Extraordinariamente simples

Dona Maria faz mais. Encanta com sua simplicidade e demonstra que a vida pode sim, ser muito boa. É a gente quem complica.

Dona Maria é uma mulher importante. Mas sua importância não está em um cargo de alto escalão ou na fama. Está na simplicidade, no grande das pequenas coisas. Ela se sente importante por isso, e tem toda razão para tal. “As coisas simples é que são as melhores. As pessoas se desgastam tanto que nem sentem o gosto das coisas”, diz a pequena senhora de 77 anos.

Ela é o tipo raro de pessoa que gosta de sentar no banquinho, enquanto aprecia o sol secar as roupas do varal. Que faz questão de entregar um bombom ou versículo da Bíblia escrito a mão para a porteira do prédio. Que acha um máximo andar de ônibus por aí, sem ter que se preocupar com o trânsito.

Sobre se sentir importante

De pantufas acolchoadas, calça preta e camiseta cinza, Dona Maria Ferreira Martins abre a porta de sua casa com um sorriso. É mais vibrante do que o colete verde-bandeira de crochê, que ela mesma fez para si. Já abre a porta se desculpando pela demora, justificando que não achava os sapatos. Na maçaneta da porta, uma capa xadrez vermelha. “É para não esfriar a mão das visitas, sabe?”. Não, não sei. Nunca havia pensado nisso antes para falar bem a verdade. O ambiente tem cheiro de vó, e me faz pensar na minha própria avó, que mora há tantos quilômetros de distância.

Ela me guia pela cozinha do apartamento 84 até a sala de estar, onde senta em um sofá enfeitado com toalhinhas brancas de crochê, muito provavelmente originadas das mesmas mãos do colete verde. A mesa de jantar parece não ser usada em sua finalidade original, servindo como local para a grande Bíblia, aberta no livro de Salmos e apoiada em um suporte. Fotografias coloridas e monocromáticas cercam o livro sagrado. Um aparador ao canto exibe mais retratos e um vaso de orquídeas amarelas.

Começo a pensar quando foi a primeira vez que vi dona Maria, mas não me recordo. A única coisa que lembro é que ela também foi uma das primeiras moradoras do prédio em que vivo há 11 anos. “Sua mãe foi a primeira pessoa que falou comigo, sabe? Veio até mim e meu marido na garagem e disse ‘Prazer, sou a Gabriela do apartamento 54. Sejam bem-vindos ao prédio. Se precisarem de qualquer coisa, sou enfermeira.’ Não é todo mundo que oferece ajuda a um casal de idosos. Nunca pedi, você sabe. Mas sou muito grata à gentileza da sua mãe”, disse ela como se adivinhasse meus pensamentos.

E essa gratidão toda não é específica com minha mãe, nem tampouco coisa da idade. Dona Maria é grata ao mundo, e por cada pequeno acontecimento de sua vida. Nascida em Ribeirópolis, no interior de Sergipe, ela é a terceira de sete filhos e a mais velha entre as meninas. Sua responsabilidade era cuidar dos mais novas, mas isso nunca foi visto como fardo: “Ser responsável me fazia sentir importante. Tinha uma irmã mais nova, a Andréia, que arrumava todo dia para a escola. Ela era tão bonita, tinha que ir com a saia pregueada para fazer jus, então eu passava ferro todo dia na roupa dela”.

Outro aspecto daquela vida que lhe dava orgulho era a escola. Gostava de levar muitos livros nos braços, amarrados por um elástico. Pedia às professoras caixas de sabonete que já não usavam, para ela guardar lápis e canetas como um estojo. Aprender também fazia com que sentisse importante, como se pudesse abraçar o mundo com as palavras. Porém, aos 12 anos completou seu período escolar e foi trabalhar. Foi a primeira e única desilusão que ela me confessou. “Eu ouvia o sino da Igreja, que marcava o horário do colégio, e quando os alunos desciam a praça ao meio-dia, meu coração doía de não estar lá”. E não tinha como não ouvir. A cidade, pequeno lugarejo, era composta por duas ruas, e tudo girava em torno da praça e da Igreja.

Foi a única vez em todas as nossas conversas que ela contou sobre uma decepção. As pequenas mãos passavam pela barra do colete e assentavam o vinco da calça, inquieta. Tentei mudar de assunto rápido, perguntando sobre o mindinho torto da mão direita. “Quebrei uma vez, quando caí. Eu caio direto, tropeço sem nem ter no que tropeçar”. De fato, não é raro encontrar Dona Maria com um curativo, ou roxo pelo corpo. Mas isso não a impede: vai ao posto de saúde, supermercado e farmácia. Visita parentes e pega ônibus sem companhia alguma.

Prefere assim, fazer tudo por conta própria, apesar apesar de receber atenção frequente dos parentes após a morte do marido e, um ano depois, do único filho. Roseli, porteira do prédio há um ano e dois meses, já se acostumou recusar visitas. “Ela insiste: ‘Só toca o interfone três vezes. Se eu não responder, diga que devo estar dormindo’.”, diz suspirando. E ela realmente usa essa desculpa. No momento que o telefone tocou e fiz menção de parar a conversa, ela segurou minhas mãos e disse para deixar tocar, que depois ela falava que tinha tirado um cochilo. “Velho pode falar essas coisas, né?”, disse com um sorriso maroto que fazia as rugas comprimirem os olhos escuros.

