Estagiar(io) vale a pena?

Colocando em pauta um assunto de grande relevância, porém pouco comentado: a realidade do estágio para as empresas e para os estudantes

Estágio é uma palavra que designa fase, etapa. Para um universitário, significa um período de experiências, incertezas e transformações. Diferentemente do desenvolvimento de um inseto, que segue as mesmas leis em qualquer lugar do planeta, esse processo ocorre de formas distintas para os estudantes: basta mudar de empresa para a realidade ser outra. O panorama apresentado aos jovens brasileiros, portanto, é pouco animador e muito instável. Ao mesmo tempo, as corporações encontram dificuldade no recrutamento de novos talentos. Instaura-se, assim, o dualismo do estágio.

Segundo o último Censo MEC/ INEP de 2011, há no Brasil 6.739.689 matriculados no ensino superior. Destes, apenas 740 mil (10,98% do total) são estagiários, como mostra pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Estágios (Abres). Vistos sob um olhar superficial, esses números denotam um cenário alarmante aos universitários. Para analisá-los, porém, é preciso levar em conta alguns dados: 74,2% daqueles que cursam ensino superior o fazem em instituições privadas e 63,5% estudam no período noturno. Isso revela que muitos estudantes precisam trabalhar durante o dia para custear a faculdade, sendo o estágio uma alternativa pouco viável visto o valor da bolsa auxílio, em média 879 reais segundo pesquisa de 2012 do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube). Há ainda aqueles que decidem não estagiar para aproveitar o que a faculdade lhes oferece, como cursos extracurriculares e órgãos laboratoriais e de pesquisa. Sendo assim, o mercado se mostra otimista àqueles que buscam uma oportunidade de estágio.

Para isso, entretanto, não basta estar cursando o ensino superior, é preciso ter características que as empresas valorizam, como proatividade, bom relacionamento interpessoal e responsabilidade. Victor Noda, sócio-fundador da startup brasileira que mais cresceu no ano passado, a Mobly, defende que o estagiário deve ser auto motivado, buscando realizar suas atribuições da melhor forma e apresentando novas ideias. Além disso, ter atenção nas informações que gera é de suma importância: “Muitos, no início, não têm o cuidado necessário em suas análises e nem se preocupa o suficiente em saber a origem ou razão dos resultados que apresenta”, afirma. Dessa forma, passar pela avaliação criteriosa das empresas e ser aprovado requer um bom desempenho do estudante, o que muitas vezes não acontece e resulta em vagas ociosas.

Os contratados

Entre as principais razões para se estagiar estão a necessidade de se colocar os conhecimentos teóricos em prática e o desejo de ter o próprio dinheiro. Foi assim com Luana Lima Teixeira, 21 anos, estudante do quinto semestre da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Quando estava no começo do segundo ano decidiu fazer algo além da faculdade, e em maio começou a estagiar em um escritório de advocacia, bem pequeno. Hoje, faz parte da equipe de estagiários da Ulhôa Canto, Rezende e Guerra Advogados, referência em advocacia empresarial. “Eu adoro o que faço, tenho prazer em chegar ao estágio e ver o trabalho sendo desenvolvido, os processos andando, os novos desafios, os novos aprendizados em temas que nem imaginava”, conta Luana. Apesar das chances serem baixas devido a grande concorrência, ela declara que gostaria de ser efetivada, afinal, antes de seguir para a Magistratura (seu sonho de carreira) são necessários três anos advogando.

Para Lígia Chaves Martines Fernandes, 20 anos, a realidade é um pouco diferente. Cursando o terceiro semestre de direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ela começou seu primeiro estágio há pouco mais de um mês, no escritório Pinheiro Guimarães – Advogados. “Pensei que trabalhar seria uma boa forma de ter uma visão mais prática de como tudo funciona”, afirmou Lígia. “Vivenciar no dia a dia como as coisas acontecem também faz encarar as matérias de outra maneira e até a gostar mais de algumas delas”, completa. Embora tenha pouco tempo de casa, ela diz que já aprendeu muito e que o estágio tem sido importante para seu crescimento, tanto teórico quanto profissional. “Apesar de lidar com assuntos que estou vendo aos poucos na faculdade, os conceitos vão ficando mais claros quando os vejo em sala de aula”, conta. Para ela, efetivação é uma realidade distante, já que está no segundo ano. Seu plano é estagiar em diferentes ramos do Direito, ter um contato mais amplo e conhecer cada área para, futuramente, seguir a que mais lhe chamou atenção.

Se ambas gostam do que fazem e enxergam crescimento aliado ao estágio, com Carolina Di Fiori, 20 anos, é diferente. Também no terceiro semestre, cursa Relações Públicas na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), e estagia na Socicom, Federação Brasileira de Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação. Por o começo do curso ser muito teórico, “ficar só tendo aulas e não ver como é na prática é um pouco cansativo”, explica Carolina sobre por que começou a estagiar. Gostando de algumas funções que desempenha e de outras não, seu desejo é partir para outra empresa: “Acho que, hoje, já consegui absorver quase tudo o que a Socicom tem para me ensinar, por isso logo mais pretendo conseguir outro estágio”, pondera a jovem.

Sobre esse universo, a pesquisa Empresa dos sonhos dos jovens, realizada em 2012 pela Cia. de Talentos em parceria com a Nextview People, traz alguns dados importantes. Contrariando o que muitos gestores acreditam, 41% dos participantes desejam ficar mais de vinte anos em uma empresa que lhes faça felizes, revelando uma busca por um ambiente estável, no qual possam amadurecer e ter uma carreira sólida. Algumas características desses jovens são: mais criteriosos e angustiados; tempo escasso; busca por bem estar e desejo por novos desafios, porém sem competição em excesso. Apesar de o período máximo de um estagiário em uma empresa ser de dois anos, achar uma que lhe dê felicidade e estabilidade é o que ele anseia.

