O homem por trás dos discos

Luiz Calanca, dono de uma das lojas de discos mais tradicionais do país construiu um acervo que resiste ao tempo

Uma quantidade de discos aparentemente incontável compõe a loja Baratos Afins, uma das mais tradicionais lojas de vinis e CDs do país, situada na meca da música, a Galeria do Rock, em São Paulo. Porém, o que faz do estabelecimento um lugar curioso é o seu dono, Luiz Calanca. No auge dos seus 60 anos e apaixonado por música desde sua infância, ele é o tipo de pessoa que parece se deixar levar pelas surpresas da vida.

Em uma terça-feira de maio, Calanca volta de seu almoço depois de conceder uma entrevista a um grupo escolar que o havia procurado pela manhã. Com uma camiseta da banda The Beatles e um tênis All-Star, ele entra meio ofegante na loja sob os olhares curiosos de sua esposa, Victoria Calanca, de sua filha Carolina e de um de seus fornecedores que o aguardava ansiosamente para resolver assuntos profissionais.

Engajado com os shows que iriam acontecer no palco que seria montado no Anhangabaú no sábado seguinte e com a organização da nova edição da Virada Cultural, o dono da Baratos Afins encontrou mais um motivo para ir de um lado para o outro. O desejo de estar em todos os lugares ao mesmo tempo lhe rendeu o apelido de “pau de enxurrada”, pois, segundo sua esposa, ele está sempre “escorregando pelos lugares” em um piscar de olhos.

O que ele não sabia era que meia hora antes, sua esposa e sua filha conversavam com os funcionários da loja e com o fornecedor sobre o seu paradeiro. Calanca não usa celular porque não gosta, conta Victoria, e desse modo, achá-lo em suas andanças pelo centro da cidade é uma difícil missão. Entre reclamações, risos e suposições de todos na loja, Carolina Calanca, filha de Luiz, diz, “Até parece que vocês não conhecem o meu pai!”.

Seus horários de almoço costumam durar de uma a duas horas e quem trabalha na loja nunca consegue imaginar onde ele possa estar. Sem acalmar a curiosidade geral, Calanca chega sem responder perguntas e não diz por onde andou. Segundo Victoria, ele aproveita essa pausa em seu dia para passear pela região e resolver assuntos geralmente ligados à música.

Durante a montagem do Palco Anhangabaú, Calanca andava pelo centro. Falando com o máximo de pessoas possível ele conseguiu colocar três bandas de seu selo na programação do evento. Diante do fato de que alguns artistas com cachê de 150 mil reais participariam do line – up, Calanca diz querer ver bandas desconhecidas, desejo comum aos seus clientes da loja na Galeria do Rock.

Uma trajetória pouco planejada

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O simpático senhor por trás do balcão da Baratos Afins fala gírias e palavrões, parece estar sempre desencanado e com isso, faz todos se sentirem “de casa”. Em um dia comum, as pessoas entram na loja e geralmente são recebidas com brincadeiras e saudações animadas de Luiz Calanca, sempre acompanhado por sua filha e esposa, que o ajudam no comando da tradicional loja de discos. O lema da loja é “A pioneira dos independentes” e o seu dono gosta de classificá-la como um estabelecimento que vende música alternativa. E quanto mais diferente, melhor.

Calanca resolveu abandonar a profissão de farmacêutico em 1978, quando a sua filha Carolina nasceu, para abrir a Baratos Afins como uma tentativa de ampliar a sua renda, dando vazão a uma antiga mania: colecionar discos. Em seu acervo pessoal havia aproximadamente 4000 discos de vinil, conquistados por meio de trocas com amigos e de muitas pesquisas pelas lojas da época. A Rua 24 de maio, onde se situa o Edifício Grandes Galerias, conhecido como Galeria do Rock, era conhecida na década de 80 como a “boca dos discos”. Porém, os aluguéis na região eram caros. “A gente tava na Galeria no 2º andar porque era tudo que a gente poderia ter naquele momento. Na rua tudo era muito caro e a galeria tava abandonada, muitas lojas vazias” explica Calanca.

Com o aumento do número de lojas de discos, a famosa Galeria logo passou a ser conhecida como um dos redutos do cenário musical paulistano. Foi quando a concorrência aumentou, algo com o qual ele diz não ter se incomodado. “Começou a virar um point de música. Em 1981 veio o selo, fiz o primeiro disco do Arnaldo Batista e por uns três anos era só a gente. Logo outras lojas começaram a produzir selos e aqui chegou a ter 23 selos de música, criando etiquetas alternativas. Virou uma moda criar discos independentes” lembra.

