Mezzo italiana, mezzo brasileira

“Ciao, bella!”. Essa é a saudação e a despedida que ouvi dela em todas as vezes que nos encontramos. Em italiano, “ciao” significa oi e tchau ao mesmo tempo, e “bella” algo como linda, querida, anjo. Somente através dessa saudação, Antonella Fossati já traz alegria para o ambiente. Ela é uma mulher clara: cabelos muito loiros, olhos azul-cor-do-mar, sobrancelha quase invisível e pele clara.

A típica gringa, Antonella aparenta ser uma turista onde quer que vá. A diferença é que essa “estrangeira” mora no Brasil há 38 anos. Mudou-se aos 17 anos, em 1975, acompanhando o pai que era engenheiro em uma grande empresa e foi convidado a se mudar para o Brasil. “Eu demorei muito para me adaptar. Eu não conhecia a língua portuguesa e os hábitos dos brasileiros são muito diferentes dos italianos, por mais que todo mundo fale que somos parecidos. Somos em alguns quesitos, mas os brasileiros tem um pouco de várias nações e isso complicou minha adaptação. E ainda por cima, eu não conhecia a ditadura!”. O começo da adaptação é relembrado com um tom de nostalgia. Talvez saudade da Itália, talvez saudade da juventude. Antonella diz que a idade em que se mudou foi “crítica”, pois ela já tinha sua turma de amigos, sua família e até “alguns namoradinhos”. Estava a dois anos de ingressar na faculdade na Itália, e então viu sua vida mudar de cabeça para baixo.

Com seu bom humor, Antonella já acaba com o ar nostálgico da conversa e me diz: “Sabe o que foi muito difícil na minha adaptação? Quando me perguntavam: “De onde você é?”, e eu respondia: “Como.”, as pessoas ficavam repetindo: “De onde você é, de onde veio? Qual a sua cidade?”, pensando que eu não tinha entendido a pergunta deles. E eu repetia:”Como. Minha cidade é Como”. E ainda assim eles não entendiam e repetiam a pergunta. Tentavam fazer mímicas para que eu entendesse. Mas eu tinha entendido! Minha cidade se chama Como, essa palavra que em português tem tom de “o quê?”. Depois de algum tempo, quando entendi essa confusão, comecei a falar que sou de Milão, porque Como e Milão são cidades próximas. Acredito que essa situação seria diferente hoje, já que Como é uma cidade muito famosa, pois George Clooney, Brad Pitt e muitos outros famosos têm casas lá hoje em dia. Pena que meu pai vendeu a nossa casa, senão eu poderia ser vizinha do George Clooney. Imagina só?”.

Quando eu pergunto do que mais sente falta na Itália, ela diz que é sua família. Mudou-se para o Brasil com o pai, a mãe e duas irmãs. O resto da família ficou todo na Itália. Sinto que sua voz fraqueja quando fala da saudade que sentiu de suas duas avós quando se mudou. “Era muito próxima às minhas avós, principalmente à materna”. Mais uma vez deixando a tristeza de lado, a italiana diz que sente muita falta de algumas comidas e guloseimas, principalmente de um croissant recheado com creme que não se encontra em lugar nenhum do Brasil.

Fala com muito entusiasmo de seu país. Percebe-se que Antonella é uma italiana apaixonada, ou uma italiana comum, já que esse país é conhecido pela sua paixão e alegria. Demonstra muito seu lado italiano quando vai contar alguma história. Os gestos, as falas e as encenações que usa para contar um pequeno fato te envolvem nele, por menor que seja. Quando foi me contar de seus primeiros anos no Brasil, até se levantou da cadeira que estávamos sentadas em seu apartamento e começou a contar que no início, suas únicas amigas eram suas irmãs. Isso fez com que ficassem muito mais próximas do que eram na Itália. Com um sorriso no rosto, pegou um porta-retrato em que as três irmãs estão juntas em frente ao mar. As três são igualmente loiras e estão com um sorriso muito bonito no rosto. A foto passa uma ideia de alegria, e apresenta Antonella aos seus dezenove anos, muito parecida com o que é hoje aos 55. Os mesmos gestos, a mesma postura, os olhos intensos, o cabelo loiro quase branco. Pouca coisa mudou na aparência de Antonella desde essa época. O mesmo não se pode dizer sobre sua vida.

Aos 20 anos, depois de ter se formado no colegial – em uma escola brasileira -, Antonella decidiu que faria o curso de jornalismo. Passou na PUC-SP e ficou muito animada com a profissão, principalmente porque em seu primeiro ano na faculdade já conseguiu um estágio na Rádio Jovem Pan. Conta rindo: “Claro que nunca me deixavam falar nem uma palavra na rádio, porque se meu sotaque é carregado desse jeito até hoje, imagine como era nos meus primeiros anos no Brasil. Eu ficava muito frustrada, porque outros estagiários podiam falar na rádio às vezes. Eu era conhecida como “a estagiária italiana”.

Trabalhar na rádio fez com que ela se apaixonasse cada vez mais pelo jornalismo, e com entusiasmo, conta que trabalhou em muitas outras áreas, e quando se formou decidiu ser produtora de eventos. Levanta mais uma vez da cadeira e revira uma gaveta cheia de fotos, papéis e notas. Encontra uma foto e me mostra: “Esse é o cantor Leonardo, que eu produzi por muito tempo. Ele me deu o Léo, meu cachorro Weimaraner que fica na minha casa em Ubatuba”.

