FERNANDO ALVES: UMA AULA À PARTE

No meu relógio, 19:12. Só me restava acelerar. De metrô, fui da estação Brigadeiro – na Avenida Paulista – para a Santana. Entre uma estação e outra, ansiedade e curiosidade se misturavam com certa preocupação: no rádio, o atraso é inadmissível, será que ele perdoaria o meu? Não que eu fosse apresentar, entrevistar ou entrar no ar. Não se tratava de um compromisso com o rádio, mas com um radialista, o que justificava a minha aflição.

Eram 19:47 quando cheguei na Rua Voluntários da Pátria. O caminho ainda era longo. Experimentei na pele o esforço exigido por uma subida íngreme. O cansaço já era evidente quando às 20:07 cheguei na Unidade Santana do SENAC. Mais três escadarias e enfim eu chegava ao meu destino às 20:09. A aula já havia sido iniciada há 39 minutos. Uma leve batida na porta e um clima de incerteza sobre o que ocorreria. De repente, o abrir da porta é seguido pelo abrir de um sorriso receptivo de Fernando Alves, ou simplesmente Fernandão, seu apelido.

Locutor da Gazeta FM de São Paulo e docente coordenador do Curso de Radialismo daquela unidade, ele estava na sala 32 – estúdio de rádio – preenchida por cerca de 20 alunos distribuídos num “U” em frente às cabines de sonoplastia e locução. Para esta turma, o módulo teórico já havia passado. Era dia de prática de locução. Com seu caderno, Fernando se concentrava ao máximo para anotar as observações mais importantes de cada aluno na realização da atividade.

Basicamente, havia um texto informativo com três notícias de variados temas. A avaliação era feita com base na leitura do texto bem como na capacidade interpretativa destinada a cada conteúdo lido. Entretanto, o desafio se intensificava por haver um tempo exato para que o tudo fosse lido. Então, um de cada vez, os alunos iam à cabine de locução e – sobre a trilha cronometrada – realizavam o exercício. Fernando demonstrava profundo respeito com cada uma das vozes que se propagavam no estúdio.

Os olhos – entre os finos óculos – se fixavam no chão enquanto os ouvidos registravam os detalhes. Ali, sentado, repousava o corpo de pele branca, cabelos pretos e 1,88 m de altura. O rosto alongado se confundia com as longas e velozes mãos que, contra o tempo, disparavam a fazer anotações. Ao término, um feedback preciso com sinceridade desconcertante. Como um maestro, ele abria os braços e iniciava a análise depois do exercício. “Cuidado! Está muito cantado, mais naturalidade”, “Atente para a modulação, é necessário variar mais”, “Repare em seu agudo, ele é muito intenso”, “No seu caso, a respiração precisa ser corrigida, lembre do diafragma”, “Vamos aumentar o ritmo, está muito lento”, “Articule ao máximo, caso contrário vai haver dificuldades para a compreensão”.

E, entre uma crítica e outra, ele tranquilizava a todos: “O começo do módulo prático é mais chato mesmo. A gente tem de se desfazer dos vícios agora. Mexer na zona de conforto de cada um é sempre complicado.” Bruna Moraes, uma de suas alunas, gosta do tom de seriedade com que as aulas dele são dadas “Acho ele muito focado, concentrado. Ele é profissional e exige profissionalismo da gente. Dá pra notar que há todo um planejamento nas aulas, assim como uma meta para a gente alcançar, depende do nosso esforço”.

Isso remete a um dos maiores desafios com que Fernando tem de lidar: a humildade, ou melhor, em alguns casos, a falta dela. “Este ponto não é exclusivo da comunicação, porém a área tem a peculiaridade da constante luta de egos. Ser humilde é, também, ter a possibilidade de se renovar, de considerar outras possibilidades em sua atuação. Pensando no rádio, por exemplo, aquele que deixa de se ouvir ou de acompanhar seu próprio trabalho, tem um fim em si próprio”.

Não é à toa que Fernando dá amplo valor à crítica. “Aqueles que querem se tornar comunicadores, bem como pessoas públicas, têm de estar preparados para lidar com o que se fala a respeito do que apresentam diante dos microfones, câmeras e etc.” Nesse sentido, ele faz questão de colocar todas as suas sugestões sobre a locução de algum aluno na frente de todos os outros, nunca em particular: “Isso não é expor, visto o respeito que tenho por cada um, mas é simular algo normal no dia-a-dia. Vai ser assim no mercado de trabalho e o curso tem a pretensão de simular situações em que o comunicador pode se encontrar. O momento da crítica é crucial”.

