Os caminhos de Tomásia

“A vida é uma escalada, mas a vista é boa”. M Cyrus

“Mas tu tá atrasada, minha filha”. Uma das frases que definem a famosa dona Tomásia e seu temperamento.

Caminha da porta da casa até o portão de ferro com seu jeito único de andar. Arrastando um pouco a perna esquerda por suas incansáveis dores nos joelhos, devido à artrose nos ossos que já a acompanham por um tempo.

Cabelos curtos, bem lisos e pretos – ela não pensa na ideia de deixar um fio de cabelo branco aparecer. Com sua regata florida, calças de malha e chinelos, mesmo após a costumeira bronca por causa do atraso, abre um grande sorriso.

Assim é dada a recepção. Um longo abraço, carinhos e afagos e “tô levando né, minha filha?” como resposta a um “tudo bem”.

Com 70 anos, Tomásia de Almeida Rocha é símbolo de força, bom humor e fortes ideias, constituídas por uma vida com muitos problemas, mas também, diversas alegrias.

Apressada em sua cozinha, caminha com dificuldade de um lado pro outro, carregando travessas de comida, panelas e pratos, meio ranzinza pedindo ajuda para arrumar a mesa do almoço,, pois a família já está um pouco atrasada. Tudo é do jeito dela. Ela escolhe os lugares das pessoas, chama a atenção das filhas mais velhas, faz o prato de todos, sem se cansar.

Após ver todos almoçando, finalmente faz seu prato e se senta em sua “cabiceira”, como chama o lugar onde ela sempre senta para realizar suas refeições, na ponta da mesa do almoço, na cozinha de sua casa. Ela fala com os filhos, e faz todos rirem com seus comentários e suas broncas. Troca o nome do genro, e tem frases típicas que todos sempre imitam. Ela fica brava quando sua neta Malu, 22 anos, a imita. porém no fundo sabe que é por carinho.

No meio da refeição, percebe que sua filha Dulce, 49, ainda não sentou para comer e, sem receio, solta uma bela bronca “mas tu… Já chegou atrasada e ainda tá enrolando por quê? Faça já seu prato, Dulcineide!”.

É assim o barulhento almoço de domingo na casa da progenitora da família Rocha dessa geração.

Tomásia veio da Bahia assim que se casou, ainda muito jovem. Lembra sempre com carinho e emoção de sua infância, na grande fazenda de seu pai Manoel Bertulino de Almeida.

“Tumaisinha” diz que sempre foi diferente de todos em sua família. Nasceu e cresceu em um grande casarão em uma fazenda em Mulungu. Foi a quarta filha a nascer em uma família de quatorze filhos. Joel, Terezinha, José, Tomásia, Liá, Gildete, Inês, Eraldina, Dalva, Manoel, João, Gessy, Bárbara e Genival, onde os três primeiros já faleceram.

Na infância, ela preferia ir cuidar dos gados, ficar nas plantações e cavalgar a aprender a cuidar de casa, como todas suas irmãs. Mantém até hoje uma relação de admiração por seu pai, Manoel, e em todos momentos que o cita em uma conversa o chama de “papai”. Para ela, ele sempre foi o exemplo e a pessoa mais carinhosa que conviveu. Aprendeu tudo com ele.

Já quando se trata de sua mãe, diz não ter muitas lembranças de convivência, pois Tomásia nunca passou muito tempo dentro de casa e diz que sua mãe passou grande parte da sua vida “dando à luz” aos diversos irmãos.

Quando tratando do assunto escola, ela diz que odiava frequentar. Naquela época em pleno interior Baiano, não existiam escolas estaduais ou do governo. As entidades educacionais eram organizadas pelos próprios pais fazendeiros que contratavam professores e juntavam os filhos para estudar.

Tomásia foi poucas vezes à escola, quando ia, brigava com a professora ou com os colegas e ia embora. Foi a primeira vez aos oito anos, e voltou de fato a frequentar aos treze. “ Eu só ia brigar, quebrava um pau que não é brincadeira”, sempre caracterizando o forte temperamento da senhora.

