“Proativo discreto”

carneiro

“Eu já era jornalista tipo com nove, dez anos. Eu já era jornalista, querendo ou não”

A primeira coisa que ouvi dizer sobre Gabriel Carneiro é que ele era um gênio. Fomos apresentados um ao outro na rádio Gazeta AM, em fevereiro de 2012. Aluna de primeiro ano da Faculdade Cásper Líbero, eu estava conhecendo a rádio universitária quando um rapaz alto entrou no estúdio. “Juliana, esse é o Gabriel Carneiro e ele é um gênio”. Assim, simples, Gabriel Medina acabava de dizer algo que eu concluiria em alguns meses. O rapaz a quem havia acabado de ser apresentada deu um risinho. Com o semblante tranquilo e olhos escuros e atentos, me cumprimentou timidamente e logo rebateu as declarações de seu xará. O ato já antecipava uma das características pelas quais mais passei a admira-lo: a humildade.

Conhecido pelo sobrenome, Carneiro é natural de Mairiporã. A princípio, prestaria direito no vestibular, uma vez que seu pai e seu irmão são bem sucedidos na área. No entanto, no último ano de colégio optou pelo jornalismo. Ele não conhecia nenhuma faculdade e sequer sabia o que se estudava no curso. “Mas eu vi que eu talvez me encaixasse naquilo, porque eu gosto de boas histórias e eu gosto de pesquisar”, explicou descontraído, enquanto tomava um sorvete.

Naquele instante nos encontrávamos na praça de alimentação do Top Center, localizado na Av. Paulista. Ele havia tentado comprar uma casquinha de sorvete no Mcdonald’s, mas a falta de atendentes o levou a exercer sua clientela no Giraffas.

“Você está presenciando um protesto”, brincou, fazendo referência ao primeiro ato contra o aumento das passagens de ônibus e metrô em São Paulo.

Ele usava um casaco escuro com o zíper fechado. Embora calmo, as pernas mexiam irrequietas por baixo do tampo da mesa. Às vezes lançava um breve olhar para o teto, ou mesmo para algum ponto fixo atrás de mim. Esquadrinhava o ambiente provavelmente atrás de alguma curiosidade, o faro jornalístico apurado. Quando batia os olhos no gravador, dava um meio sorriso e encolhia um pouco os ombros, de maneira tímida. Costuma levar as mãos para trás da cabeça, mas sem mexer muito nos cabelos curtos. Essa mania é mais comum enquanto ele escreve.

Em frente a um computador, a seriedade no rosto de Carneiro só aumenta. Ainda balançando as pernas, digita rapidamente com os olhos fixos na tela. As abas abertas na internet normalmente mostram perfis em redes sociais, email e sites de coberturas esportivas. Mas, ao avistar um amigo, ele faz questão de parar de digitar e cumprimentar quem quer que seja com um forte abraço. Carinhoso, ele diz ter três círculos de amizades: dois de colégios em que estudou e um da faculdade.

No laboratório de computação, o estudante alterna sua atenção entre trabalhos da faculdade e posts para o blog Chuveirinho FC, que tem em parceria com o amigo e ex-colega de trabalho, Bruno Grossi. “É um espaço de opinião e de reflexão também. E de compartilhar uma coisa com uma das pessoas que eu mais gosto, que é ele, que é um dos meus melhores amigos sem dúvidas”.

Bruno Grossi, por sua vez, reforça a discrição de Carneiro no dia-a-dia. “Como amigo ele nunca falta. Por mais que não fale nada, com o olhar ele já avisa o que pensa e mesmo que não concorde, ele no máximo fala uma vez”. Já como profissional, não poupa elogios ao ex-colega de Gazeta Esportiva: “O bode é um cara muito acima dos demais. Além do olhar sempre mais periférico, ele conseguia sempre exprimir os sentimentos nos relatos e nas entrevistas. E por mais que ele ficasse quieto era sempre o mais proativo. Proativo discreto”.

