Visão jornalística

O jovem que está acostumado a recorrer ao plano B – sempre com paciência e bom humor

Era uma noite de quarta-feira no começo do mês de maio. Na estação de metrô Paraíso, os vagões já estavam mais vazios devido ao horário. No primeiro vagão, que é, primordialmente, destinado a idosos e deficientes, estava sentado, no assento reservado, um rapaz por volta de vinte e poucos anos. Ele usa roupas comuns: calça jeans, tênis, camiseta preta e uma jaqueta verde musgo. Os cabelos são curtos e pretos e em seu rosto está um par de óculos de lentes grossas e redondas. Ele fala no celular com sua mãe, avisando-a de que em cerca de dez minutos já estaria na estação Praça da Árvore e que ela poderia ir buscá-lo.

Aquele dia tinha sido complicado no trabalho. O rapaz, Filipe, tinha passado o dia inteiro atendendo telefonemas e respondendo e-mails. Naquela semana estava escrevendo um texto sobre pequenos negócios para a editoria de Mercado, da Folha de S. Paulo, onde trabalha. Naquela quarta-feira, tinha feito uma entrevista com uma empresária por telefone. “Ela me perguntou se ela podia passar o meu contato para alguns colegas que ela julgava serem boas fontes para o meu texto. Disse a ela que podia, e agradeci pela ajuda. Mas acho que ela acabou mandando e-mail para toda a lista de contatos dela”, conta, rindo.

Tirando esse episódio, o cotidiano na reportagem de Mercado costuma ser tranquilo. Filipe nunca se imaginou trabalhando nessa editoria. “Mas por enquanto não estou preocupado, nem penso em mudar”, afirma. Ele tem preferência pela área de pequenas empresas, que “é bacana de fazer, sempre têm assuntos novos”.

Plano B

Na verdade, até quase três anos atrás, Filipe não se imaginava nem como jornalista. Após terminar o colegial, cursou Música na Faculdade Santa Marcelina. Por tocar piano desde os oito anos, o trajeto lhe pareceu natural. No entanto, no último ano de curso, algumas desilusões deram as caras. Filipe percebeu que, apesar de ser o seu sonho, não poderia seguir uma carreira de pianista. “Com o meu problema de visão, tinha que memorizar todas as músicas que fosse tocar”, conta. Ficou mais desanimado ainda quando, no final do mesmo ano, seu projeto de mestrado não vingou. “Era sobre musicografia em braile, mas não deu certo por causa da escassez de materiais a respeito.”

Filipe possui uma doença hereditária chamada retinose pigmentar, que vai degenerando a visão com o passar do tempo. Ainda não há uma cura para essa doença, mas existem alguns raros tratamentos. Sua família descobriu quando Filipe tinha 8 anos. “Meu pai veio falar para mim e para meu irmão que talvez nós fizéssemos uma viagem para cuidar dos meus olhos. Eu era criança, então achei ótimo, porque ia passear.” A família toda foi para Cuba – o único país na época que tinha tratamentos para retinose pigmentar – e lá Filipe fez uma cirurgia que prometia diminuir a velocidade da doença. Foi para lá mais duas vezes nos anos seguintes, mas não adiantou muita coisa: hoje, aos 24 anos, ele tem cerca de 10% de visão. Ele não possui visão periférica, e, dependendo da luz, só enxerga vultos.

Quando percebeu que não teria mesmo como seguir uma carreira como pianista, o rapaz começou a pensar em outras possibilidades. Entre elas, a de ser jornalista. Na Faculdade Santa Marcelina, ele tinha uma colega que havia feito jornalismo e com quem conversava bastante a respeito do assunto. Seu interesse por jornais também cresceu bastante nesse período: “Pensava que, se pudesse, faria isso o dia inteiro”. Além disso, Filipe sempre gostou de escrever. “Sempre escrevi bem no colégio, mas nunca escrevi espontaneamente. Criei um blog, mas nunca escrevi texto nenhum. Se eu não tiver um prazo, não adianta”, explica. Decidiu investir no jornalismo mesmo assim: em outubro de 2010 se inscreveu no programa de trainees da Folha de S. Paulo.

