De preferência, sempre sorrindo

Celestino Angelo Vivian, 63 anos, de origem italiana, é natural de Guaporé (RS), filho de Maximiliano Vivian e Maria Ghisleri Vivian. Cursou o antigo Ginásio e o Colegial em internatos. Pretendia seguir a carreira religiosa, mas esta foi abandonada em 1974, após se graduar em Filosofia. Ingressou na Folha de S. Paulo em 1974, onde permaneceu por 26 anos, até o final de 2001. Graduou-se em Jornalismo em 1978. Hoje, aposentado, é diretor da Agência de Comunicação Integrada. Nossos encontros ao todo somam por volta de 4 horas.

O personagem, nascido de uma família humilde na serra gaúcha, onde, como disse, “plantava-se milho com espingarda e colhia-se as espigas a laço”– uma alusão aos morros da região –, jamais teria imaginado que um dia chegaria à rua Barão de Limeira, 425, a sede do jornal  Folha de S.Paulo na capital paulista. Trabalhou também na Rádio 9 de Julho e no Diário do Grande ABC e, como voluntário, em dezenas de comunidades carentes do interior de São Paulo e da região metropolitana. Hoje, em uma agência de comunicação, onde escreve artigos para uma dezena de clientes e é responsável pelas análises de mídia na área política, tem como lema “ajudar a todos e distribuir conhecimento”, a exemplo dos muitos que o ajudaram a ser o jornalista e o ser humano que é.

Da infância pobre, em meio à comunidade de origem italiana (aprendeu a falar português com 7 anos), algumas lembranças marcantes: da família de 9 irmãos, apenas o último nasceu em um hospital. Perdeu uma irmã de 3 meses, por engasgo, e um irmão de 12 anos, de meningite. Aos cinco anos, segurando uma abóbora com a mão esquerda e usando um facão na direita, um golpe certeiro para partir o fruto levou junto parte do polegar da mão esquerda. “Acho que somente me faz falta para matar pulgas”, comenta com uma boa risada. Em maio de 1956, a família migrou para o oeste de Santa Catarina, em busca de terras mais férteis. Tempos difíceis, sem geladeira, sem água encanada, sem banheiro dentro de casa, sem luz elétrica. Mas teve a ventura de frequentar uma escola de manhã. Na roça, somente ia à tarde. Aos 11 anos, deixou para trás os pais e os irmãos e foi estudar em um internato no Rio Grande do Sul. Nunca mais voltou para casa… apenas nas férias.

Foi o início da mudança e da aquisição de uma sólida formação, em todos os aspectos – cultural, moral, ética. Lembra que, nas aulas de português, foi obrigado a passar a obra “Os Lusíadas”, de Camões, de verso para prosa e a traduzir do italiano para o português a “Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Da infância e juventude, mesmo com o parco acesso a informações imposto pelo Internato, tem vaga lembrança do suicídio de Getúlio em 1954, mas recorda com vibração da fundação de Brasília por Juscelino, da campanha presidencial de 1960, opondo Jânio Quadros ao Marechal Lott – “lembro como disputávamos a tapas a vassourinha do Jânio e a espada de Lott. Parecíamos ‘gente’ com aqueles ícones presos a camisas surradas”. Diz ter chorado com o assassinato de John Kennedy, em 22 de novembro de 1963. “Éramos levados a cultuar o poderio militar e econômico norte-americano e víamos em Kennedy um protetor contra as reformas nacionalistas de John Goulart”. Meio sem jeito, afirma que “só acordei para a importância do governo Jango e suas reformas, com seus ministros Santiago Dantas e Celso Furtado, após o golpe militar de 31 de março de 1964”. Sobre o golpe: “Haviam me dito que foi a vitória do país católico contra os comunistas, vitória da Marcha da Família com Deus e pela Liberdade. Foi necessário um choque para entender o que de fato tinha acontecido no país.

“Sair do interior gaúcho, da calmaria dos Pampas sem fim, e desembarcar na Estação Rodoviária da Praça Júlio Prestes, em São Paulo, foi em todos os sentidos uma experiência traumática”. A começar pela chegada, em junho de 1968. “Nunca havia visto uma escada rolante. Havia uma lá na antiga rodoviária, ligando o térreo ao primeiro andar, Consegui embarcar. Mas, quando vi os degraus sumindo… dei um salto e acabei atingindo duramente o calcanhar da pessoa à minha frente. Um vexame”.