E, no caso de Fernando, este momento veio cedo e sem surpresa negativa. Ainda adolescente, estava com um dos maiores comunicadores do país, numa audiência nacional e em frente a uma bancada de jurados rigorosos. Ele participou do “Show de Calouros” com Silvio Santos em 1987, aos 17 anos. “Eu fazia algumas imitações, gostava de brincar com minha voz e fui ao programa junto do meu pai e meu tio. Minhas pernas tremiam, até que depois da minha primeira apresentação, Silvio me tranquilizou. Nos bastidores, ele me disse ‘Rapaz, você é muito bom. Realmente, muito bom’. Aquilo me acalmou para minha segunda apresentação no programa. No final desta última fiz as imitações e passei pelo julgamento da bancada. Todos votaram a meu favor com nota máxima. Estava prestes a receber o troféu “Show de Calouros”, mas Silvio havia esquecido de chamar Décio Piccinini. O resultado? ‘Meu voto é um NÃO só para o Silvio não me esquecer na próxima’. Fazer o quê?(risos)”.

Foi a primeira grande adrenalina vivida na comunicação por Fernando. Mas ele sabia que o humor não era a mais adequada área. “Eu não me achava engraçado. O que eu queria era fazer locução. Por extensão, a voz seria meu instrumento profissional. Passei a olhar com atenção para a arte de locutar”. Mas almejar não basta. Por isso, Fernando treinava e treinava muito, a ponto de isso lhe render fortes amizades.

Exemplo é a que mantém até hoje com Paulo Ramos. Na adolescência, mais do que amigos, eram sonhadores. Quando iam para a Escola Estadual Erasmo Braga, cada passo era pretexto para se conversar sobre rádio, voz e locução. “Lembro que imitávamos os locutores da época. Um prestava a atenção no ‘trabalho’ do outro”. Já em relação ao nível do que apresentavam… “Éramos horríveis (risos)”, confessa Paulo. Nada que o tempo e o treino não melhorassem.

Hoje, são companheiros de vida, de Fundação Cásper Líbero e de SENAC Santana. Paulo é a voz-padrão da TV Gazeta, responsável por narrar todas as propagandas e chamadas pertencentes à emissora e professor do curso de radialismo coordenado por Fernando. “Ele acabou me convidando para trabalhar lá. Quando estou dando aula, tento sempre lembrar da capacidade que o Fernando tem de teorizar a comunicação. Isso me impressiona. Ele é muito inteligente, tem um QI acima da média. Desde cedo foi astuto e rápido no raciocínio. Acho este seu principal diferencial.” Mas Paulo não se esquece de um outro fator capaz de destacá-lo dentro do meio. “Ele simplesmente ajuda. Não ajuda por algo, com alguma intenção ou interesse. Ele analisa o seu esforço, sua humildade e ajuda. É um grande ser humano.”

A paixão de Fernando pela locução começa a se formalizar em 1990, na primeira emissora pela qual passou, a Rádio Cidade de Itu onde comandou um programa romântico das 22 às 24. Por lá, ficou 11 meses. Depois, foi para Campinas trabalhar na rádio Antena 1 e fazer locuções para TV, numa afiliada do SBT. Este período durou dois anos intensos. “Eu sou de São Paulo, minha família também, mas eu ia pra casa a cada 15 dias. O ritmo era frenético, até que eu decidi que tinha de trabalhar na capital. Larguei tudo em Campinas”.

Num casamento entre a esperança e insistência, Fernando bateu de porta em porta nas emissoras de São Paulo, com várias fitas cassetes e gravações de seu trabalho. Foi na Rádio Cidade que conseguiu a sonhada contratação. “Era uma locução corrida, gritada. Fiz um piloto entreguei para o coordenador que gostou do que ouviu.” Mas não foi tão fácil. Semanas depois, Vinícius, com quem tinha conversado, foi demitido e a contratação, colocada em cheque.

Ele teve de aguardar a chegada do novo coordenador, Ênio, e sua decisão final sobre contratá-lo ou não. “De cara ele me perguntou o que eu havia acertado com o Vinícius. Não tive dúvidas e respondi  ‘A primeira coisa que eu acertei foi pedir a conta da rádio em que eu estava, então estou desempregado’. Bobagem! Desempregado eu já estava. Ele confiou em mim e me deu a chance. Meu horário era das 2 às 6 da manhã”.

A sobrecarga de funções, contudo, comprometeu seu caminho na emissora. “Eu era o mais novo da equipe, além do horário que eu fazia, também havia eventos para cobrir, prêmios para entregar. Tudo ficava sob as minhas costas.” A inexperiência e o cansaço o fizeram se precipitar. “Houve um evento importante, eu havia sido escalado e simplesmente não fui. Erro grave. Hoje, sei que foi uma atitude nada profissional. Mas amadureci com aquilo”.

