As agulhas de Dona Alzira

Nos jardins da Santa Casa da Misericórdia de São Paulo, em meio a movimentação de jalecos brancos e pacientes do hospital, uma figura serena destoa das demais. Sentada em uma cadeira de rodas pela dificuldade que tem de se locomover, ela passa as manhãs naquela grama verde, de onde sobem algumas árvores. As rugas no rosto não tiram a beleza do sorriso e nem ofuscam a vaidade – evidente pelas unhas cuidadosamente pintas, do lenço bem arrumado e dos cabelos penteados.

Os enfermeiros e funcionários já a conhecem e, sentada discretamente em seu cantinho, ela não passa despercebida. Vários “bons dias” vão em sua direção e, mesmo concentrada na atividade que a trás para aqueles jardins, ela para e cumprimenta a todos com simpatia e bom humor.

– Muito trabalho hoje, Dona Alzira? – Alguém passa e pergunta com intimidade.

– Que nada, minha filha. Se tivesse, eu não estava aqui.

Ela sorri e volta a se concentrar em seu ofício. As mãos, habilidosas, cuidadosamente manejam duas agulhas compridas e finas. Na ponta delas, o carinho de Dona Alzira toma forma. Com várias cores e diferentes linhas de lã, uma manta aos poucos já vai quase tocando o chão. “Ah, eu deixo bem colorido para ficar alegre, sabe” – Ela conta. E sobre a combinação de cores, explica: “Rosa combina com azul, que combina com o amarelo, e aí eu ponho o verde que, bom… Não combina com muita coisa, mas eu gosto”.

Há três anos e meio – pouco tempo se comparado ao quase um século de vida de Dona Alzira –, ela trouxe para sua rotina com o tricô uma nova motivação. Antes, os destinos dos cachecóis, meias, mantas e gorros que fazia eram os familiares e conhecidos, mas passado alguns anos, suas agulhas já estavam produzindo mais do que o número de pessoas próximas que podiam ser presenteadas. Foi então, com a ajuda da filha, que Dona Alzira deu aos seus tricôs uma nova função.

“Eu dei a ideia para ela começar a doar o que fazia, porque todo mundo da família já tinha alguma das peças”, explicou a filha, que leva o mesmo nome da mãe. A produção de cobertores coloridos de tricô de Dona Alzira passou a ter como destino as crianças em situação de rua de São Paulo. “Se os mais velhos já sentem frio, imagine as crianças, tadinhas. Elas sofrem mais”, explica.

Desde então, os dias de Dona Alzira são ocupados com o tricô e a ajuda ao próximo. “Ah, é bom, sabe. Porque ocupa a cabeça e a gente não fica pensando besteira”. De manhã, nos jardins da Santa Casa, ela começa o dia. “Só não venho quando está chovendo”. A tarde, em casa, ela continua a tricotar.

Ela conta que sempre gostou muito de arte, o que a levou, quando mais jovem,  a ter um pequeno espaço na garagem de sua casa, em que vendia quadros e artesanatos. Além da carreira artística autônoma, Dona Alzira lecionou durante muitos anos no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), onde dava aulas de vitrinismo e empacotamento artístico. Mas é difícil saber ao certo a origem de suas habilidades artísticas ou com quem aprendeu tudo que sabe, o que torna, então, evidente seus 96 anos de vida. “Olha, minha memória não costuma falhar… Mas confesso que não sei bem, faz tanto tempo”.  E completa, com humor: “Acho que já nasci pronta!”.

Além dos trabalhos com arte, Dona Alzira sempre foi envolvida no Terceiro Setor e em atividades voluntárias. Hoje, através do tricô, ela pode voltar a se dedicar a esses que foram os seus ofícios por muito tempo.

A sala de sua casa não esconde a paixão que ela tem pela arte. São dois quadros próximos a mesa de jantar e mais três no local dos sofás e da televisão. Com muito apreço pelas obras, ela conta que todas foram feitas por ela. Uma, em especial, ela permanece por mais tempo explicando e contemplando seu significado, fica bem acima do maior sofá da sala e, para quem chega da porta de entrada, é essa a que mais se destaca.  No quadro, uma paisagem bucólica, com um céu azul e um campo verde, tem em seu centro um homem sentado, de costas para quem os olha, e que observa a vista do campo. “Quando eu era jovem, logo que me casei, eu e meu marido passávamos os finais de semana em uma casinha que tínhamos em Serra Negra”, fala com um ar nostálgico. E um tanto quanto emocionada, ela completa: “Fui muito feliz nesse lugar, acho que talvez  tenha sido uma das fases mais felizes da minha vida”.

A falta de segurança nas mãos e de energia do corpo, impedem que Dona Alzira continue preenchendo suas paredes brancas com os quadros que pinta. “Gostava muito de pintar, mas agora não tenho mais condições”. O lugar das pinturas, agora, é tomado pelas linhas articuladas que formam suas peças de tricô. A tinta se transforma em lã e além da beleza, carregam a função de aquecer aqueles que precisam.

“Eu acho que é uma das coisas que a deixa mais feliz hoje. Poder ajudar alguém com um trabalho que ela gosta tanto”, diz Alzira, a filha. “Espero que ela possa continuar por muito tempo assim”.  Se for por Dona Alzira, a mãe, ela continuará: “Ah, eu não paro, não. Vou chegar no meu leito de morte com as agulhas na mão, minha filha”.

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