Os contratantes

Economicamente falando, ter estagiários no quadro de funcionários é muito vantajoso para uma empresa: além da remuneração menor são menos impostos a serem pagos. Em contrapartida, eles podem fazer no máximo 30 horas semanais de trabalho e possuem menos experiência profissional. Consequentemente, a produtividade é menor que a de um trabalhador efetivo. Colocando estes pesos em uma balança, será que os estagiários ainda compensam às corporações?

Victor Noda acredita que sim. “Em geral, não são caros para a empresa, por serem jovens e em início de carreira, porém são muito inteligentes, motivados e com vontade de aprender”, observa. “Essa combinação faz com que eles rapidamente tenham um desempenho elevado, que nos permite lhes dar grandes responsabilidades na companhia”, complementa o jovem empresário. Em relação à inovação, Noda afirma que os estagiários são essenciais. Com uma política de que toda nova ideia deve ser testada, tanto os efetivos quanto os trabalhadores universitários podem e devem sugeri-las, para que a empresa esteja sempre melhorando.

Indo contra os gestores que creem que, por ser estagiário, uma pessoa não deve ser encarregada de grandes responsabilidades nem nada que demande pensar, Victor defende que o mais importante é usar a inteligência e a motivação desse profissional da melhor forma possível. “Acredito que é preciso dar ao estagiário, gradualmente, mais e mais responsabilidades, forçar seu limite. Desta forma, ele vai se desenvolver muito mais rápido enquanto a empresa se beneficia do trabalho bem feito”, argumenta, mostrando que ambos saem ganhando.

De acordo com a pesquisa Empresa dos sonhos dos jovens, o que as corporações desejam é orientação para o resultado, comunicação, construção de relacionamento, trabalho em equipe e orientação para o cliente. Sofia Esteves, presidente do grupo DMRH, salienta que nas duas últimas décadas as grandes corporações têm visto o estágio como uma forma de atrair talentos que ainda não saíram da universidade, baseando-se em um modelo de atração e retenção de seus colaboradores.

Tudo ao seu tempo

O momento para começar a estagiar depende de cada pessoa, cada história. Para alguns, ingressar nesse meio o quanto antes é sinônimo de experiência profissional, mais contato com o mundo corporativo e “independência” financeira. Para outros, o estágio é uma necessidade, essencial no custeio da faculdade. Ainda, há quem prorrogue essa realidade para o mais tardar possível, apenas no último semestre do curso, tirando o máximo proveito do que a instituição de ensino oferece.

Luana Teixeira às vezes se questiona se começou cedo demais. Sempre achou que começaria a estagiar no terceiro ano, mas logo no início do segundo já estava empregada, por isso o pensamento de que poderia ter aproveitado mais as oportunidades e cursos que a faculdade oferecem ocasionalmente aparece. Contudo, ela não se arrepende. “Hoje vejo que fiz no tempo certo, no meu tempo. Estou tranquila, no lugar certo, onde deveria estar, mesmo sem saber exatamente como cheguei aqui”, confessa.

Se pudesse escolher, Lígia Fernandes também não faria diferente. Nos corredores da faculdade, sempre via pessoas bem vestidas e achava aquela realidade muito distante, desacreditando de sua capacidade de chegar lá. Em algumas tardes, quando tinha tempo para cochilar ou sair com uma amiga, pesava o fato de que se começasse a trabalhar aquilo não seria mais possível. Hoje, sente falta de momentos como estes, mas acredita que, se quiser ser bem-sucedida, terá que aprender a abrir mão de muita coisa. “Muitas vezes você vai estar doente, com dor de cabeça, de saco cheio ou simplesmente sem vontade de fazer coisa alguma, mas tem de cumprir com suas responsabilidades”, ressalta a estudante. “Isso já é algo que à primeira vista desanima, mas lhe força a crescer e a amadurecer profissionalmente”, conclui.

Victor Noda, que um dia já foi estagiário e julga essa experiência como de grande importância para sua carreira profissional, crê que tudo tem seu momento certo. Para ele, ingressar no mercado de trabalho muito cedo em detrimento da faculdade (estudos, atividades extracurriculares e até eventos sociais) pode ser um erro, mas ter pelo menos um ano de experiência profissional antes de se formar é fundamental. “Isso dará ao estudante muito mais conhecimento de como funciona o mercado de trabalho, o que é esperado dele e, assim, mais condições para encontrar um lugar legal para trabalhar”, finaliza.

Apesar das contradições e incertezas do universo do estágio, passar por ele revela-se essencial ao universitário. Independentemente do momento em que isso ocorra, ter esse contato com o mundo corporativo garante mais segurança ao estudante: ele saberá se aquilo é ou não o que deseja como ofício. Sem contar no amadurecimento que isso lhe proporciona, tanto pessoal quanto profissional, ensinando a ser mais responsável, comprometido e a se relacionar com as pessoas, por mais diferentes que estas sejam.

As empresas anseiam por novos talentos, que ajudarão em sua renovação e em seu sucesso. Os jovens desejam tornar as teorias de sala em práticas palpáveis. Com um estágio correto, no qual empresa e estudante cumprem com seus direitos e deveres, todos saem ganhando. Apostar nessa combinação é o que há.

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