Pequeno grande homem

Felipe da Silva Braga, ou Felipe Krust, como é conhecido, tem o braço direito coberto por tatuagens e está (quase) sempre com uma camiseta estampada. Aqueles que o veem de longe podem o julgar pelas tatuagens e não acreditar – erroneamente – que, apesar da pouca idade, ele é um homem cheio de histórias pra contar.

Para os que conheceram Felipe superficialmente um ano atrás, ele parecia ter a vida perfeita. Mesmo sem nunca ter estado em um curso superior, com apenas 22 anos ele já ocupava um alto cargo como designer em um dos jornais mais importantes da maior metrópole do país, o periódico Folha de S.Paulo. No final de 2012, porém, Felipe largou seu emprego, foi até o aeroporto e comprou a primeira passagem aérea que viu.

Olhando para trás, ele admite que largar a Folha e sair sem destino foi uma atitude “impulsiva” e “imatura”, mas sabe que, o que considera ter sido a maior loucura de sua vida, foi o que o salvou.

Impulso e responsabilidade

Felipe é o tipo de pessoa que teve que aprender a enfrentar seus problemas desde cedo. Quando nasceu, em 1990, seu pai, que já era alcoólatra, passou a usar drogas. O fato gerou uma espécie de racha na família. Dois de seus irmãos viam no pai certa fraqueza e defendiam-no, enquanto outro era completamente contra o vício. E, no meio do caminho, ele. Seis anos mais novo que o então caçula, Felipe tentava não se envolver e manter uma posição neutra.

Os acontecimentos fizeram com que ele crescesse muito apegado à mãe, que sempre tentou poupá-lo de brigas e chateações. Apesar da proteção da mãe, desde os 17 anos, é Felipe quem ajuda o pagamento de contas. Todos os seus irmãos se casaram e tiveram filhos muito cedo, saindo de casa quando ele era apenas um adolescente.

Por ter assumido a responsabilidade de ajudar no sustento do lar, Felipe admite que não poderia ter largado seu emprego na Folha de S.Paulo, mas, se hoje ele tem maior liberdade para trabalhar com o que gosta e pode ajudar quem ama, foi muito devido à sua coragem de jogar tudo para o alto e correr atrás da felicidade – e de si próprio.

A louca viagem é o que parece separar o menino do homem. O garoto impulsivo e empolgado deu lugar a um homem mais calmo e responsável, que aprendeu a pensar mais em como seus atos podem influenciar a vida das pessoas que se importam com ele. Segundo Rafael Felix, além de ter mais coragem e cabeça para correr atrás de soluções de problemas antes deixados de lado, Felipe aprendeu também a dar mais valor às pessoas próximas.

Mesmo não considerando que vivenciou grandes problemas e de não sentir orgulho de ter passado por dificuldades, Felipe admite que, devido aos acontecimentos anteriores, hoje ele é capaz de lidar com situações que, talvez, pessoas da mesma idade dele não consigam.

De garoto a homem

Quando tinha 16 anos, Felipe se deu conta de que gostava mais de comerciais do que dos programas televisivos. Apesar de considerar “meio estranho para uma criança”, ele lembra que quando via uma propaganda que não gostava, pensava em como ele poderia torna-la melhor. Amante de games, o então garoto percebeu também que os sites dos jogos não eram muito atrativos para os gamers.

A observação e percepção logo deram lugar à curiosidade. Felipe começou a procurar na internet apostilas e tutoriais de design. Depois de algum tempo e muita leitura, ele já se arriscava e modificava o layout dos sites por diversão.

A brincadeira ficou séria quando, depois de fazer um site para a rádio na qual trabalhava, ele começou a receber propostas de freelances. O feedback positivo animou o garoto, que logo começou a pensar em tornar o passatempo em trabalho. A sensação de se sentir capaz de fazer algo por conta própria, e as boas respostas ao seu trabalho, o animaram a levar a paixão adiante.

Entretanto, ele logo percebeu que não seria fácil se tornar um designer. Com grande demanda para montar o layout de sites, Felipe se deu conta de que precisava se organizar melhor e se profissionalizar para poder ganhar dinheiro e mergulhar no mercado. Sempre de bom humor, ele conta que quando começou a receber pedidos de sites ficava perdido e não sabia quanto cobrar por eles.

A determinação e a força de vontade, características marcantes de Felipe, fizeram com que ele voltasse a estudar por contra própria para aprimorar seu serviço. Se com 18 anos grande parte dos jovens passa dias fora de casa e indo a festas, Felipe muitas vezes  deixava de sair com seus amigos para ficar estudando, passando horas e horas em frente ao computador.

Para ter uma base de quanto valia seu trabalho, já que não conhecia ninguém da área, ele entrou em contato com agências de publicidade fingindo ser um cliente. Rindo, ele conta que fazia sites “a preço de banana”.

As pesquisas ampliaram seus horizontes. Felipe descobriu que além de ganhar dinheiro fazendo algo que gostava, tinha a possibilidade de poder “fazer a própria empresa”. Antes de montar o próprio negócio, porém, era preciso conhecer o mercado.

Precisando ganhar dinheiro e sem ter como conciliar trabalho e escola, Felipe foi se dando conta de que o design estava virando mais que um hobbie, e que estava “se divertindo muito e trabalhando pouco”. Foi em seu primeiro emprego, no Instituto Universal Brasileiro, que ele aprendeu como funcionava o mercado de design.

No Instituto, ele se deu conta de que “achava que sabia tudo, mas, na verdade, não sabia nada”. Felipe sentiu a necessidade de aprender mais e voltou a estudar sozinho. Percebeu também que “quem faz design não sabe programação, e quem sabe programação não faz design” e começou a estudar códigos. No esquema “design no trabalho e programação em casa”, Felipe foi se diferenciando dos outros profissionais da área e novas oportunidades foram surgindo.

