setores da sociedade pouco sofreram alterações. A popularidade da Veja, reprodutora do pensamento conservador, deixa claro que muitos brasileiros também se recusam a ver o mundo de outras formas.

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