A resistência do saber

A resistência do saber

Como as bibliotecas sobrevivem à tecnologia

 O acúmulo de informações na história da humanidade teve início antes mesmo do surgimento dos livros, quando o homem passou a dominar as técnicas de escrita, criando acervos constituídos de tabletes de argila, papiros e pergaminhos.

Já, por volta dos anos 80, qualquer trabalho escolar levava os estudantes à uma biblioteca pública onde,  em um ambiente silencioso, pesquisas às fichas manuscritas e já encardidas pelo tempo, deveria achar o(s) livro(s) que necessitava e sentando-se  às grandes mesas, passava-se horas intermináveis copiando trechos para compor o que havia sido pedido.

Quando a produção e a comercialização de computadores pessoais se popularizaram, dando acesso à parte da população a uma infinidade de fontes de informação, muito se questionou sobre a sobrevida que as bibliotecas teriam.

É claro que, com a facilidade da internet, as bibliotecas precisaram se adaptar a um universo até então desconhecido, procurando manter sua importância para o conhecimento e a cultura da sociedade. Assim, a biblioteca deixou de ser simplesmente um espaço físico que abriga livros e ganhou uma definição mais abrangente, sendo todo espaço – concreto ou virtual – destinado a uma coleção de informações, sejam escritas em papel ou digitalizadas.

Muito se fala a respeito do futuro do livro, mas será que as bibliotecas conseguirão garantir seu espaço diante de tanta tecnologia? O poeta gaúcho Armindo Trevisan escreveu um artigo abordando a necessidade de uma nova concepção para a Biblioteca Estadual do Rio Grande do Sul, concepção essa que poderia ser implantada nas bibliotecas de todo o mundo. “O edifício poderia sediar, no térreo, a recepção, os serviços gerais e um auditório magnífico, que servisse para encontros literários, audições de música clássica, principalmente música de câmara. Nos outros andares, salas para oficinas literárias, cursos, enfim tudo o que possa agilizar nossos neurônios. Nos outros andares, colocaríamos os livros, nossos anfitriões.”

O que Armindo propõe é uma mudança no significado de biblioteca, que deixaria de ser vista unicamente como um espaço de leitura, de alta erudição, de silêncio, sem local para a troca, e passaria a ser um centro de conhecimento e convivência, onde as pessoas trocariam experiências e ideias.

Para Regina Gumieri, de 52 anos, que trabalha na Biblioteca Roberto Santos, no bairro do Ipiranga, a mudança foi muito grande. “Sou bibliotecária há trinta e três anos, e posso dizer que nesse período vivenciei várias transformações no perfil dos frequentadores. A área de pesquisa diminuiu muito, principalmente por parte do público adolescente, porque eles preferem a praticidade à qualidade. Hoje em dia é muito mais fácil, pois basta apertar um botão para ter todas as informações que você precisa”, comenta. Apesar disso, Regina não tem mágoas da tecnologia: “Tenho que admitir que a informática facilitou muito a rotina interna de uma biblioteca, em relação a cadastro de usuários e de livros. Hoje as pessoas podem consultar o catálogo online e já chegar na recepção com o código do livro desejado em mãos.”

Segundo Regina, a procura por livros de literatura aumentou muito nos últimos anos, principalmente da parte de crianças e jovens. “Como a Roberto Santos fica perto de muitas escolas, os estudantes costumam vir na hora do intervalo ou depois da aula. Alguns fazem pesquisas para trabalhos da escola, mas a maioria procura livros de seu interesse”, conta a bibliotecária. Além disso, a Roberto Santos é especializada em cinema, e conta com acervo temático, exposições e sessões de filmes gratuitas, o que atrai cinéfilos de toda a cidade.

Na opinião de Regina, as bibliotecas não correm risco de extinção, pois estão se adaptando cada vez mais às características do seu público frequentador. “Podemos encontrar aqui nessa unidade avós que trazem seus netos para retirar gibis e livros infantis para passarem uma tarde longe da televisão e do videogame”, conta.

Outro fator que colabora para a continuidade das bibliotecas é o alto preço dos livros no Brasil. Devido à baixa tiragem e o pequeno mercado, um mesmo livro produzido na Europa chega a custar mais que o dobro no mercado nacional.