E assim, com calma e a seu tempo, Dona Maria faz uma coisa de cada vez. “Eu varro a casa, passo roupa. Desmancho uma peça e faço dela outra, além do meu crochê. Esse é meu dia, e ele me basta”. A paciência foi adquirida quando aprendeu a costurar na alfaiataria em que trabalhou, hábito que mantém até hoje. Não se importa de desmanchar e refazer o trabalho quantas vezes for necessário e, após nossa conversa, me levou até o quartinho de empregada, perto da porta de serviço. Lá, ela transformou o local em um pequeno ateliê de costura, onde mantém sua máquina coberta por uma capa de tecido florido.

A beleza de todos nós

No fim de semana, acompanhei-a ao mercado de braços dados. Quem visse na rua, poderia achar que era a minha avó. Quase isso, uma vez que a senhora ao meu lado, estava sempre deixando bilhetes na porta de casa ou conversando no elevador. Ela também pareceu achar algo de familiar naquilo, pois na volta para casa falou que eu parecia sua neta, no jeito como inclinava o rosto ao sorrir. No dia, ela estava com uma camiseta em tons terrosos, com detalhes alaranjados. A calça marrom, combinava com a peça de cima. As orelhas e dedos, vazios de ornamentos. Já o pescoço vinha com duas correntinhas de ouro, com pingentes escondidos por dentro da blusa.

“Sabe, eu já fui bem bonita. E a gente tem que falar assim de si mesmo, tem que se gostar. Então não me importo de dizer que tinha beleza. Deus fez a gente tão perfeito, pra quê negar?”, me pergunta. Ela não ostenta, mas toma o cuidado de manter os cabelos sempre pintados de preto e a roupa asseada.

Na volta, cumprimenta o porteiro com um aceno de mão. Dona Maria prefere entrar pelo portão de serviço, uma vez que o social tem escadas. Quando viu que quem estava na portaria era Roseli, no entanto, deu meia-volta e foi até lá trocar umas palavras. “Bia, como vai você?”, começa puxando assunto. Roseli me contou que ela sempre a chama de Bia, e ela, sem graça de corrigir a senhora, adotou o novo nome. Também fui chamada de Janaína algumas vezes, embora não faça ideia de quem possa ser Janaína. Algumas vezes, ela percebia e trocava o nome por Yasmin.

Terminou o diálogo com um ‘fique com Deus’, e voltamos para seu apartamento. Muito religiosa, Dona Maria espalha pela casa o nome e a palavra de Deus. Além da Bíblia na sala, as poltronas receberam toalhas de mão bordadas com “Jesus” e “Cristo”, cada qual enfeitando um encosto. Ela vai ao centro espírita toda semana e conta que o marido a levava sempre que queria, embora não gostasse de ir junto. Ficava no carro, esperando a esposa sair.

Apesar de diferentes em muitos aspectos além da religiosidade, Dona Maria relembra do marido com muito carinho. “Foi meu amigo, meu companheiro. Esteve comigo em todos os momentos e, mesmo eu não gostando de futebol, sentava ao lado dele para ouvir os jogos no rádio de pilha que ele levava para o quarto. Com o tempo, passei até a entender aquela barulheira toda e perguntar algumas coisas, já que ele gostava tanto do Corinthians”. O companheirismo, era nítido para todos os outros moradores do prédio. “Eles andavam sempre juntos e ele fazia questão de segurar a porta do elevador para ela. Andavam de mãos dadas, sempre conversando. Era bonito de se ver.”, disse Gabriela. Ela, sempre que pode, dá um jeito de tocar na casa de Dona Maria e ver como ela está. Quando fiquei presa no trânsito da cidade e tive que desmarcar a entrevista ela foi lá, falar pessoalmente e levar um pouco de caldo verde.

Dona Maria, agradecida como sempre, devolveu o gesto com uma lata de biscoitos, embalados em um saco de presente. “Eu adoro sacos de presente, adoro colocar fita e fazer um cartão. Tudo é belo, sabe? Ainda mais quando vem com afeto”, conclui.

Inspirando, sem suspirar

Sobre a solidão, e a falta que o marido e filho fazem, fala apenas superficialmente. “Não vou ficar lamentando, prefiro pensar que eles cumpriram sua missão aqui e que foi bom enquanto me acompanharam”, diz sem nem um suspiro. Minha mãe, a Gabriela do 54, lembra a vez em que a família, no hall de entrada do prédio, discutia como contariam para ela que o filho havia falecido de infarto, nem um ano após a perda de seu companheiro: “Imagino que tenha sido um duro golpe, mas nem por isso ela se deixou abater. Continuei encontrando-a no elevador para seus passeios, seguindo em frente”. De tão reservada que é, Roseli foi apenas descobrir os falecimentos por meio do zelador do prédio. “Ela apenas dizia que ia ao cemitério”, conta a porteira que só vai trabalhar no prédio por mais um mês, mas já deu seu telefone para a senhora a qual ficou tão apegada. “Eu não deveria, né? É antiético, mas não tem como. Dona Maria me comove, ela sempre chega com suas palavras simples, mas sábias. Nessas horas eu percebo que o importante não é ela errar meu nome e me chamar de Bia. Não é isso que faz diferença”.

“E você acha isso tudo que eu estou falando importante, para ser motivo de um trabalho?”, perguntou, ao final da visita. Como pode, uma mulher sempre se sentiu importante, que se valorizou os pequenos milagres diários, me questionar tal coisa. Claro que acho. “O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos, Dona Maria. Pelo antônimo da evidência”, digo em resposta, citando a jornalista Eliane Brum. Ela me dá um abraço apertado e me aguarda junto comigo a chegada do elevador.

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