“É dos carrascos que a gente não se esquece jamais”

A figura

Izildinha Aparecida Carlini Carter, 56 anos, já se destaca pelo nome. “Izildinha não é apelido, não. É meu nome mesmo. Quem escolheu foi meu irmão por causa da Santa Izildinha. Eu detesto. Até hoje pergunto pra ele: pô, não podia ter escolhido um nome melhorzinho, não?”, diverte-se.

Izildinha foi criada em São Paulo, no tradicional bairro da Mooca. Dos pais, que eram operários em uma fábrica na região, ela garante ter herdado somente uma coisa: o caráter. “Meus pais deram duro a vida toda pra nos criar [ela tem dois irmãos, Marcia e José]. O pouco que eles têm hoje foi conquistado com muito suor. Mas a lição mais importante que vão deixar pra mim e pros meus irmãos é a de andar na linha, de ser correto em tudo o que você for fazer nessa vida,” frisa.

O reencontro

Nosso reencontro se deu no mesmo lugar em que nos conhecemos há sete anos: o colégio onde passei catorze anos de minha vida. São 06h50min. Faltam dez minutos para o início das aulas, e por isso o longo corredor de paredes brancas ainda está tomado por alunos do ensino médio que se dividem em pequenos grupos, conversam em voz alta e gargalham. Percebo que o temido banco preto, onde se sentam os alunos expulsos das aulas, ainda permanece no mesmo lugar, ao lado da sala da diretoria.

Caminho na direção da sala dos professores a fim de encontrar a minha perfilada. Sentados, os professores tomam café e falam sobre os problemas com alguns alunos. Explico o intuito da minha visita. “Ela já deve estar chegando. Você sabe que ela não costuma se atrasar, né”, diz Karina, a inspetora.

Débora, professora de inglês que convive com a perfilada há treze anos também emite sua opinião. “A Izildinha é uma figura. Por trás desse jeitão, tem uma pessoa incrível, com o coração do tamanho do mundo, sempre disposta a ajudar. Profissionalmente, não preciso nem dizer. Ela está sempre lendo, se atualizando. Não é como alguns professores de história, que param no tempo”, resume.

Sento-me para aguardá-la. Ouço ecoar no corredor passos acelerados. São 7h10min. “Daqui a uns dias vou ter que sair de casa às 5h pra conseguir chegar aqui às 7h”, reclama a voz fina bastante conhecida aos meus ouvidos.

Ao entrar na sala, percebo que, visualmente, Izildinha mudou pouco desde a última vez que nos vimos, há um ano e meio. A única diferença são os cabelos agora assumidamente grisalhos. “Parei de pintar já faz um tempo. Tenho que assumir que já sou uma senhora, você não acha?”, justifica-se em tom de bom humor. Os olhos grandes e verdes, lábios finos, pele alva e o nariz fino e empinado que apoia os redondos óculos companheiros de duas décadas são heranças dos avós maternos e paternos italianos. “Sou tipicamente europeia: uma branquela azeda. Sofro muito com o sol”. Veste uma blusa de manga comprida azul, calça social bege claro e sapatos de salto alto pretos.

Ela então se dá conta de minha presença.

-Stella! Desculpa o atraso. Tudo bem?

Recebo um caloroso abraço daquela quem eu julgava ser a professora “mais bruxa de todos os tempos” há seis anos.

O susto inicial

Era janeiro de 2007. O assunto “volta às aulas” nunca é agradável a nenhum aluno por si só, mas naquele ano era ainda pior.  A partir dali, teria aula com a professora de história “mais malvada da face da Terra”, segundo a opinião de 10 em cada 11 alunos do colégio. Comentários como esses foram suficientes para deixar com os cabelos em pé todos os alunos da sétima série, inclusive eu.

Eis que chegou o dia de conhecer a tão famosa figura. Aquele foi um dos poucos dias em que todos nós nos sentamos sem ninguém ter que mandar e ficamos esperando em um incômodo silêncio “a bruxa” adentrar a sala.

Ouvimos alguém se aproximando no fim do corredor e foi o suficiente para os olhos começarem a se arregalar. Ao chegar e se deparar com aquela cena, no mínimo, engraçada, Izildinha parou na porta, e com as mãos na cintura e um sorriso irônico no rosto, olhou para cada carinha assustada e disse:

-Ai meu Deus! O que é que andaram falando de mim pra vocês? Que eu sou bruxa?

Não houve sequer um riso tímido. O silêncio persistiu até o momento em que ela se retirou da sala. E assim, ela deu início à primeira de uma série de aulas que eu viria ter ao longo de cinco anos e que me marcaram muito.