Hoje, depois de muito trabalhar, Antonella diz estar cansada dessa vida de produtora. Disse que gostou muito do que fez enquanto fez, mas que agora se cansou. “Eu agora me dedico às minhas paixões: meu cachorros, o italiano e meu filho”. Aos cachorros, ela se dedica de coração: tem três em casa, e pega quantos aparecerem na sua frente. Se empolga contando atos heróicos dos cachorros, como quando tinha Ana, uma cachorrinha que a acompanhava por todos os lugares. Até no banco, onde nenhum cachorro podia entrar, ela entrava. Gosta de contar também que encontrou um cachorrinho na rua e ao divulgar no Facebook, encontrou a dona do cachorro. É esse tipo de coisa que faz Antonella vibrar, e também é isso que faz com que ela seja uma pessoa tão especial e de sentimentos tão bons.

Dar aula de italiano é a maneira que encontra para se conectar com seu país natal. “Eu procuro sempre estar atualizada com tudo o que se refere a minha terra natal: leio muito, compro filmes, CD’s, e dou aulas de italiano”. Assim, Antonella passa a tarde inteira dando aulas em uma escola de italiano, e a noite, dá aulas particulares – que às vezes vão até onze horas da noite. Em suas aulas, ela conta um pouco sobre a cultura da Itália, não é só sobre gramática e conversação. “Aqui no Brasil, vocês batem na madeira quando dizem alguma coisa ruim. Na Itália a gente levanta o dedo indicador e o mindinho e fazemos um movimento para cima e para baixo para isolar a coisa ruim que dissemos”, conta para seus alunos – jovens de aproximadamente 20 anos – em uma sala de aula, enquanto faz o gesto. “Outra coisa é que se vocês perguntarem para um italiano: “Come stai?” (Como está? , em português), você nunca vai ouvir a resposta: “bene” (bem). Sempre vai ouvir: “cosi, cosi” (mais ou menos) ou “male” (mal). Os italianos estão sempre reclamando e não tem nenhum problema. Aqui no Brasil, todo mundo fala “tudo bem, tudo ótimo”, mesmo que tenham infinitos problemas”.

É por isso que diz ficar no Brasil. “Amo a natureza, o mix de culturas, a riqueza da arte, do povo, sua solidariedade, sua musicalidade, espontaneidade, do sorriso e o famoso “tudo bem? tudo bem!!!!”. Morrem de fome mas estão sempre sorrindo. A fé e a esperança nas pessoas é algo impressionante”. Antonella se considera “mezzo” brasileira, “mezzo” italiana. Quando perguntei se voltaria para a Itália, disse que não, pois seu filho nasceu aqui e seu pai, que já é um senhor que idade, não aguentaria uma mudança desse tipo novamente. Diz também que visita a Itália uma vez por ano ou mais. E ressalta: “Meu filho é brasileiro. O lugar dele é aqui. Então, o meu também é”, diz a italiana.

Gian Lucca, filho de Antonella é o seu maior orgulho. “ele fala italiano, português e inglês fluentemente. Fala também um pouco de espanhol e francês. As crianças que nascem com duas línguas tem muita facilidade em aprender outras. E como lá em casa só falamos italiano, o Gian aprendeu naturalmente. Ele é um menino muito inteligente. Entrou na faculdade de engenharia, mas não tem nada a ver com isso. Eu sabia, mas deixei ele perceber sozinho. Saiu no segundo ano, e agora quer prestar publicidade e propaganda. Isso sim tem a ver com ele. Agora ele e minha irmã tomam conta do negócio da produção de eventos, e com certeza ele terá muito sucesso como publicitário”, diz a mãe coruja.

Antonella, o filho, a irmã mais nova e o pai dividem o mesmo apartamento desde os primeiros dias de Brasil. São uma família tipicamente italiana, muito unidos. O apartamento é repleto de fotos. Fotos com a família inteira na Itália, a família inteira no Brasil, na maior parte em Ubatuba, onde a família tem uma casa. “Eu amo a praia, ela me tranquiliza. Quando estou nervosa, dou um pulinho na praia e já relaxo. Pode ser só um pouquinho de tempo, mas já me deixa feliz”.

É com seu amor aos cachorros, aos familiares, aos alunos e, principalmente, à vida, que Antonella, a italiana mais brasileira que existe, traz alegria a todos que convivem com ela. Pergunto novamente se ela voltaria à Itália. Dessa vez, a resposta é um pouco diferente: “Ultimamente, andei pensando sobre isso. Principalmente quando penso na velhice. O frio na Itália me espanta, mas a violência me espanta ainda mais. Outra coisa que me preocupa é a saúde, pois se você não tiver um bom plano de saúde aqui está perdido, porque os postos de saúde municipal e estadual são trágicos. Pense bem: uma pessoa trabalha uma vida toda, paga fortunas a um plano de saúde. Quando é velho, não está mais produzindo e vive do que poupou (se conseguiu), precisa pagar uma fortuna em plano de saúde. Acho isso errado. Isso me assusta e dá medo. Pelo menos lá a parte da saúde funciona muito bem e é totalmente gratuita. Lá me sentiria mais amparada. Mas como já tinha te dito antes, amo muito minha família, e não teria coragem de deixá-los aqui. Portanto, continuo aqui tranquilamente, indo e voltando, como sempre faço”.

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