De Quintela de Edroso para o Brasil

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Maria Martina Afonso Fernandes

As dificuldades, as alegrias e as conquistas de uma mulher imigrante

Maria Martina Afonso Fernandes nasceu no dia 26 de janeiro de 1931 em uma pequena cidade chamada Quintela de Edroso, localizada na província de Ourense, Galícia. Filha de Áurea Fernandes Dominguez e Serafín Afonso Rodriguez, Maria viveu sua infância com cinco irmãos, os quais, em escala decrescente são: Tomás, Pedro, (A perfilada Maria), Máximo, Serafín e Martina. “Éramos seis, como naquela novela antiga que passou na TV… (risos)”, disse Maria antes de contar que os irmãos mais velhos Thomas e Pedro já faleceram. “Dos 6, 3 vieram para o Brasil: eu, Tomás e Máximo. O Tomás foi o primeiro, e também foi o responsável para que eu me mudasse para cá. Dos outros 3 que ficaram, Martina foi a única que mudou de Quintela para uma cidade maior, na Espanha mesmo: Valladolid.”, relata.

Quintela de Edroso é uma típica cidade pequena, e no início e meados do século XX ainda tinha problemas com a falta de escolas. Maria, hoje com 82 anos, disse que havia uma única instituição de ensino no povoado, e que eram admitidas crianças até 14 anos, das quais todas estudavam em uma única sala com uma única professora. Ela e todos os seus irmãos frequentaram esta escola, mas Maria disse que um deles não gostava de estudar: “O Máximo detestava ir para escola. Um dia, quando caminhava com ele em direção ao colégio, ele parou e me disse que não ia assistir à aula e que iria se jogar no poço para se matar (risos).”. Maria desesperou-se e, enquanto seu irmão correu em direção ao reservatório de água próximo a sua casa, foi chamar seu pai, que logo foi atrás de Máximo e o pegou na beira do poço. “Depois daquele dia, da briga – e também de uns “tapas na bunda” – meu irmão não deixou de ir a escola.”.

O fato de poder estudar apenas até os 14 anos de idade, fez com que Maria entrasse em um curso de corte e costura após sair da escola, o que deu início a sua profissão de Costureira, exercida posteriormente no Brasil. Em 1950, Maria casou-se com Juan Rodriguez Lastra, e um ano depois, deu a luz a sua primeira filha: “A Mercedes nasceu com 8 meses e morreu com apenas 8 dias de vida. Curiosamente, 8 anos mais tarde, tive minha segunda filha, também Mercedes, que está comigo até hoje!”. Mercedes nasceu no Brasil em 1958, 4 anos após a chegada de Maria e seu marido.

“Pegamos o navio dia 26 de abril de 1954 e depois de 14 dias desembarcamos no Porto de Santos. Assim que chegamos a São Paulo dividíamos um único cômodo ali na região da Praça da Árvore com mais 7 imigrantes espanhóis. Todos da mesma província que a gente.”, relata Maria. A aposentada também conta que teve dificuldades em conseguir um trabalho por ser uma mulher casada: “Eu tinha conseguido um emprego em uma fábrica de costuras. Trabalhei lá por 15 dias, mas quando mostrei meu documento de casada, fui demitida. Foi bem difícil no começo. Mas meu marido assim que chegou já foi encaminhado para trabalhar em uma marcenaria, e pouco tempo depois foi admitido na fábrica de móveis ‘Lafer’.”, diz.

Após muita procura e suor, Maria conseguiu uma vaga como “calceira” em uma fábrica de costuras. Ela e o marido fizeram suas economias e em 1958, ano do nascimento de sua filha, compraram uma pequena casa no mesmo bairro e mudaram-se. Três anos mais tarde o casal abriu uma mercearia na própria garagem, e em 1964 Maria deu a luz a sua segunda filha Marta. “Em 64 nasceu Marta e nasceu também a ditadura no país. Muito parecida, inclusive, com as cenas das manifestações reprimidas que estão acontecendo atualmente.”, comenta.

Sete anos mais tarde, Maria engravidou de seu terceiro e último filho. Durante esse período, presenteou o marido com uma passagem para que acompanhasse seu irmão em uma viagem para Quintela de Edroso visitar seus familiares. Mulher, grávida e com duas filhas, Juan, seu marido, deu-lhe uma pistola calibre 32 e disse que se alguém tentasse invadir a casa ou tentasse fazer qualquer mal a elas, bastava dar um tiro para o alto para assustar o bandido. Durante a viagem do marido, sua filha Mercedes, que na época tinha 12 anos, relata o ocorrido em uma noite: “Estávamos as três dormindo na cama de casal dos meus pais. Ouvimos um barulho alto, e entramos em desespero. Qualquer ruído achávamos que era um ladrão. Então minha mãe levantou da cama, foi até o banheiro, abriu a janela e atirou para fora. Não havia ninguém, ou se havia, a pessoa logo fugiu com o barulho. (risos) Hoje dou risada, mas se paramos pra pensar a respeito, foi um ato muito perigoso e errado.”.

