Muito mais que Vera Gata

Atriz Vera Zimmermann faz o que gosta e é exemplo de dedicação e coragem

“Quem pensa que teatro dá estabilidade financeira, se engana. Eu ralo, e muito!” Com declarações como essa que a atriz, tia, irmã e filha Vera Zimmermann demonstra como que nada é fácil. Talvez pudesse ser um pouco mais para ela, depois que Caetano Veloso fez uma música em sua homenagem – e acabou ficando conhecida no Brasil inteiro. Sua aproximação com as artes sempre foi grande. Não a toa, era do “grupo” de Caetano nos anos 80, na Bahia. Sua “amizade colorida” com o cantor, como ela mesma diz, era algo normal na época – mas não uma música em sua homenagem. Depois disso, foi um estrondo de jornalistas e diretores querendo conhecer essa “Vera Gata”.

Com sua personalidade forte, nunca cansou de batalhar para fazer o que mais gosta: atuar. Hoje, os mais de 40 trabalhos realizados no cinema, TV e teatro demonstram uma grande maturidade da atriz. Na pele de Simone, na novela da Rede Globo Amor à Vida, Vera demonstra que não importa o qual “grau” de importância da sua personagem. Ela é uma das primeiras a chegar ao set e não deixa passar uma expressão “que não encaixou”. Sua fama de perfeccionista é dada pelo fato de que, na cabeça dela, não existem dúvidas. A gaúcha transmite um ar, diferentemente de muitos atores, descolado e sem precaução – se é que é necessário. E esse jeito vem desde jovem. Vera costumava a pegar carona para viajar, com um violão debaixo do braço e de não seguir regras em sua adolescência.

Mesmo com quase 50 anos, Vera se vê mais sensual que antes – primeira fama dela, ao ser a musa inspiradora de Caetano Veloso. Porém, não segue nenhum estilo determinado. A sua vaidade sempre foi tremenda. A cada arrumada no cabelo, a certeza de que falta algo a mais – mas não é o que dizem as revistas. Ela, que tem horror à determinismos, odeia a rotina, mas não larga mão de um belo café da manhã acompanhado pela sua ginástica matinal. Para Vera, chegar à velhice bem consigo mesma é um desejo, que irá torna-se realidade. “Dia após dia”, esclarece. Não por menos, na saída de casa, o olhar confiante para os santos católicos e budistas para que ele lhes dê energia para mais um dia de ensaio ou gravação.

Mora sozinha e vive na ponte Rio-São Paulo, dividida entre família, trabalho e amigos, para ela, muito importantes. Já tentou morar acompanhada, mas, segundo ela, seu jeito mandão não agrada todo mundo. Porém, contradizendo essa característica que ela própria se dá, o seu irmão, Renato Zimmermann, sempre achou sua irmã mais nova uma pessoa simples e delicada. Seja nos almoços de família ou em festas, a animação com ela é certeira. Uma das razões para o seu alto astral, é exatamente pelo fato de morar sozinha e, assim, poder “esvaziar a cabeça e abrir para coisas novas”.

O passo mais importante é sempre o primeiro. Logo depois da “explosão” como personalidade, foi logo chamada para fazer o que mais gostava: atuar. Antunes Filho, o diretor. Nelson Rodrigues: O Eterno Retorno, a peça. Depois disso, sua agenda continuou regada de Nelson Rodrigues e ainda peças como Saltimbancos. A sua última atuação nos palcos, em O Terraço, não prejudicou suas gravações de Amor à Vida – mas deixou sua agenda mais lotada que nunca, que não é novidade para ela, que se desdobra em várias “Veras” para conseguir realizar tudo com a dedicação necessária. Seja para recepcionar a sobrinha no aeroporto voltando de viagem ou para comparecer a um lançamento, não abre mão de nada que considere importante. Não por menos, Caetano escreveu “Puro carinho e precisão/ Eficiência, técnica e paixão”.

Sua ambiguidade em gostos musicais e até em seus papeis não espelha em sua vida. Caetano, Maria Rita “e um pouco de Rock” fazem a cabeça um lugar espetacular para Vera. Tanto para ler seus livros, entre eles de vários filósofos e contos, quanto para um bate-papo descontraído. Esse, que não costuma acontecer em sua casa, por livre e espontânea “má relação com a cozinha”. Cada pessoa que entra em sua residência, seja no Rio ou em São Paulo, ambos em bairros nobres, é recebida por bolachinhas e chás. “Acho que toda pessoa que vai receber alguém, precisa dar algo para comer. Alias, essa é uma coisa que eu adoro fazer”, diz.

Simone, a sua atual personagem na televisão, é cercada de perguntas e dúvidas. E foi assim em sua vida também, quando divulgou para a imprensa que já tinha realizado um aborto. “As pessoas fazem muito alarde. Quando fiz, eu não tinha muita consciência do que estava fazendo e até botei a minha vida em risco”, lembra. Consciência essa, que ela não abre mão. Ao ver amigos terem crises de meia idade e até de opinião, é decisiva: “As crises dos que têm 50 anos acho leviano. A pessoa tem que acreditar nela mesmo. Se achar sensual, mas sem querer ser. Tudo natural.” E seus olhos azuis não mentem – ela, realmente, gosta de si mesma.

Nos seus altos 1,60 m de altura, Vera desbanca muitas musas inspiradoras. Por não desistir dos seus sonhos, peregrinou os quatro cantos do Brasil em procura de uma certeza: a de que sua vida seria do jeito que ela queria. Nos palcos e nas telinhas (e telonas), último desejo que veio naturalmente. “Mas teatro é a minha paixão. Mas quando gostamos de uma coisa, não podemos também pensar em expandir os horizontes, não é?”.

O jeito desprentecioso é sua marca. Chega de surpresa na casa dos seus familiares constantemente, ou avisa alguns minutos antes. Viver a flor da pele, é a sua marca – desde sempre. O aqui e agora, é o que vale. Tanto que aceitou posar nua duas vezes para a revista Playboy, em 1985 e 1991. Primeiro como Vera Gata e, depois, eternizada pela Divida Magda – sua personagem na novela Meu Bem, Meu Mal, que conquistou o Brasil ainda mais, além de ser lembrada sempre. “Foi uma personagem forte, com muita carga emocional. Adoro personagens assim.” Mostrar seu corpo não foi tão difícil, já que estava acostumada, desde adolescente, a dar a “cara à tapa”.

Engana-se quem pensa que todo esse reconhecimento subiu à cabeça de Vera. Fato foi que, quando Caetano mostrou sua música, ele até pensou que ela não tinha gostado. “Na verdade, não sabia como reagir.” Mas nada que atrapalhou a amizade (que muitas vezes foi colorida) com o cantor. Com as atrizes, Vera admite que não costuma ser “falsa”. As mais queridas estão sempre presentes, como a atriz Vera Holtz, que sempre esteve apoaiando-a.

E é com esse brilho, seja do cabelo loiro ou dos seus olhos azuis, herdados de seu pai alemão, e presença em todos os seus irmãos, que Vera Zimmermann conquistou o público. Não divulgando a sua vida privada, que, para ela, é algo essencial – não por acaso ela tem um retiro entre São Paulo e Rio de Janeiro. Seja Caetano Veloso, ou seu irmão Renato, Vera consegue transpor a sua alegria, mesmo em momentos mais tensos. Ela chega já falando sobre suas últimas novidades, tornando-se o centro das atenções aonde quer que esteja. “Mas ainda preciso aprender a cozinhar”, lembra. Fica tranquila, Vera, a sua receptividade com o carisma e as bolachinhas já está bom demais.

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