A passagem de Gabriel Carneiro na Gazeta Esportiva foi um marco em sua vida. Ainda no primeiro ano de faculdade, o estudante foi aprovado num dos estágios mais cobiçados da Fundação Cásper Líbero. No entanto, a demora em ser chamado quase colocou o jovem em outro estágio, no site do Uol. Ao receber a ligação do portal, Carneiro aceitou a proposta. Não era algo que o motivasse, mas o salário seria bom e ele teria a oportunidade de trabalhar em casa. Mal sabia ele que cinquenta minutos depois a Gazeta ligaria o chamando para realizar o exame médico e assinar o contrato.

“Foi a primeira vez que eu tive que ser profissional, que eu tive que escolher. Tive que fazer uma seleção de onde eu queria trabalhar. Aí também não sabia o que ia encontrar. E me surpreendi. Quando eu escolhi fazer jornalismo eu sabia que eu ia pender pro jornalismo esportivo. Só que eu não sabia como que um jornalista encontra uma fonte. Eu não tinha essa noção. Como que um jornalista encontra uma história pra contar? E aquilo eu queria começar a saber, porque a prática acaba se mostrando muito melhor do que a teoria no jornalismo. Pelo menos pra mim”.

Os dois anos que se seguiram foram de imenso aprendizado para Carneiro, que dá especial destaque a duas coberturas realizadas em 2012: a final da Copa Sulamericana e o velório de Félix Venerando, goleiro do tri brasileiro.

A final da Sulamericana ficou conhecida pela desistência do time argentino Tigre de retornar aos gramados do Morumbi no segundo tempo. O São Paulo vencia o jogo por dois a zero e estava próximo de ser o campeão. Os argentinos acusavam os seguranças do time mandante de terem partido para a violência no intervalo. A confusão que se seguiu rendeu muitas suspeitas e discussões – além do título ao clube paulista.

Gabriel, que estava cobrindo o time argentino, relatou: “Eu não cheguei a ver o momento em que os jogadores e os seguranças do São Paulo entraram em conflito, mas depois os próprios jogadores chamaram a imprensa pra ver o vestiário ensanguentado, pra ver tudo quebrado e destruído. Aquilo marcou bastante, ainda mais que depois a gente ainda foi atrás dos jogadores na delegacia. Então foi uma cobertura de delegacia!”.

“Eu acho que eu fiz um bom trabalho aquele dia… tanto que eu voltei pra redação quatro horas da manhã e ainda tinha que escrever muita coisa lá. E voltei pra casa ainda, porque geralmente, quando eu fazia jogos, chegava na redação uma e pouco, duas, e quando acabava ia pra casa de algum amigo por morar longe. Aí essa não: essa eu peguei o ônibus e voltei pra casa, de tanto tempo que eu fiquei trabalhando”.

A outra cobertura marcante, porém, exigiu de Carneiro mais que técnicas de apuração: exigiu profissionalismo e, acima de tudo, delicadeza do estagiário que foi escalado de última hora para cobrir um velório.

Ao chegar na redação da Gazeta Esportiva em 24 de agosto de 2012, ele não esperava que seu chefe fosse dizer: “O goleiro Felix morreu e eu reservei o carro pra você ir lá no velório”.

Por ter chegado cedo ao cemitério, o estudante logo foi se informar sobre os detalhes do enterro. Perguntou a um velhinho sobre o momento em que o corpo chegaria, mas não contava com as peças pegadas pelo destino. O senhor de nada sabia, e, ao revelar a identidade do velado, Carneiro mal podia imaginar que acabava de dar a notícia a um amigo do ex-jogador. Eles haviam jogado juntos na base do Juventus da Mooca e tinham sido vizinhos 50 anos depois. Ainda chegaram a se encontrar uma semana antes do goleiro adoecer.

O jovem percebeu que o senhor ia se entristecendo e começou a puxar conversa. ”Aí a gente foi conversando, conversando e não foi muito como jornalista, foi como ser humano. Foi como ser humano, eu acho, que eu reagi àquela cobertura”. Com os olhos emocionados, porém com a voz firme, Carneiro ainda explicou como se deu o resto do dia e a sua conduta num momento tão delicado. “O mais difícil foi falar com a neta, mas a abordagem que eu fazia era a mesma ‘Sou jornalista da Gazeta Esportiva, se você não quiser falar comigo não precisa falar, só queria saber se você tem alguma coisa a dizer’”.