Diz que antes de crescida, nunca pensava em namorar. Ela temia isso, temia crescer e viver como sua mãe, sem sequer ver o mundo ao redor. “Quando aparecia um arco-íris, aquele bonito e colorido no céu, a gente acreditava que se chegasse no final dele e fizesse um pedido, ele se tornava realidade. Sempre que via um, corria, corria, corria e corria, mas nunca cheguei no fim. Se eu tivesse chego, teria pedido pra virar homem”.

Tomásia diz que o “breu” de sua vida, sua vida feliz, começou aos onze anos. Aos dezesseis anos começou o clima de paquera, e ela viu seu primeiro e único amor chegar.

Em épocas festivas de São João, passou o famoso sanfoneiro que se tornaria seu marido. “Era um moço muito bonito. Muitos tentavam me conquistar naquela época, mas quando Raimundo pegou em minhas mãos, soube que era ele.”

O conheceu nessa festa, e na despedida, entregou um bilhete para ele. Nesse bilhete, encontrava-se um versinho retirado de um livro, o ABC do beijo. Na época, todas meninas que sonhavam em namorar e casar tinham esse livro. Tomásia paquerava bastante, mas Raimundo foi o único que mexeu com seu coração.

O versinho era:

“Desde que te vi que sinto a minha alma ferida

Por você já dispensei até a própria comida

Nunca mais dormi, somente pensando em ti

Esquecendo a própria vida.”

Apenas depois de dois anos voltou a encontrar Raimundo, e após o reencontro, começaram a namorar, logo noivaram, e se casaram. Acima da cama no quarto dela, ainda encontra-se a foto do casamento, que mais se parece com uma pintura, por ser uma foto bem antiga.

Aos dezoito anos casou-se com Raimundo Xavier da Rocha, e já planejavam a vinda para São Paulo, buscando uma vida diferente e independência.

Raimundo era sanfoneiro. Passava por toda Bahia tocando em festas, casórios e conseguia se sustentar. Porém, no momento em que casou e começou a constituir sua família, viu que isso não seria o suficiente. Como ele já havia visitado São Paulo algumas vezes, pensava que a cidade traria um bom dinheiro e uma vida boa para sua nova família.

Tomásia e Raimundo então mudaram-se para São Paulo, morando de aluguel em uma casa no bairro de Água Rasa, onde tiveram a filha primogênita, Doraci. Buscaram meios de se sustentar, mas viram que o sonho de vida em São Paulo não era assim tão promissor.

Aos dezenove anos, com sua primeira filha nos braços e a segunda já a caminho, o casal voltou para a Bahia.

“Papai nos deu terreno e construímos nossa casa. Veio a Dulce, veio o Dilson. Mas queríamos voltar para São Paulo”. Tomásia sentia-se dependente do pai, pois quem criava o gado, plantava e era dono de tudo era ele. Decidiram então, se mudar novamente para São Paulo.

Na segunda vinda, adquiriram um grande terreno para começar a construção da casa. Raimundo inseriu-se no mundo da construção civil e começou assim a fazer sua carreira. A casa onde Tomásia mora hoje, é a mesma casa que Raimundo construiu com as próprias mãos, casa pela qual ela zela com muito amor e carinho. Ela não quer se mudar.

Enquanto a casa era modelada, o casal modelava a própria vida também. Com três filhos, Doraci, Dulcineide e Dilson, Tomásia costurava para fora de casa e Raimundo era construtor.

Aos vinte e seis anos, Tomásia deu a luz ao caçula, Djalma. Todos os filhos tiveram uma boa infância com momentos memoráveis.

Por mais que temesse em sua infância, Tomásia exerce o trabalho de dona de casa como ninguém – e passou isso a todos os filhos. Além de cuidar do lar, costurava para fora de casa, revendia cerâmica e cristais. Organizava reuniões e tornou-se muito conhecida em seu bairro.

