De vendedor de veneno a ecochato

Sentado em uma poltrona feita a partir de garrafas PET, ele ri e exala nostalgia. Dissera que não podia conversar muito comigo, por causa de uma reunião, s[o estaria disponível por “umas horinhas”.

Dentro de sua sala no Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV), Mário Kazuchira Fujii demonstra estar satisfeito, e aparenta viver um momento de calmaria em sua vida. Filhos criados, todos graduados ou graduandos no ensino superior; apartamento na zona sul de São Paulo, com uma esposa e dois cães; algum tempo para aproveitar hobbies particulares, como fotografia e culinária.

Quando falei com ele pela primeira vez, me perguntou por que alguém faria um perfil sobre sua vida. Ele mesmo se autodenominara um “Average Joe”, um José da Silva, que no caso é responsável pelo setor de logística da inpEV. Sua função é garantir que embalagens de agrotóxicos (defensivos agrícolas, para alguns) tenham um descarte adequado, impedindo maiores danos ao meio ambiente e à cadeia produtiva. Todas as vezes que foi procurado por algum jornalista, a intenção era abordar este assunto, contribuindo para matérias de canais e veículos voltados para o agronegócio.

Mas, se todo mundo tem uma história para contar, Mário tem várias. Derrubada a barreira que impedia um contato inicial, ele falou por aproximadamente vinte minutos quando perguntei qual o melhor momento da sua infância. Depois disse sem parar por mais dez minutos quando perguntei o que ele considerava mais importante. E após mais diálogos, descobrimentos, risadas, comoções, percebi que a poltrona feita de PET já ouvia nossa conversa há pelo menos duas horas e meia.

A secretária entrou na sala, perguntando se ele estava pronto para a reunião da tarde. Sempre de bom humor, encerrou a conversa de forma polida. “Olha, acho que ele aqui já pode ir no meu lugar. Deve saber mais da minha vida que eu mesmo.”

 

Graças a Elis

Mesmo gastando algumas horas na conversa com Mário Fujii no escritório, não senti o tempo passar. Posteriormente, pude visitá-lo em sua casa, um apartamento no bairro de classe média-alta da Vila Mascote, em São Paulo (SP). Fui recebido pela esposa dele, Angela. “Aqui em casa é isso, uma disputa para ver quem fala mais. Sempre foi assim, desde os tempos de UENP.”

Os dois se conheceram quando Mário cursava  engenharia agrônoma na Universidade Estadual do Norte do Paraná, no campus localizado na gigante Bandeirantes, onde nasceu e que hoje tem pouco mais de 30 mil habitantes. O estudante de então 22 anos estava no último ano de faculdade quando falou pela primeira vez com sua esposa em um show de Elis Regina, na capital paulista.

“Ele não gosta de falar disso, porque se os filhos resolvesse imitar, acho que ele morria do coração”, comenta a mãe da família. “Mas vou falar mesmo assim. Foi uma maluquice inconsequente, mas que deu no que deu hoje.”

Quando Angela começou a contar a história do “japonês gordinho que vendeu a bicicleta para ir ao show”, Mário abriu a porta e entrou na sala. Logo percebeu qual era a pauta, esbravejou de forma bem humorada e tomou o posto de orador.

“Meus pais tinham me dado uma bicicleta de aniversário, para eu me deslocar pela cidade. Uma semana depois, tinha vendido para juntar dinheiro e ir ao show da Elis com um amigo. Pegamos carona em três caminhões até chegar na cidade, com apenas uma troca de roupa e o endereço de um parente dele. No fim, conseguimos ir ao show, e foi lá que encontrei esse ‘trem’ aí.”

Antes do show conversar, eles trocaram olhares, fósforos, conversas e por fim, abraços. Se encontraram novamente em outra ocasião, e após quatro dias se vendo, Mário voltou a Bandeirantes, prometendo fazer a mesma loucura para visitá-la em São Paulo.

Foi e não voltou mais.

“Três meses depois, fui encontrá-la. Mal sabia que ela morava em uma pensão com freiras, e que saía pouco do ‘internato’. Mas que fugia muito.” Sempre rindo, Mário ofereceu o primeiro dos muitos petiscos da noite, e pude descobrir mais sobre aquela fase da sua vida. Cabelo black power, roupas alternativas, estilo bicho grilo pictorizado em um japonês meio gordo, meio baixo, sempre simpático.

 

Cuidado, produto tóxico

No primeiro encontro que tive com Mário, no escritório, ele me contou como chegou àquele estranho posto, um especialista na logística reversa, no descarte de embalagens. Depois de ter trabalhado em multinacionais como Shell, Cyanamid e BASF, ele se especializara no destino ecologicamente correto de embalagens vazias. Naquelas empresas, sempre atuou na área de defensivos agrícolas.

“Sempre me importei com natureza e meio ambiente. Já trabalhei muito com fungicidas, herbicidas, mas hoje só cuido do outro lado dessa cadeia. É uma mudança bem radical. Continuo relacionado aos agrotóxicos, mas participo de forma diferente.”