Entre tiros e perigos, Maria e sua filha Mercedes relembraram um momento de agonia vivido na mercearia da família. A espanhola diz que frequentemente eram assaltados, e que em umas dessas ocasiões teve seu marido refém: “Estávamos trabalhando quando de repente três bandidos adentraram a mercearia. Estavam presentes também uns fregueses antigos. Dois dos assaltantes levaram meu marido e esses fregueses para o banheiro e os trancaram lá dentro. Enquanto isso, o outro bandido apontou o revólver na minha cabeça enquanto me fazia entregar todo o dinheiro que tínhamos no caixa.”. Durante o ocorrido, Mercedes estava com sua irmã em casa e diz se lembrar de seus pais chegando em casa transtornados e aflitos com o ocorrido.

No ano seguinte, 1971, nasceu seu filho mais novo chamado Juan Antônio. Maria já tinha 40 anos, seu marido ficou descontente assim que soube que a mulher engravidara, pois corria risco, mas tudo ocorreu bem. Quatro anos mais tarde, o casal comprou uma casa maior, onde vivem até hoje. Compraram também a mercearia que havia do lado da casa, para onde transferiram seu comércio. “Com muito esforço conseguimos comprar uma casa melhor para a nossa família, assim como conseguimos tudo na nossa vida.”, comenta Maria. “Chegamos aqui cheios de dívidas. Não tínhamos mais horizontes na Galícia, a situação financeira estava difícil e precisávamos de dinheiro emprestado para sair de lá para vir para o Brasil. Nossa família nos emprestou dinheiro e, graças a Deus e ao nosso suor, conseguimos pagar o que devíamos. Eu não gosto de dívidas e sempre fui uma pessoa honesta.”, complementa.

Em 1991 Maria se aposentou ao completar sessenta anos de idade. A galega continuou ajudando seu marido na mercearia, que se aposentou três anos mais tarde, quando fecharam o comércio de vez.  Neste mesmo ano, 1994, nasceu a primeira neta do casal de espanhóis: Gabriela. Filha de Juan Antonio, a garota foi fruto de uma gravidez acidental. Juan, na época tinha 22 anos, e sua namorada Patrícia, 20. Ambos estudavam e não pretendiam ter um bebê tão cedo, o que fez com que o casal e a filha tivessem de morar com Maria e seu marido Juan, uma vez que não tinham condições financeiras suficientes para se tornarem independentes. “Foi uma surpresa para mim ter uma filha. Isso mudou os meus planos, e embora tenha sido mais difícil, eu consegui dar orgulho para os meus pais. Devo muito a eles.”, diz Juan Antonio. “Sou feliz pela família que tenho e pela família que construí. As dificuldades e conquistas do meu pai, sobretudo da minha mãe – que em um mundo machista sofreu mais por ser mulher- me inspiraram e me inspiram todos os dias. Sou grato por tudo e o levo como inspiração de garra e superação.”, complementa. Mercedes, a filha mais velha acrescenta: “Imagina só a dificuldade que deve ser chegar a um país, não saber falar seu idioma corretamente, ter pouco ou quase nenhum dinheiro e bens materiais e estar longe da sua família. Não deve ter sido fácil, e é por isso que a admiração pela minha mãe é gigante e motivadora!”.

No final de 1994 Mercedes deu a luz a Fernanda, segunda neta de Maria. Em 1995 chegou Carolina, e em 1997 João Augusto, filhos de Marta. Atualmente Maria mora com seu marido e diz ser a pessoa mais feliz do mundo: “Se eu sou feliz? Eu sou a pessoa mais feliz do mundo. Passei por poucas e boas, mas estou aqui. Consegui dar estudo para todos os meus filhos, ensinei-lhes bons modos, dei-lhes um bom caráter. Hoje todos são formados, estão bem sucedidos e felizes com sua profissão, e o melhor de tudo: me deram 4 netos maravilhosos, todos estudando em boas escolas e faculdades, todos com muita saúde. Será que eu vou viver pra ver meus bisnetos? (risos)”. Assim Maria termina de contar sua história, mas parece não por fim a vontade de viver e vivenciar aquilo que está por vir.

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