A vida com Raimundo e seus filhos foi muito feliz. Passaram por dificuldades, mas sempre souberam organizar as finanças, se privando de futilidades, mas vivendo muito bem com o necessário.

É inegável que na infância de seus filhos era bem rigorosa, pois ela é assim até hoje. Tomásia criou quatro filhos que não sossegavam – subiam no telhado da casa, brincavam com peixes que ela trazia da feira, brigavam entre eles, e muitos problemas foram resolvidos com a cinta, e todos passaram pela ameaça de apanhar de manguá. Ela nega isso, mas os filhos, com risos, trazem a lembranças das encrencas que se metiam.

Além de criar os quatro filhos, Tomásia e Raimundo também criaram a filha de uma prima de Raimundo, hoje, a filha mais nova da família, Fabiana.

Em 1983, Tomásia perdeu Raimundinho, seu companheiro. Ele partiu com apenas quarenta e três anos, deixando-a com quarenta anos. Ela perdeu o chão, as pernas. Sente muita falta de seu bem. “Amei dois homens em toda minha vida. Papai e Raimundo. Se continuo aqui é pelos dois.”

Raimundo faleceu de derrame cerebral, dentro da própria casa. Tinha pressão alta, mas não sabia e nunca tinha cuidado. Porém, não a deixou sem nada. Quando construiu a casa, no amplo quintal, Raiumundo construiu quatro pequenas casas para aluguel.

Hoje, indo até o quintal, percebe-se que todas as casas estão alugadas, e todos os inquilinos realizam o pagamento em dia, garantindo assim, uma fonte de renda.

Após a morte do marido, Tomásia foi aos poucos tomando as rédeas da própria vida e colocando tudo nos devidos lugares. Fez um curso de cabelereira e abriu o próprio salão, além de voltar a frequentar a escola em um supletivo, concluindo o ensino médio e ensino fundamental. Revende até hoje produtos cosméticos da Natura, Avon e também medicinais da marca Forever, em suas famosas reuniões.

Viu seus filhos todos casarem e começarem a trazer os netos e era uma mulher independente. Pegava seu carro e ia sempre de cima para baixo, conversando com as pessoas, discutindo com outras, sendo a famosa Dona Tomásia. Também criou dois de seus netos, Jéssica, vinte e quatro anos, que hoje já é casada e é filha de Djalma, seu caçula, e Caio, dezoito anos, filho de Dilson.

No ano 2000, mais um impecílio atravessou seu caminho. Ela pegou seu carro para ir visitar uma das irmãs. No caminho, estacionou o carro na rua para ir até o mercado e foi friamente atropelada por uma moto. No atropelamento, ela caiu, bateu a cabeça e desmaiou, sendo abandonada pelo causador do acidente.

Foi um imenso desespero para todos, pois ninguém a localizava em local algum no dia até o dia seguinte.

A filha Dulce, desesperada, começou a passar por todos hospitais da região, até que encontrou sua mãe no hospital do Campo Limpo, deitada em uma maca no corredor. Estava acordada, porém inconsciente. Não sabia quem era e o que havia acontecido.

Ao ser analisada pelos médicos, disseram que na queda, surgiu um hematoma muito grande na cabeça, que deixaria sequelas para sempre.

De fato, Tomásia levou muito tempo para voltar a lembrar de sua família e retomar seu ritmo. Ela parou de dirigir e isso tirou muito da mulher independente e inquieta que era. Mas mesmo assim, ela ainda não para um só minuto. Vai à academia ACM duas vezes por semana fazer hidroginástica e algumas aulas de ginástica e não perde uma reunião no Salão do Reino. Também, não deixa de arranjar pretextos para sempre ir até Santo Amaro, para ela, o paraíso das compras.

Tomásia é um grande exemplo de força e superação. Dona de um humor incrível, assim como a braveza. Com tantas dificuldades que passou e até hoje enfrenta, faz de um todo para ver sua família unida. Percebe-se o grande sorriso que estampa a ver seus oito netos juntos e se divertindo. “Eu gosto assim, que meus filhos se unam”, mais uma frase marca de Tomásia.

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