Com a saída conturbada da Rádio Cidade, um mês de descanso. Reflexão e mais experiências. Fernando Alves foi para a Rádio Tropical. Depois para a “Rádio X” no sistema Globo de Rádio. Em 1996, a emissora se transformaria na Rádio CBN, e a locução jornalística seria exigida de Fernando. Neste tempo, porém, também estava na Rádio 99.3, da Record. Ali, Cacá Siqueira lhe dava um conselho “Ele achava que a figura do Locutor Noticiarista estava com os dias contados. Pensei bem nisso, concordei  e fui conversar com o Heródoto Barbeiro, comandante do projeto da rádio CBN. Disse que eu não ficaria”.

É aí que a Gazeta FM entrou na história de Fernando Alves. E entrou para não sair tão cedo: já são 16 anos de emissora – cujo estúdio também serviu de ambiente para as entrevistas. Fernando tem um horário das 14 às 18 horas. A Gazeta opera em 88,1 FM e tem gênero popular, apresentando músicas majoritariamente sertanejas. Entre as músicas, ele abre o microfone, informa o horário, anuncia prêmios, promoções e a participação dos ouvintes e lê alguns factoides. “Eu não me vejo fora daqui. Naturalmente que temos cobranças. Mas tenho um carinho muito grande por todos da equipe  e me sinto a vontade para trabalhar. O ambiente é de muita parceria”. Não só parceria como admiração. Jay Bee, sonoplasta da rádio, aprecia bastante o trabalho e a personalidade de Fernando. “Ele se difere pela competência e pelo esforço. É bom naquilo que faz porque tem disciplina para o que almeja. Mais do que um companheiro de trabalho, um amigo.”

Amigo que Jay Bee ajudou, após ter recebido um convite para dar aula na unidade Penha do SENAC, em 2008. “Eu não podia assumir a turma naquele momento e indiquei o Fernando. Ele começou como professor de lá e hoje, além de lecionar, é docente coordenador do curso da unidade Santana. É mais um exemplo da garra dele. Se ele assumir o desafio, espere o melhor.”

Respirando rádio com a vontade destacada por Jay Bee, de Zé Bétio e Silvio Santos a José Silvério e Éder Luís, sempre analisou tudo o que ouvia. Dessa análise, uma conclusão é certa: “O rádio não morre nunca, jamais. Ele muda tecnicamente, mas na essência não. Rádio é instantaneidade, companheirismo, utilidade pública, imaginação e, ainda mais hoje, é conversa e naturalidade. Não há mais aquela voz impostada e artificial. O rádio se humanizou e nada substitui sua lógica histórica.”

Fernando também tem uma produtora desde 1994, em que aplica sua visão radiofônica na produção de narrações institucionais, videoaulas, entre outros. Como qualquer ser humano, tem sonhos, embora já tenha realizado muitos deles: “Voltar ao interior para comandar um  programa de músicas românticas do passado, agora sem a pressão que tinha quando comecei longe de São Paulo. Ter minha própria escola de radialismo, ou até mesmo uma emissora em que eu poderia aplicar a minha visão de rádio. Enfim, fazer rádio pela paixão, pelo amor ao rádio, como faço há mais de 20 anos, mas com outro foco”.

Fernando também é família. Casado, tem dois filhos aos quais se dedica bastante. Prova disso é a emoção que sente quando ouve um  ‘papai’ de um deles. “É o que mais me agrada”, revela o locutor. Fernando é mais caseiro. Quando tem folga, adora assistir a alguns filmes, jogar videogame, ouvir músicas. E há um detalhe importante: a lasanha, apontada como seu prato predileto.

Nossa! O tempo passou depressa. Já são 22:38, a aula acabou há oito minutos. Os alunos vão embora, Fernando segue na sala 32 onde fechou o raciocínio do dia. Ele ajeita suas coisas, veste uma jaqueta pergunta se esteve tudo bem comigo e se deu certo o trabalho. Não respondi nada. Minha felicidade era tanta que fiz do silêncio a resposta mais positiva.

Ao longo das horas em que pude observá-lo, notei o quanto ele trata os outros como sujeito e não como objeto: a maneira com que atende, olha no olho e considera aqueles que estão ao seu redor. Como pede o manual de uma boa aula, por diversas vezes, Fernando conseguiu quebrar conceitos ou ao menos reconstruí-los. Antes da matéria, eu pensava que um bom comunicador era aquele que tivesse repertório e poder de improviso. Doce ilusão. Conviver um pouco com Fernando é acrescentar a humildade a esta lista. Aula de locução? Não só. Aula de vida, de conduta. E que aula espetacular! Uma aula à parte.

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