Mas isso não foi nada comparado ao choque político e cultural. Podia ver TV, ler jornais e revistas, ir ao cinema, sem restrições. Castelo Branco havia morrido um ano antes em um acidente aéreo nunca bem explicado e Arthur da Costa e Silva se apresentava diariamente disposto a enfrentar os protestos contra o regime, vindos em particular do meio estudantil. Os atos subversivos se multiplicavam. “Você recorda do assassinato do estudante secundarista Edson Luis de Lima Souto no Rio? Foi a primeira vez que meu sangue ferveu contra a ditadura. Deu uma vontade louca de estar no meio daqueles 100 mil estudantes que foram às ruas protestar contra a morte do Edson, em 26 de junho. Logo depois veio o Congresso da UNE em Ibiúna, aqui em São Paulo, duramente reprimido.”

Passava os dias estudando e se preparando para o início do Curso de Filosofia (1969-1972). A Congregação religiosa a que pertencia garantia casa e comida. Tinha tempo de ler os jornais, ouvir rádio, assistir à TV, de conversar com as pessoas. “Foi um mergulho na dura realidade do país, nada parecido com a paz, ou ‘alienação’ involuntária lá dos Pampas. Em 13 de dezembro de 1968 veio o Ato Institucional nº 5, que fez os opositores do regime quase ‘sentirem saudades’ do AI-2 de outubro de 1965, que extinguiu os partidos políticos e implantou o bipartidarismo (Arena e MDB). Com o AI-5 veio o fechamento do Congresso, vieram as cassações, se instalou a repressão, multiplicaram-se as prisões indiscriminadas, a tortura. Era o início do período conhecido como ‘anos de chumbo’ da ditadura. “Com 19 anos, passei a respirar política. Se antes havia chorado com a morte de Kennedy, assisti com certo prazer à façanha do MR-8 de sequestrar o embaixador Charles Burle Elbrick, em setembro de 1969”.

O curso de Filosofia deu embasamento a ações e incentivou o envolvimento. “Nos finais de semana trabalhava em comunidades carentes da periferia, como no bairro do Grajaú, na zona Sul da capital, na nascente favela de Heliópolis, no Sacomã – eram menos de 300 barracos em 1970 – ou em Vicente de Carvalho (Itapema), na Baixada Santista. Enquanto o governo Médici combatia a guerrilha urbana e rural, contra o grupo de Marighella em São Paulo e contra os insurgentes do Araguaia, pelo menos dava para espalhar um grito de ‘queremos democracia’ entre os mais pobres”. Mas, “por incrível que pareça, Médici reabriu o Congresso, não cassou ninguém e ainda conseguiu razoável crescimento econômico. Era o ‘Milagre Brasileiro’. As pessoas puderam comprar geladeira, vibraram com a conquista da Copa de 70, vista em cores pela TV. Um ambiente de ‘pão e circo’ conseguia esconder da população os horrores do DOI-Codi.”

Concluído o Curso de Filosofia e mais dois anos de Teologia, “a Congregação a que servia decidiu me mandar estudar no Canadá e ficar trabalhando por lá pelo resto da vida. Disse não, queria ficar no Brasil. Abandonei a carreira religiosa e no finalzinho de 1974 ingressei na Folha de S. Paulo”, quando Ernesto Geisel já estava no comando. O ambiente no jornal era maravilhoso. Tive a felicidade de conhecer o saudoso Cláudio Abramo, que foi obrigado pelos militares a deixar o jornal, em 1979”.

O trabalho inicial foi no Banco de Dados da Folha. Mas ganhava apenas o suficiente para pagar o cursinho da Casper Líbero (1975) e depois a faculdade de Jornalismo (1976-1978). O aluguel era dividido com amigos. Comer? Quando alguém ajudava ou alguma coleguinha dividia o lanche trazido de casa. Como uma dessas coleguinhas, a Sandra, ele está casado há quase 32 anos. “Passei fome. Ainda bem que na época o abacate era baratíssimo e sempre se dava um jeito de conseguir um pouco de açúcar nos bares da Barão de Limeira”.