O selo da Baratos Afins veio em 1981, quando Calanca produziu meio que por acaso o primeiro disco de Arnaldo Batista, responsável por lançar o artista no cenário musical. Se hoje qualquer pessoa dotada de certo capital financeiro pode fazer um disco, na época em que o selo dava seus primeiros passos era necessário criar um CNPJ exclusivo e submetê-lo à censura federal. Porém, as dificuldades impostas pelo governo não conseguiram frear o potencial criador dos novos produtores. “Fui para cima. Superei todas as dificuldades, necessidades e obrigatoriedades da época para fazer o disco. Depois disso não tinha razão para parar. Então nós continuamos, fomos quebrando a cara em umas situações, acertando em outras e deu no que deu depois de 35 anos” conta o seu criador, com certo orgulho.

Mesmo com tantas mudanças em sua vida, o dono da Baratos Afins, sempre envolvido em algum projeto, deixa tudo correr solto e, sem desperdiçar oportunidades, enfrenta os obstáculos que possam surgir. Ele diz ser uma pessoa que planeja pouco. “Nunca tive idéia de nada. Acho que se tivesse, nada teria acontecido. Foi tudo muito natural”. E é com essa mentalidade que Luiz Calanca comanda os seus negócios.

Apostas musicais

A Baratos Afins foi uma das primeiras lojas a compor a Galeria do Rock e sobrevive até hoje, apesar das transformações do local. Na década de 80 o lugar era um ponto de encontro de roqueiros interessados em trocar idéias sobre música e discos, como não poderia deixar de ser. Alguns desavisados chamavam a polícia, pois pensavam que os frequentadores do local eram bandidos. Era a Era de Ouro do rock nacional, quando bandas como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Ultraje a Rigor faziam sucesso nas paradas. Hoje, as lojas de discos da Galeria deram lugar a lojas de roupas, de skate e de tatuagem. A Baratos Afins, porém, continua firme sob o comando de Calanca.

O acervo da loja é de quase 65 mil títulos de vinil cadastrados e cerca de 40 mil ainda não catalogados. Calanca acredita que eles nunca conseguirão cadastrar todos os discos. Mas não é só de vinil que vive o dono da Baratos Afins. Quando a moda dos CDs invadiu o mercado eles chegaram a abocanhar 70% do faturamento da loja, algo que se inverteu novamente com a volta do desejo pelos discos, hoje considerados objetos “vintage”.

Em meados da década de 90, Calanca era contra os CDs, e como não poderia deixar de dar a sua opinião abriu uma discussão no meio musical, que gerou muitas críticas em relação a ele. “Quando o CD surgiu todo mundo quis colocar uma pedra em cima do vinil e eu fui uma voz que pregou evangelho contra o CD, porque tinha um império de discos e de repente alguém disse que aquilo não valia mais nada e que a moda era essa bolachinha plástica” resume.

Ele diz ter perdido muitos amigos e clientes, que viam a sua aversão aos novos compactos como uma teimosia. Porém, depois de muito criticar a nova aposta do mercado, o dono da Baratos Afins viu nela uma oportunidade de crescimento e assim, resolveu redirecionar os seus investimentos, pois poderia trocá-los por mais discos de vinil. Foi a maior guinada econômica de sua vida. A quantidade de discos adquirida por meio de trocas fez com que comprasse dois depósitos na Galeria para abrigá-los.

Em certo momento, os discos se espalharam também pelo seu apartamento. A solução encontrada foi comprar um imóvel no andar de baixo. “A gente teve dois quartos como depósito e entupiu de discos. Eu precisava mudar porque a minha mulher me deu um ultimato, a gente estava dormindo em cima de discos. A nossa cama era cheia de vinil em baixo e ele tem uma estática que absorve muito pó” conta.

Nadando contra a corrente só para exercitar

Se tem algo que Luiz Calanca não sabe fazer é ficar calado. Mal entra na loja e já começa a discutir com Carolina, sua filha. Mas logo depois tudo volta ao normal. Falante e sempre com uma resposta na ponta da língua, ele cria pérolas raras sobre o mundo atual. Para ele, o Brasil é o país onde as bandas têm apenas uma música conhecida, afinal, a maioria das pessoas não se interessa em ter o álbum completo, mas em baixar os hits na internet. “Muitas pessoas baixam essas músicas e acham que estão com a coleção completa do artista e é isso aí. Mas é uma questão de cultura, acabou aquela coisa de a gente ouvir música em coletivo, sabe?”

Na sua juventude, Calanca se reunia com amigos para compartilhar discos e ouvi-los na companhia de uma garrafa de vinho ou de cerveja. Em época de festivais esses momentos de troca de ideias eram mais frequentes. “A gente conversava, debatia sobre música. Hoje acabou, cada um tá no seu mundinho, na rodinha aqui, um tá ouvindo Punk, outro o Bonde do Rolê, outro Jazz e pronto, cada um na sua cápsula” critica.