De volta ao presente

Enquanto nos dirigimos para a sala de aula, explico detalhadamente o que é um perfil e ela me ouve atentamente.

A primeira aula do dia é para o 9º ano. Ao entrar, é recebida com sorrisos e muitos “bom dia” que são retribuídos. Os alunos estranham a minha presença, mas ela logo explica:

-Essa aqui é a Stella, minha ex-aluna que veio fazer um trabalho pra faculdade. Vamos à luta, filhos da…pátria!

As risadas ecoam pela pequena sala com vinte e três alunos. As paredes, assim como o restante da sala, são brancas, ventiladas por duas janelas ao fundo.

Izildinha se senta e faz a chamada. Ao ler os nomes no diário, os olhos ágeis já percorrem a sala em busca do rosto. Ela conhece cada um como uma mãe conhece cada filho.

-Onde foi que paramos na última aula? Estávamos falando sobre a Revolução Russa se não me falha a memória.

Duas alunas sentadas nas primeiras fileiras concordam com a cabeça. É visível que a maioria dos alunos está sonolenta e para chamar-lhes atenção, ela dá sucessivos tapas na mesa e aumenta o tom de voz, enfatizando, em tom autoritário, cada palavra.

– A Rússia no início do século XX era pior do que o Brasil em termos econômicos. Imaginem só um país onde 80% da economia estava concentrada no campo.

Levanta-se de forma apressada e caminha até chegar à lousa verde. Toma um giz branco na mão e escreve no centro do quadro a palavra “sovietes”.

– Os sovietes – e é daqui que vai surgir o nome União Soviética- eram organizações de trabalhadores lideradas por um senhor já conhecido de vocês chamado Vladmir Lênin, explica.

No intervalo entre as aulas, converso com Eduarda, aluna do primeiro ano do ensino médio sobre o que ela pensa da Izildinha. “Quando comecei a ter aulas com ela, tinha medo sim. Mas logo me acostumei. Por trás desse jeito durão, tem uma mãezona! E ela é uma ótima professora. Traz sempre assuntos atuais pra sala de aula”, elogia.

Acompanho as sete aulas que ela daria naquele dia. O tom enérgico na fala – uma garrafa de dois litros de água é o alívio para a garganta – e a postura autoritária são as mesmas em todas. A expressão de seriedade, perceptível através da testa franzida, se desfaz nos raros momentos de descontração durante os cinquenta minutos em cada sala.

Mas uma coisa é inegável: ela fala sobre revolução russa, francesa, ditadura militar no Brasil com paixão de novata e a naturalidade de quem faz isso há trinta e quatro anos.

A jornada da professora acaba às 13h10min. É hora de ir para casa onde ela dará início a jornada de mãe, esposa e dona de casa.

A outra Izildinha

Seguimos de carro até sua casa, no bairro do Jaguaré, em São Paulo. O trajeto é curto, dura aproximadamente 25 minutos. Mas é tempo suficiente para darmos início a nossa conversa. No percurso, já é possível nota-la mais leve, menos preocupada em manter a pose sisuda.

– Você me disse uma vez que queria ter feito jornalismo né, Izildinha?

– Eu sonhava em ser jornalista. Mas como eu era dura, tinha que trabalhar e o curso era integral, desisti.                                                                                                                                                                                                                          – Por que você escolheu história, então?

– Porque naquela época conhecer muito de história era pré-requisito para ser um jornalista de bom nível. Economia também era importante, mas como eu não manjava nada de números…

– E como era o clima na FFLCH em plena época de ditadura militar?

– Não era tão diferente de hoje. Quando eu entrei, em 1975, havia muitos contestadores do regime. A postura “correta” era se apresentar como alguém consciente e politizado.

– E você se engajou politicamente?

– Eu gostava da leitura do Trotsky e acabei por aderir suas ideias. Mas nunca fui muito de militar ou fazer parte de algum grupo. Achava todos os discursos acalorados e medíocres.

– Mas você chegou a participar de manifestações contra a ditadura?

– Participei de muitas. Era bem diferente de hoje porque não existia o preceito da baderna. Era importante demonstrar seriedade na atitude. Mas nunca apanhei de polícia, porque era ágil.

– Então você nunca foi presa?

