Wagners

Wagner resfriado pode não afetar a vida de dezenas de pessoas, mas com certeza afeta o cotidiano do estreito Centro de Formação de Condutores do Campo Belo. Sem ele, a casa amarela decorada com placas de trânsito vira Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível, porque ele é o único professor da escola. Quem está doente, no entanto, não é Wagner, é sua mãe – o que na prática não muda muita coisa, já que, seja quem for o enfermo, ele não pode faltar no trabalho.

Dulce dos Santos também é única. A única que sabe a senha do cofre que esconde a arma, a única que faz o melhor estrogonofe do mundo e a única que descongela o coração de Wagner.

Enquanto ela se recupera da obstrução de um vaso sanguíneo ligado ao seu cérebro que impediu a circulação adequada e interferiu as funções neurológicas dependentes da região afetada, seu filho sacrifica o sono, a integridade psicológica e os sorrisos habituais. O acidente vascular cerebral isquêmico de dona Dulce a obrigou a passar uma semana na cama de um hospital em Higienópolis, próximo à casa de Wagner, e tornou imperativo o revezamento entre ele e a irmã no quarto de internação.

O pai aguentou um câncer de estômago por três anos, mas há uma década acabou falecendo. O senhor Amadeu dos Santos foi militar durante a ditadura nos anos 60 e 70. Perguntei se ele achava que o pai participava das torturas e assassinatos sistemáticos da época, ao que respondeu com um sorriso irônico: “Eu era pequeno. Ele ia trabalhar de manhã e voltava no fim da tarde. Não contava nada para a gente e nós também não questionávamos”. Wagner dos Santos herdou do seu genitor o amor à mãe e o sangue nos olhos.

 

“PM presta?”, pergunta a um aluno no primeiro dia do curso para condutores, que se inicia a cada duas semanas. Repete a pergunta a mais três alunos – “PM presta?” – e conclui: “PM não presta. Não vou mentir para vocês, o meu objetivo aqui não é ficar enganando ninguém. A realidade lá fora é dura e vocês têm que saber o que acontece para se protegerem”. Wagner chegou a ser Capitão da Polícia Militar e, mesmo não exercendo mais a profissão, continua recebendo como se estivesse no cargo

– Queria te acompanhar durante um dia, posso? Qual é a sua rotina?

– Claro, minha querida! Minha rotina? Vou para academia de manhã e de tarde venho dar aula, das duas às seis da tarde. E uma vez por mês vou naquele meu outro trabalho, você sabe né, assinar uns papéis lá, com o Coronel – pisca.

A sala sem janelas e sem ar condicionado acolhe os aproximadamente 30 alunos que, durante quatro horas de 10 dias úteis, ouvem as aventuras e opiniões do professor. “Normalmente a gente escuta que as aulas do CFC são entediantes e sonolentas; Wagner as faz ser uma experiência um bem menos insuportável”, diz André, um de seus pupilos. Para isso, além das piadas a cada cinco minutos, o mentor usa truques ligeiramente controversos, como a foto do crânio deformado de um presidiário, acompanhada de explicação: o hoje morto ficou louco na cadeia, saiu correndo e se atirou na parede.

Wagner é também generoso, empresta seu pendrive para os alunos que querem copiar as fotos dos bastidores da vida policial para seus computadores, que incluem tanto assassinatos, quanto acidentes de trânsito. O fetiche por cadáveres, sangue e decapitações, assim como o desejo de poder, é intrínseco a qualquer alma que tenha nascido para o ofício, e ele deixa isso claro nas aulas. “Por que vocês acham que as pessoas querem ser policiais? A gente tem muito poder. Você nunca vai conseguir me prender, sabe por quê? Porque eu conheço todo mundo que está dentro da delegacia”.

Já em casa, enquanto comprime repetidamente seu “aperto de mão” – aparelho para fortalecer a musculatura usada no tiro –, comenta: “A arma muda a pessoa, ela passa a se sentir poderosa de um jeito imbatível e na hora H não está nem aí para as consequências. Por isso não se pode discutir no trânsito; se o cara do carro da frente tem uma arma, ele atira sem pensar duas vezes.”

O Capitão tem autocrítica. Sabe disso porque sabe que se esse cara fosse ele, faria o mesmo. Sabe também que é uma pessoa difícil de lidar. É ‘estourado’ e, à mínima possibilidade de qualquer ameaça, mesmo que não envolva riscos físicos, reage de maneira impulsiva. Eis o porquê de sua mãe ser a única pessoa que sabe a senha do cofre. “Uma vez fui com uma ex-namorada num restaurante e um cara começou a se engraçar pra perto dela. Quando eu vi fiquei louco, se tivesse uma arma não sei o que faria. Sei que é errado, mas é o meu jeito.”

 

O homem Wagner dos Santos é dividido substancialmente em duas partes: o militar e o professor, mas que involuntária e diariamente se misturam num Wagner só, isso porque ele passou por uma cama de hospital muito antes de sua mãe. Aos 28 anos, três tiros o derrubaram na maca de um pronto socorro. Sobrou desse dia uma lembrança que enraizaria o futuro. Seu corpo, um médico, duas assistentes, um desfibrilador e um apito constante. Um choque e nada. “Os batimentos pararam, mas vamos tentar mais uma vez.” Outro choque e um apagão. Ele só acordou oito meses depois.