Ao fim do dia o estagiário precisava de alguma forma colocar a matéria no ar. Percebendo que ninguém estava sendo velado na sala ao lado, pegou seu computador e se instalou ali mesmo. Depois chegaram outros jornalistas e montaram uma redação no velório. Com o olhar um pouco mais sério, falou em um tom de voz mais baixo: “É bizarro contar, mas foi marcante pra mim”.

Mas o tempo de Gazeta Esportiva propiciou a Gabriel Carneiro mais que coberturas emocionantes. O prazer de escrever sobre o assunto de que mais gosta e o privilégio de poder trabalhar com amigos deram ao estágio um caráter especial. “É um ambiente do qual eu sempre gostei muito. No último dia, até nem queria ir embora direito. Eu queria continuar lá. Eu sempre fiz horas a mais que eu devia. O trabalho era seis horas, eu sempre fiz sete, oito, nove horas, porque eu gostava. E eu gostava do ambiente, eu gostava de conversar… Eu podia simplesmente trabalhar seis horas e ir embora, mas eu gostava de ficar, sei lá, vinte minutos conversando com o repórter, pegando umas dicas, trocando ideia de tudo, de cobertura, de personagem… e aí eu perdia o tempo de trabalho, me sentia culpado e compensava aquele tempo em horas a mais”.

O último dia de trabalho, ao fim de seu contrato, foi emocionante. O estudante enrolava para terminar o texto quando o amigo Yan Resende brincou “Você não vai embora não?”. Sentindo que precisaria de um apoio emocional, Gabriel pediu a Yan que o acompanhasse até a porta. “Eu queria desabafar, queria conversar, queria… sei lá, só alguém do lado. Desliguei o computador”. E, no meio do relato, Carneiro sai de uma espécie de transe e me pergunta, olhos nos olhos: “Sabe o que é desligar o computador pela última vez? Eu quase reiniciei”.

Ao se despedir dos colegas, foi surpreendido por uma salva de palmas. Sem se conter, deixou que as lágrimas explicassem por ele tudo aquilo que não conseguiria exprimir em palavras.

“O pessoal já tinha ido embora, tinha só uns três ou quatro na redação. Aí bateram palma pra mim. Nunca tinha acontecido. E eu acho que nunca vai acontecer… bater palma pra mim. ‘Legal, você foi muito bem aqui, você fez um bom trabalho aqui. Brigada, tchau’ e aí… e aí eu chorei. Chorei e quem me confortou aquela hora foi o Yan, que é outro cara por quem eu tenho muito, mas muito carinho. Virou meu irmão”.

Sem graça com a confissão, Carneiro diz que foi muito dramático. E que, passado o momento, percebeu o início de um novo ciclo. Depois de cumprir os planos de descansar por pelo menos um mês, o estudante já tem outros estágios em vista.  Discreto, revelou que está na última etapa do processo de seleção do Lance! e que já havia dispensado um outro estágio, que seria no Tribunal de Justiça. “Eu não fui contratado pelo Lance, mas eu acho que eu não vou me achar no Tribunal de Justiça”.

A trajetória do estudante passa também pelas ondas sonoras da rádio Gazeta AM. Com um quadro semanal no programa Nordeste Futebol Clube, o Nossos Hinos, o jornalista em formação tem a missão de contar a história do hino de um clube nordestino. Mais que isso, Carneiro sempre procura entrevistados e histórias interessantes, dando especial foco às personagens de sua matéria, fugindo das perguntas superficiais que dizia fazer no início.

“Agora eu consigo fazer uma coisa mais abrangente, então eu consigo valorizar os personagens. Inclusive já teve dois com personagens especiais. Eu vi que aquele cara tinha tanto pra falar que eu não podia simplesmente colocar ele no meio da história de um time, eu tinha que colocar aquele personagem e dar um destaque para ele, eu tinha que valorizar aquele personagem”.

Dózinho, compositor potiguar, foi um deles. Responsável por compor os hinos dos três grandes clubes do Rio Grande no Norte, o personagem caiu no esquecimento em sua terra. “É um cara que tem um monte de história para contar, e nenhum dos times lembra dele mais hoje em dia. E ele é um cara fundamental na história dos três, então eu acho muita injustiça”. E, empolgado com o desabafo, emenda: “Os clubes não valorizam os caras que participaram da história, então talvez seja também um jeito de denunciar”.