-Fui detida uma noite em setembro de 1977. Eu e uns amigos fomos em uma reunião na PUC pra festejar o sucesso da UNE, que tinha acabado de se rearticular. Tinha gente de todas as faculdades, estava ótimo. De repente vi a polícia indo com tudo pra cima do pessoal. Saí correndo e entrei em uma sala onde estava tendo aula. Os policias entraram e gritaram: “quem é aluno fica, quem não for, levanta e corre, porque o pau vai comer”. O professor tentou argumentar e levou a primeira bordoada.  Foi o maior corre-corre. Eu me escondi com uma amiga dentro do banheiro. De repente, escutei ela gritar porque um PM tava pegando ela pelos cabelos. Abri a porta, empurrei o cara e saímos correndo. Não adiantou nada porque fomos pegas. Passamos a noite no batalhão da Rota, mas lá foi tranquilo. A OAB havia sido acionada por moradores vizinhos que denunciaram as prisões. Bom, entrou lá uma advogada representante da ordem e adivinhe quem mais: minha mãe, que agarrou o coronel pela farda e disse que se não deixasse ela me ver mataria ele. Mais tarde o Erasmo Dias, secretário de segurança, entrou na quadra onde estávamos e saiu 1 minuto depois, pois recebeu tanto sapato na cabeça que formou um monte de uns 2 metros. Não é exagero não, tem fotos disso nos jornais do período. Fui fichada, mas não deu em nada. Foi uma curtição, mas não participei de mais nada depois disso.

A decisão de não militar mais não foi por medo de ser presa novamente, e sim por causa da mudança nos ideais. “Eu sai da faculdade em 1979, mas nunca parei de estudar. Cada vez mais me convencia de que o marxismo era a via correta. Até que chegou o momento em que percebi que os livros didáticos estavam se tornando contraditórios. Me lembrei do meu professor de história contemporânea, Arnaldo Contie, que um dia apresentou dois textos que faziam críticas à linha de pensamento marxista. Na época, eu nem li. Resolvi pegar os textos e comecei a estuda-los, buscar referências e comparar as contradições. Peguei o próprio Marx novamente e descobri que, na verdade, ele era um louco pelo poder e não um defensor do operariado. Daí muitos dos meus jornalistas e escritores preferidos começaram a perceber as mesmas coisas que eu. Comecei a ler outros filósofos, estudar com menos euforia revolucionária. E a cada dia me convenço mais de que somos manipulados por ideologias totalitárias travestidas de democracia”, indigna-se.

Chegamos então no sobrado onde ela mora há 30 anos com o marido, Marcio e os filhos Natália de 28 anos e Guilherme de 25. Na garagem, somos recebidas por Zeca e Lilica, dois vira-latas que já estão na família há 10 anos. É acariciando ambos que ela se desarma totalmente. É outra Izildinha.

“Esses dois aqui são os meus filhos mais novos. Dão muito menos trabalho do que os de verdade. Fala sério, existe coisa mais pura no mundo do que esses bichinhos?”, diz maravilhada e abrindo um sorriso.

Na sala, encontramos Natália que se prepara pra ir ao trabalho. Sobre a mãe, ela resume: “É uma pessoa única. Meio implicante às vezes, nunca foi de passar a mão na cabeça quando eu fazia besteira. Mas está sempre do meu lado quando eu preciso tomar decisões importantes”.

O cômodo é lotado de porta-retratos nas paredes e nos móveis. Fotos dos filhos, dos irmãos, dos pais e de seu casamento. Ela e o marido, Marcio, se conheceram em um baile quando ela tinha 18 anos. Começaram a namorar logo em seguida, mas ele foi aprovado na UFSCAR e se mudou. “A gente não tinha grana pra ficar se visitando o tempo todo. Aí o namoro tinha que ser via correio mesmo”, recorda-se.

A conversa informal sobre sua profissão continua enquanto ela se divide entre preparar o almoço e lavar roupas.  Ela diz não ter se conformado só com a profissão inicialmente. “Me achava uma fracassada. Já casada e com uma filha, me descabelava, pois queria fazer outras coisas. Mas um dia percebi que estava no lugar certo e que era muito feliz sendo professora ensinando outros a adquirir visão crítica, raciocinar, sempre comparando e relacionando com a vida como ela se apresenta e não como os filósofos, sociólogos, pedagogos e fazedores de ideologias querem que seja”, argumenta.

Izildinha deu aula na escola pública durante 25 anos tendo se aposentado em 2010. Contrariando a opinião de muitos, ela diz não ver muitas diferenças entre o ensino público e privado. “É lógico que a particular tem mais organização e os alunos te respeitam um pouco mais. Mas tive alunos muito bons na pública, que me fizeram crescer enquanto profissional e ser humano, assim como na particular”, constata.

Sobre a fama de “bruxa”, ela garante não se importar nem um pouco. “Eu só quero que meus alunos aprendam a pensar com o próprio cérebro, que tenham uma visão crítica do mundo. É dos carrascos que a gente não se esquece nunca. Você, por exemplo, se lembrou de mim pra fazer esse trabalho, não é mesmo?”, alegra-se.

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