“Eu tenho certeza de que naquele dia morri e voltei. Narrei para o médico o que vi e ele me disse que foi exatamente assim, depois descobri que tem muita gente com relatos parecidos. Comecei a ver a vida de um jeito totalmente diferente.” Se hoje tem cabeça quente e dura, já foi muito pior. “Agora se vocês me falarem uma coisa e eu não concordar, dificilmente vou mudar de opinião, mas pelo menos vou tentar ouvir e entender”, se descreve para os seus alunos depois de mostrar a cicatriz abaixo do peito. Indiretamente o acidente foi um dos motivos pelos quais resolveu virar professor alguns anos depois.

– Filho, você pode colocar uma lixeira na frente do portão da sua casa?

– Acho que posso, professor.

– Lógico que não pode, filho. A rua é do governo, a rua não é sua. Nem a sua casa é sua, sabe por quê? Porque assim que alguém quiser, pode vir e tirar de você em nome do bem público. Está na lei. Vocês têm que conhecer as leis do país que vocês vivem.

O professor erra o nome dos alunos sempre e fala errado de vez em quando. “Ah, eu também falo errado de vez em quando. ‘Seje’, ‘seja’, essas coisas, eu me confundo. Se eu falar errado vocês me corrijam, não precisa ficar com vergonha. Depois tem nego que fica rindo de mim aí atrás. É, você mesmo, tá olhando o quê, filho?”, brinca. De vez em quando relaciona as situações no trânsito com princípios do direito ou com leis da física, gosta de mostrar o que leu.

Wagner faz o tipo do cara forte, inabalável, carismático, malandro, que se dá bem e que tem poder – ou faz questão de se assimilar a esse tipo de cara. É sincero com os outros e consigo mesmo; o personagem que cria parece simplesmente fazer parte da sua personalidade, uma faceta indissociável de seu caráter. Apesar da frieza nas ações, é extremamente carinhoso e atencioso, ainda que o carisma (característica de quem atrai muita atenção e causa boa impressão naturalmente, sendo consequentemente muito querido) pareça imprescindível para o cultivo de seu ego.

 

Ele se casou seis vezes. Descobriu há sete anos um filho desconhecido – mas que não era fruto de um dos casamentos – no velório da mãe do menino, com o padrasto ao lado. “Não tinha como negar. Eu olhei pro moleque, ele olhou pra mim e a gente era igual. A gente simplesmente sabia.” O “moleque” tinha, nessa época, 19 anos.

– A gente ainda se fala, ainda se encontra, mas o padrasto não tem nem ideia, pensa que o filho é dele.

– E como ela escondeu que tinha tido um filho na época?

– Conheci ela em uma das viagens que fiz, era linda. Naquela época eu ainda viajava muito por causa do trabalho militar, conheço o Brasil inteiro, já morei em quase todos os estados. Mas enfim, a gente acabou namorando e quando eu fui embora ela não falou nada. No fundo eu sabia que tinha alguma coisa estranha, sempre fiquei com essa história da Ana na cabeça. Por isso quando encontrei o menino não tive dúvida.

– Ele lidou bem com a notícia?

– Sim. Ele me procura bastante, a gente se gosta muito.

A última ex-mulher foi uma juíza, e ele deixa isso claro para os alunos. Márcia recebia ameaças de vez em quando porque julgava casos criminais. “Ela era muito inteligente. É rapaz, tá pensando o quê? Ela lia muito e me ensinava várias coisas sobre direito, leis e até literatura”, diz ele sentado à frente do balcão da padaria, a três quarteirões do CFC. “Acho que elas gostam mesmo é do meu excesso de gostosura, da minha saliência, ri. Ou então da minha tonalidade marrom bombom.”

Wagner não é maior do que qualquer mulher de estatura média. A academia diária lhe rende torso e braços fortes, mas não é suficiente para desaparecer com a barriga arredondada, coberta sempre com uma camisa preta ou branca, de mangas curtas ou compridas. Usa calças jeans escuras e manchadas com tons mais claros, tênis pretos e uma delicada corrente de ouro enfeitada pela imagem de Maria Aparecida. O corte de cabelo é naturalmente militar, rente à cabeça, sem maiores invenções. E o sorriso Colgate contrasta com a pele, escura, mas nem tanto. Completa tudo com uma aliança prata de uns quatro milímetros de espessura.

Quem a colocou em seu dedo há dois anos foi Fabiana, contadora. Assim como dona Dulce e Wagner, ela acabou de passar por uma cama de hospital. O silicone lhe rendeu complicações, mas acabou saindo ilesa. “Wagner é tudo para mim agora. Ele passou todo o tempo do meu lado, e depois ainda teve toda a história da mãe dele. Sempre foi muito atencioso e preocupado”.

 

“Ju, me desculpa, não vou poder me encontrar com você amanhã. Tenho que ir lá no tribunal resolver uns negócios do processo. Até te chamaria para ir comigo, mas você não ia poder entrar – explica-se ao telefone. Me desculpa mesmo, viu querida. Depois te ligo de novo para a gente combinar direitinho, daí eu te pego de carro e você vai comigo para tudo quanto é lugar”.

O Capitão responde por três processos na justiça, herdados da época de PM. Só revela isso para os seus alunos ao fim de duas semanas, no penúltimo dia de aula, mesmo assim sem responder sobre mais detalhes. O professor assume um tom enigmático, proposital, e usa o senso de humor para desviar das perguntas: “O cara ficou desesperado e pulou da janela, olha só!”

O olho esquerdo sofre uma alteração curiosa toda vez que a conversa se relaciona com a morte. As pálpebras se acirram involuntária e repetidamente até que o assunto passe.

– Você já notou que o seu olho treme toda vez em que a gente fala sobre alguma coisa assim?

– Como assim?

– É, o seu olho treme.

– Nossa, nunca reparei. Que estranho.

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