Com 19 anos, duas experiências profissionais, e cerca de 100 sites feitos, um amigo o indicou para uma vaga no jornal Folha de S.Paulo. Como não tinha formação universitária, Felipe sabia que teria que se empenhar muito para se equiparar aos seus colegas, mas ao mesmo tempo, se sentia confiante por estar no mesmo nível de profissionais formados.

A confiança e a consciência do seu potencial não atrapalharam Felipe, que não assumiu uma postura arrogante. Mesmo com muita empolgação, vontade de mostrar seus trabalhos e de ser cada dia melhor, ele continuava se esforçando, mantendo a característica humildade. Fez cursos livres, estudou, trabalhou duro e logo foi promovido. E foi na Folha que percebeu que “poderia ser um profissional de design, e não uma pessoa que trabalha com design”.

Mas nem tudo é o paraíso que parece ser. Aos poucos, os problemas começaram a aparecer. A rotina se tornou cansativa e o trabalho tomava muito do seu tempo. Paralelamente ao trabalho na Folha, Felipe fazia freelance, mas sentiu que a qualidade destes trabalhos estava caindo por não ter tempo para se dedicar a eles.

Depois de dois anos no jornal, Felipe percebeu que apesar da estabilidade e conforto financeiro, ele não estava mais feliz, e começou a pensar: “eu preciso fazer o que eu gosto”. Quando falava em sair da empresa, seus amigos o criticavam, dizendo lá ele tinha um plano de carreira e estabilidade financeira, ao passo que ele se perguntava: “vou ter todas as minhas necessidades econômicas em dia e vou ser infeliz, até quando? E a minha felicidade?”.

Em setembro de 2012, os aborrecimentos da vida pessoal começaram a se transpor para a vida profissional. Os problemas se acumularam de tal forma, que quando Felipe percebeu, eles já haviam se tornado insuportáveis. O problema de seu pai com as drogas, o sofrimento da mãe, a falta de apoio dos irmãos e amigos somaram ao descontentamento com a rotina maçante do jornal. O designer diz que estava “uma pilha de estresse” e não conseguia mais lidar com os problemas e ficar em São Paulo.

Após uma noite de bebedeira na rua, Felipe pegou um ônibus, foi para o aeroporto e comprou uma passagem só de ida para o primeiro lugar que viu. O destino? Espírito Santo. Em 25 dias e com menos de 2000 reais, ele visitou Espírito Santo, Bahia, Porto Alegre, Florianópolis e Rio de Janeiro.

Apesar de admitir que foi um ato impulsivo largar tudo e ir com pouco dinheiro para um lugar desconhecido, o designer considera que o que fez foi necessário. “Acho que foi a melhor coisa que eu já fiz na minha vida”, afirma.

Se na primeira semana ficou sem celular e internet, isolado de tudo e de todos, pouco a pouco Felipe aprendeu a “compartilhar experiências” com as pessoas conheceu ao longo da viagem e que foram muito importantes para o seu processo de amadurecimento ao dar conselhos que eram ouvidos com humildade e absorvidos como novos conhecimentos.

Já no final da viagem, em Porto Alegre, uma ligação de sua mãe fez com que Felipe se desse conta de que “estava sendo egoísta”, se esquecendo das pessoas que dependiam e se importavam com ele.

Por “sorte divina”, Felipe conseguiu comprar uma passagem de volta para São Paulo com o exato valor que sobrara em sua conta.

A relação de Felipe com a Igreja e com sua fé, inclusive, é conturbada. Sua primeira tatuagem, um ideograma japonês na nuca, significa Deus, pois segundo ele, Deus o salvou várias vezes, “não pode ser ciência, não tem explicação”. Em um momento “mais revoltado”, porém, ele tatuou uma cruz rachada no braço para simbolizar sua falta de fé, desenho que ele se arrependeu de ter feito e que pretende preencher, já que voltou a crer.

Uma nova fase

No dia 1 de junho, Felipe realizou um sonho e teve oito peças expostas na casa noturna Lab Club em São Paulo. O feedback foi positivo e o dono da casa, depois de ouvir muitos elogios, deixou as portas abertas para Felipe, que recebeu um convite para expor obras no Rio de Janeiro também.

Além disso, o designer sentiu a necessidade de voltar a estudar e agora cursa Design de Mídia Social na Faculdade Impacta de Tecnologia junto com Rafael, amigo que “contaminou” depois que voltou de viagem, e que também “resolveu tomar um rumo na vida”.

Felipe conta também que tem planos de ir para os Estados Unidos para estudar efeitos visuais e foto manipulação depois que terminar a faculdade, e brinca: “dessa vez é programado, chega de loucura”.

Autonomia

Hoje, Felipe faz seu próprio horário. Acorda cerca de nove horas da manhã, checa e-mails e Facebook. Gruda papeizinhos no home-office que montou, para organizar as tarefas do dia. Almoça, passeia com o cachorro e trabalha até o horário de ir para a faculdade, que vai das 19h às 23h.

“Quando se abre mão de algo, se ganha outra coisa em troca”. Se hoje Felipe é feliz porque consegue fazer o que gosta, concretizar seus desejos e ajudar as pessoas próximas, é porque abriu mão de apenas uma coisa: o emprego.

Apesar de gostar da liberdade para fazer seus freelances, o designer admite que às vezes fica preocupado com a instabilidade do negócio, e por isso, quer agora arranjar um emprego fixo que dê segurança financeira, mas que o permita continuar com o trabalho de casa.

Ao mesmo tempo em que sua vida pessoal parece ter se acertado, ele tenta acompanhar a profissional, que sente estar passando “tão rápido que às vezes não dá tempo de acompanhar”.

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