O quadro nasceu durante as comemorações de três anos de existência do programa, em 2011. Carlos Sergipe, responsável pelo NFC, propôs a Gabriel que fizesse uma matéria especial para o aniversário. “Como o programa é muito musical, eu pensei em alguma coisa a ver com a música. E não sei como surgiu a ideia de contar a história dos hinos, eu sempre gostei de hino, de futebol, da relação entre futebol e música”. Aprovada, a ideia fez tanto sucesso que virou quadro.

Mal passa pela cabeça de quem escuta as matérias de Gabriel, que o dono da voz utilizada na impecável locução ficou temeroso de colaborar na rádio, a princípio. Tímido, ele diz ter ficado inibido e que só foi perder o medo de falar durante o Jornal da Gazeta. “Eu tremi demais. Eu percebi que as pessoas tavam vendo que eu tava tremendo e aquilo me dava mais nervosismo ainda. Mas depois fui participando e perdendo isso”.

A área esportiva, aliás, sempre atraiu o jovem de apenas 20 anos. Após pressionar os lábios um sobre o outro e me olhar quase que travessamente, Carneiro deixou escapar o riso e explicou o seu segredo: por brincar muito sozinho quando criança ele acabou criando um universo particular. Criativo, inventava jogadores e times baseados em clubes e personagens reais do futebol. Eram diversos campeonatos, com três, quatro divisões. “Tinha técnicos, tinha dirigentes, tinha uma emissora de TV que cobria, então eu já era jornalista tipo com nove, dez anos. Eu já era jornalista, querendo ou não. Porque eu cobria os meus próprios times”.

O menino anotava tudo em um caderninho sem deixar passar um único detalhe, cuidando das transferências no meio e no fim do ano. “Inclusive os técnicos eu anotava de lápis, porque técnico é muito demitido, então eu apagava e trocava”.

Mas a emissora de Gabriel não poderia cobrir apenas futebol. Preocupado, o garoto criou toda uma programação, com programas de entrevista, variedades, debates eleitorais e novelas. Ele escrevia os roteiros das novelas, algo que o inspirou a se tornar roteirista. “Quando eu entrei na faculdade, eu queria usar o jornalismo pra um dia talvez ser um escritor de novela, que eu sabia que a maioria dos escritores de novela haviam sido jornalistas. Então talvez foi essa a primeira motivação. E eu levo isso até hoje. Eu acho que eu quero escrever novela”.

Carneiro nunca escondeu que pretendia usar o jornalismo para, um dia, viver de escrita. Na Gazeta acabou gostando da aparente falta de rotina do jornalista e se animando com a ideia de ficar na cobertura esportiva. E faz isso com incrível competência e talento.

O amigo Yan Resende conseguiu traduzir o sentimento que acompanha todos os que convivem com Gabriel: de que ele é competente em tudo o que faz. “Tenho o Carneiro como um exemplo a ser seguido e procuro fazer o mesmo caminho dele, pois sei que é de sucesso, ou melhor, todos sabem”.

Os elogios às matérias de Gabriel Carneiro sempre o deixam sem graça. Humilde, ele sempre percebe em seus colegas e amigos pontos fortes a serem explorados e os anima com palavras de animação. É o tipo de amigo que sempre vai ler e acompanhar uma matéria sua, e mesmo palpitar com sua visão aberta.

Já durante o trajeto de volta para casa, Carneiro me contou que não se importa de fazer a viagem para Mairiporã todos os dias. Ele não se importa, pois não quer perder tão cedo a conexão com sua família, algo que mudaria muito caso ele se mudasse para São Paulo. Caseiro, ele valoriza o tempo que tem disponível com seus pais e seu irmão e acha que seria muito estranho sair de casa antes do seu irmão, sete anos mais velho que ele.

Ao me despedir dele, sempre com abraços apertados, brinquei se ele chegaria em casa a tempo de ver a novela. Rindo, ele respondeu que a das nove horas sim, mas que assistiria a das sete pelo celular, no ônibus para Mairiporã.

Já distante, com aquele sorriso tímido característico, acenou para mim e, andando um pouco encurvado por causa da pesada mochila, entrou no metrô sentido Tucuruvi, sumindo em meio à multidão que se aglomerava nas portas do trem.

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