Terminada a faculdade, a vida mudou a partir de 1979. Pulou para a revisão da Folha, à noite, das 21h até 1h40 (na época, 90 jornalistas trabalhavam na revisão), e de dia trabalhava no Diário do Grande ABC). “Meu Deus, dois salários, mesmo dormindo apenas quatro horas por noite. Fiz um pé-de-meia e já em 1980 consegui dar entrada em um pequeno apartamento na Casa Verde. Estou por lá até hoje, perto do Estadão.”

No final de 1980, já no governo de João Figueiredo, ingressou na Redação. Passou em primeiro lugar no primeiro concurso interno realizado pela Folha e foi disputado pelas editorias de Cotidiano, então comandada por Carlos Eduardo Lins e Silva, e de Internacional, sob o comando de João Batista Natali, recém-chegado de Paris. Ficou na última. Ainda hoje se emociona com o apoio e a compreensão do Natali, que considera seu mestre e grande incentivador.

A Folha do início dos anos 80, com Boris Casoy e o recém-formado Otavinho – ainda hoje no comando da Redação –, respirava a luta pela redemocratização do país. Essa luta culminou na defesa incondicional das Diretas Já, na cobertura emocionante dos grandes comícios. “Mesmo com a derrota da Emenda Dante – choramos muito naquele dia – e a eleição indireta de Tancredo Neves contra Maluf, vivia-se um clima de extrema euforia e vibração com o fim do regime militar. Pena que Tancredo tenha levado para o túmulo parte de nossa expectativa de rápidas mudanças.”

Da editoria de Internacional, já como subeditor, muitas memórias e a convivência com grandes mestres do Jornalismo como Clóvis Rossi, Paulo Francis, Geraldo Mello Mourão, entre tantos outros. Foi um período riquíssimo em coberturas, ao lado do Natali (aposentado), do Caio Blinder, ainda no Manhattan Connection, do José Abex etc. Como esquecer os cadernos especiais de mais de dez páginas sobre a explosão da Challenger, sobre o desastre nuclear de Chernobyl, sobre a queda do regime militar na Argentina, sobre as negociações de desarmamento entre os EUA e a então URSS? “Armas nucleares” foi sua especialização no período da Guerra Fria.

Há muitas outras histórias, como a do primeiro dia na editoria de Internacional. O subeditor Jaime Klintowitz, hoje editor-executivo de Veja, pediu que fizesse um texto sobre a guerra civil na Nicarágua. Usava-se então a boa máquina de escrever. Primeira tentativa e Jaime sentenciou: está uma bosta. Segunda tentativa: está uma merda. Diante das lágrimas e do desespero, veio a ajuda do Marcão (Marco Antonio Escobar). Em cinco minutos fez um texto de 20 linhas, repassou-o sob a mesa. Era a terceira tentativa: Está ótimo, disse o Jaime. E nunca soube se o subeditor soube da verdade.

Da Editoria de Exterior, pulou para a Primeira Página, com Caio Túlio Costa e o grande mestre em edição, o “seu Domingos”. A partir de 1992, vieram os projetos especiais – com emoção citou três: Projeto de informação por navegação sobre o plebiscito de 1993 (Presidencialismo, Parlamentarismo, Monarquia); a produção dos fascículos encartados nas edições dominicais (fizeram a tiragem saltar de pouco mais de 400 mil para mais de 1 milhão de exemplares aos domingos); e a criação do serviço noticioso de tempo real, o FolhaNews.

A mensagem de Celestino que pude captar é simples e direta. O exercício do Jornalismo é apaixonante. É uma construção diária da própria vida. Segredos do sucesso: humildade perante os fatos, perante as fontes e perante os colegas; busca incessante do conhecimento através da leitura, muita leitura, e de viagens; dedicação em tudo e com todos; não ter medo do trabalho.

Aos mais jovens, três recados: escrever aprende-se escrevendo; caso haja dificuldades com o idioma, o melhor é comprar uma boa gramática e estudar; é fundamental buscar uma especialização e procurar estar sempre feliz e sereno, de preferência sorrindo.

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