A estudante Marina Dias, de 16 anos, costuma frequentar a Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, para pegar obras emprestadas e economizar no que seria, segundo ela, um enorme gasto em livros. “Leio muito rápido, por isso não vale a pena comprar. Vou à biblioteca a cada duas semanas, e pego três ou quatro livros”, disse.

Para fazer pesquisas, Marina opta pela internet, mas quando o assunto é leitura, prefere os livros físicos aos formatos digitais. “Os e-books são práticos, mas gosto mais do prazer de folhear um livro”, afirmou a estudante.

Além da concorrência com a internet na área de pesquisa, a praticidade dos livros digitais ou e-books faz muitos leitores abandonarem as bibliotecas. O estudante de arquitetura Diego Guimarães, de 23 anos, procurava um livro raro na Biblioteca Mário de Andrade, sugerido por um professor da faculdade, mas confessou que não costuma frequentar nenhuma biblioteca. “Gosto de ler romances e livros de autoajuda, mas sempre compro a versão digital e leio no tablet. Acho que a leitura flui mais do que no formato convencional”, opinou Diego.

Já o aposentado Luis Fernando Pallavicini, de 58 anos, é totalmente avesso à tecnologia. Sem acesso à internet, ele conta que evita usar até mesmo o celular. “Não costumo ler nada pela internet, nem e-mail. Concordo que a rede facilita a circulação de informações, mas nem sempre de boa qualidade”, ressaltou. Apesar disso, ele não acha que exista uma concorrência direta entre internet e biblioteca. “Espero que nunca acabe”. Morador do bairro do Ipiranga, Luis Fernando frequenta a Biblioteca Roberto Santos pelo menos duas vezes por semana, para ler revistas, jornais e livros.

Anteriormente vistas como centros de pesquisa e informação, hoje as bibliotecas tem uma função diferente, oferecendo diversas atividades além da leitura em si, como cursos, oficinas e exposições. Além da Roberto Santos, que oferece sessões de cinema, o sistema municipal de bibliotecas de São Paulo conta com outras bibliotecas temáticas, que, além do acervo comum a todas as unidades da rede, colocam à disposição da população um acervo específico e oferecem uma ampla programação cultural sobre um determinado tema, como a Biblioteca Belmonte, em Santo Amaro, especializada em Cultura Popular, e a Cassiano Ricardo, no Tatuapé, com temática em Música.

A Biblioteca de São Paulo, mantida pela Secretaria de Estado da Cultura procura aproximar o fascínio de adultos, jovens e crianças pelo mundo digital com a leitura, enxergando os livros eletrônicos como aliados na proposta de inclusão social por meio da leitura. A instituição disponibiliza no próprio site uma lista com 170 clássicos da literatura e 20 livros infantis para download, além de divulgar outros sites em que o usuário pode achar livros no formato digital, como o E-books Brasil e o Domínio Público.

A Universidade Estadual Paulista (Unesp) também disponibiliza gratuitamente o acervo pertencente ao seu sistema de bibliotecas e centros de documentação. O material pode ser acessado no site Biblioteca Digital, e está distribuído nas categorias Hemeroteca (revistas e jornais), Livros, História de São Paulo e Artes Visuais. A Biblioteca Digital conta também com materiais da Biblioteca Nacional, Arquivo Público do Estado de São Paulo e Biblioteca Mário de Andrade, parceiros da Unesp no projeto.

A recém-inaugurada James B. Hunt Jr. Library, biblioteca da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, inovou o conceito de biblioteca, desde a arquitetura ampla e sofisticada, até os mecanismos de pesquisa. Assim que o usuário realiza o pedido no catálogo digital, um robô é ativado através de um sistema de delivery, semelhante ao das grandes indústrias . É possível acompanhar o robô ir até onde está o livro e esperar que ele chegue a suas mãos. Além disso, a Hunt Library conta com 100 salas de estudo, auditório, restaurante e laboratórios de informática. Tudo isso para incentivar a leitura e a troca de ideias entre os usuários.

Esses são apenas alguns exemplos de iniciativas que convergem para um único objetivo: garantir a continuidade da transmissão do saber através das bibliotecas.

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