Mesmo assim, ele não rejeita a internet e, apesar de se irritar com a quantidade de e-mails que recebe diariamente, utiliza redes sociais como Facebook para manter um diálogo com seus amigos e diz acreditar na web como uma ferramenta que poderia ser usada de maneira inteligente. Porém, diz ver nessa aparente facilidade do mundo contemporâneo uma idéia falsa, pois acredita que ao nos tornarmos escravos de aplicativos e arquivos estaríamos fazendo dele um lugar muito mais difícil. “Nós estamos perdidos na poeira cósmica da internet. Tá chato” opina.

Em poucos minutos de conversa, Luiz Calanca começa a criar seus aforismos. Ele evita nostalgias excessivas, mas se mostra crítico em relação aos rumos que a humanidade anda tomando. É nesse momento que aflora o lado profético do dono da Baratos Afins. “A impressão que dá é de que o mundo ficou globalizado, mas o indivíduo cada vez mais solitário, isolado, dentro dessa cápsula universal que é o mundo. Ficou sem graça” diz com certa melancolia. Para alguém que gosta de conversar e trocar ideias, as relações supérfluas das redes sociais parecem encerrar o diálogo verdadeiro.

A aparência jovial conferida por uma camiseta de banda e um modo de falar repleto de gírias esconde sua infância pacata. Ele cresceu em uma pequena cidade do interior do estado de São Paulo e uma de suas principais lembranças é a de ir ao circo, diversão tradicional da região. Alguns artistas que estavam começando as suas carreiras apareciam de violão em mãos no circo que Calanca costumava ir e este passava por baixo dos panos para ver tudo de perto. Foi assim que a sua paixão pela música começou.

As suas histórias vêm sempre acompanhadas pela frase “Desculpe, eu viajo muito mesmo”. Ele adora contá-las para quem quer que seja. Afinal, o dono da Baratos Afins trabalha até o final do expediente, às 19h, recepcionando as pessoas que entram na loja de tempos em tempos.

Quem vê o senhor que comanda a loja talvez não imagine que foi depois que ele enviou um disco de Os Mutantes para Kurt Cobain, líder da banda Nirvana, que este chamou a imprensa e classificou o grupo brasileiro como “a melhor banda do mundo”.
Outra história que ele gosta de contar envolve um dos maiores ídolos do Rock. Quando o sobrinho de Calanca encontrou Robert Plant, vocalista da banda Led Zeppelin em uma praia de Salvador e disse que seu tio vendia discos, o líder da banda americana foi pessoalmente comprar um vinil do próprio grupo na loja.

Entre uma história e outra, Calanca encontra um pretexto para criticar o mundo contemporâneo. Ao lembrar dos tempos em que Raul Seixas, esquecido por muitos, andava nu pela Galeria do Rock, o dono da Baratos Afins encontrou uma brecha para criticar a mídia brasileira. ”O Brasil é um país necrófilo. Ele só dá valor ao artista depois de morto. A nossa mídia é muito babaca, muito ignorante. Eles têm vergonha de falar que uma coisa é boa. Precisa vir um gringo falar que algo é bom para as pessoas acreditarem” se exalta, contando que Seixas foi cultuado postumamente. Ele diz que nos anos 80 tudo era Rock: a Galeria do Rock, o Rock in Rio, a Rádio Rock; mas que depois a mídia colocou uma pedra no gênero e passou a promover outros estilos. “A mídia faz média. Quando o povão adere, eles se entregam” diz.

Apesar de o pessimismo não combinar com o jeito falante e amigável de Calanca, aparece em momentos nos quais o assunto é a tradicional loja de discos. A crueldade do mercado é algo que ele diz influenciar na formação do público da loja, definido como “um nicho diferente”. O que vende na Baratos Afins é o que o mercado recusa. Segundo ele, não há outra solução. “Eles tem poder, tem a máquina na mão. E a gente tem que engolir tudo isso e remar pela contramão. É o que resta para nós, porque não dá para competir” exclama.

Calanca respira música. Não há história que possa ser contada sem que um artista, famoso ou em ascensão, não seja citado, sempre com muita empolgação. Talvez seja por isso que sua vida se confunda um pouco com a história de sua loja.

Ao final de nossa conversa e depois de passar por entre vários discos, muitos dos quais tirou do lugar, Calanca volta para trás do balcão. De repente entra na loja um homem de meia idade com sua filha adolescente à procura de um CD da artista pop Miley Cirus. Calanca pede que Carolina consulte o acervo no computador e ao receber um “não” como resposta, diz ao cliente “Desculpe, nós não temos nenhum CD da Miley Cirus, porque não trabalhamos com esse tipo de coisa”. Volta para o balcão e começa a falar sobre vitrolas antigas.

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