Hoje, o casal Fujii possui três filhos: Cauê, de 21 anos; Daiune, de 25; e Caioá, de 29. Certa vez, quando o primogênito tinha por volta dos seis anos, perguntou ao pai exatamente o que fazia, para registrar em um trabalho escolar. Mesmo com explicações e exemplos, o garoto mostrou-se convencido com um fragmento disso tudo, um pedaço da resposta de Mário. “Vendedor de veneno. Ele escreveu isso na tarefa, e no mesmo dia a escola ligou, falando para instruir melhor. Eu ri, fazer o quê. Um dia ele ia entender.”

Entendendo ou não, Mário mudou radicalmente de rumo. Após largar a BASF, se uniu a uns amigos e começou a fazer palestras, falando justamente sobre os riscos dos defensivos agrícolas. Em uma dessas ocasiões, surgiu o convite para participar do Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias, o inpEV.

Uns 20 anos após aquela pergunta, Mário revela que nem todos entendem bem o que ele faz. “Meu sobrinho me perguntou esses dias o que eu fazia. Já achava difícil explicar o que era agrotóxico para uma criança, imagina logística reversa? No começo ele achou que eu era lixeiro. Depois o pai dele (irmão de Mário) me definiu como ecochato, e isso, para variar, pegou.”

 

Missão Espiritual

Sustentabilidade a parte, Mário ainda dedica grande parte do seu tempo a uma atividade pouco difundida entre os filhos: ele e Angela são colaboradores de uma paróquia na Vila Mascote, mais especificamente de uma igreja localizada na Rua Palestina.

Todos os sábados e domingos, eles chegam na capela por volta das seis da tarde, arrumam o altar, organizam os folhetos e todos os instrumentos que serão utilizados durante a missa das sete horas. Nesta, servem como ministros paroquiais, ajudando o padre na homilia, leitura, cantoria ou qualquer ponto que precisar de uma força. Ajudar nunca foi uma dificuldade para Mário, segundo o padre Antonio Neli. “Estão sempre dispostos, tanto ele como a Angela nos ajudam a organizar a vida. Inclusive, são eles que estão cuidando da ida dos jovens de nossa comunidade para a JMJ (Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro).”

Se nas missas cuida de tudo, nas quermesses fica na barraca de pastel. Mário conta todas as piadinhas que tem que ouvir semanalmente. “A maioria só diz: ‘aí japa, vai ter pastel hoje ou só hóstia mesmo? Acho quase desrespeitoso, mas acabo levando na brincadeira.” Os mais chegados se aproveitam do passado como vendedor de veneno. “Ano passado ouvi muito ‘o meu pastel é orgânico ok? Sem agrotóxico no meu tomate, por favor.’ A galera não perde uma oportunidade (risos).”

O próprio padre admite entrar na descontração e interagir de forma bem humorada com Mário. “O pastel nem é tão bom, mas ter o japonês vendendo ficou marca registrada. Nos anos que a esposa ou a sogra dele são responsáveis pelo pastel, acho que fica mais gostoso. A função dele mesmo é ficar ali no balcão, é o nosso marketing ambulante.”

 

A chegada do alemão

Hoje com 52 anos, Mário sente os efeitos do tempo. Pelo menos, começa a admitir. Pegar caronas em caminhões, além de imprudente, seria impossível, devido às constantes crises no nervo ciático, que pedem injeções regulares de corticóide nas costas. Além disso, em todos os ambientes com que estive com o engenheiro agrônomo, frases como “Ôôô… Como chama mesmo? Aquele negócio, daquela viagem, que a gente foi com… Com aqueles… Aqueles dois lá…” eram muito comuns.

No meu último encontro com Mário, após uma das missas, senti liberdade para perguntar a respeito, saber se ele se considerava esquecido. Ele sabia exatamente o porquê estava perguntando isto e a quê estava me referindo.

“Você sabe por que eu ando meio esquecido?”

“Não, por que?”

“Culpa do alemão.”

Pensei alguns segundos, logo veio a explicação.

“Esse tal de Alzheimer. Já está batendo na porta, logo menos entra de vez”, disse, apontando para a cabeça.

A esposa então deu um tapa forte no seu ombro, e replicou.

“Mas como fala besteira. Ele não tem nada disso, tá é ficando velho.”

Dei risada.

Mário hoje cursa MBA em Gestão Ambiental na Fundação Getúlio Vargas, e está se especializando cada vez mais em sustentabilidade e logística reversa. O Zé Ninguém, Average Joe, se mostra hoje como um dos grandes nomes nesta área no Brasil, dando palestras mensalmente, aulas magna, apresentações on-line e também pequenas lições a sobrinhos para convencê-los de que ele não é um ecochato.

Também no último encontro, fiz despretensiosamente as mesmas perguntas iniciais do primeiro encontro. Qual o momento mais importante da sua infância e o que ele considerava mais importante. As respostas foram muito diferentes e muito parecidas, ao mesmo tempo, daquilo que ouvi no nosso primeiro encontro. Acredito que o que mudou foi minha percepção.

“Da minha infância, sem dúvida foi a época de Bandeirantes, da época que se era louco o suficiente para correr atrás de uma freira em um show na capital. O mais importante você já sabe, imagino. Se não souber, me liga e a gente marca uma pizzada em casa.”

 

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