Inclusão degenerativa

Mas a resposta demorou a vir. Logo, começou a se inscrever para diferentes projetos que inserem pessoas com deficiências no mercado de trabalho. “Quando viam que eu tinha estudado música, falavam ‘melhor não’”, lembra, em meio a risos. Inscreveu-se também para um cursinho pré-vestibular, onde estudou por cerca de três meses. Alguns episódios que ocorreram no cursinho o deixaram bem chateado. Num deles a coordenação se recusou a imprimir as apostilas com as letras em fontes maiores. Como Filipe só consegue ler com a ajuda de sua lupa eletrônica – que ilumina o texto e o aumenta consideravelmente –, os materiais precisavam ser impressos em fontes maiores para facilitar sua leitura. “Eu pedi um arquivo da apostila em pdf, para que eu pudesse ler no tablet, com zoom, mas eles não quiseram ‘por questões de segurança’. Me dispus até a assinar um termo de responsabilidade, afirmando que não divulgaria o material online nem nada, mas eles não quiseram. E sem material fica complicado acompanhar as aulas.”

Deixou o cursinho quando recebeu a tão esperada ligação da Folha. Como repórter, foi aprendendo um pouco de tudo. “Quando você entra, as vagas não são exatamente as que você quer. Depende muito do que eles estão oferecendo internamente. Eles vão divulgando no mailing o que tem aberto”, explica Filipe. Com isso, ele passou pelas editorias de Equilíbrio, Cotidiano, até que chegou na de Mercado.

Cotidiano equilibrado

Todos as manhãs, antes de sair para trabalhar, Filipe lê as principais notícias em seu tablet. Ele vai andando – com o auxílio de sua bengala – da casa onde mora com a mãe, Giselle, e o irmão três anos mais novo, Guilherme, na Praça da Árvore, até a redação da Folha, no bairro de Santa Cecília. São cerca de 40 minutos de caminhada, mas Filipe não se incomoda, e afirma ao longo de seu trajeto não há muitos empecilhos arquitetônicos. “Mas mesmo assim minha mãe se preocupa, então sempre ligo para ela quando chego no trabalho”, conta.

Ele começou a andar sozinho pelas ruas aos 18 anos e afirma que foi só nesse ponto em que realmente começou a perceber os impactos que a falta parcial de visão poderia causar no seu dia a dia. “Tenho a vantagem de ainda ter um pouquinho da visão. Quando preciso de ajuda geralmente tem alguém por perto para me ajudar, principalmente no metrô. Mas quando não tem ninguém, eu dou um jeito também”, explica.

Na redação da Folha, Filipe tem todos os recursos que precisa para poder trabalhar. A tela de seu computador é maior do que as dos colegas e possui um programa que dá um zoom grande o suficiente para que ele possa ler o que está escrevendo. O repórter consegue fechar seus textos sozinhos, mas não consegue fazer vários ao mesmo tempo. A única página que fica aberta durante a redação de seus textos é a do Google Docs, com dois documentos a disposição: um com sua agenda e outro com as tarefas que precisam ser feitas naquele dia. Filipe é bem organizado, principalmente quando se trata de prazos a serem cumpridos, e tem o costume de começar suas tarefas assim que essas lhe são designadas, pois não gostar de protelar ou atrasar as entregas.

Entre as que ele mais gostou de fazer estão uma sobre a renovação da frota de caminhões no porto de Santos, na qual fez uma espécie de perfil econômico sobre os caminhoneiros, e uma sobre uma bailarina cega. Nesta última – que foi uma pauta que ele mesmo sugeriu –, Filipe passou o dia inteiro com a bailarina: foi até a casa dela, pegou ônibus e foi até as aulas de balé com ela. “Quando eu estava na editoria de Cotidiano tinha mais liberdade para sugerir pautas. Agora no Mercado é mais difícil, são temas muito específicos”, afirma. Mas no Cotidiano Filipe tinha medo de ser mandado para cobrir alguma tragédia. “Pelo menos aqui no Mercado todo mundo é animado, quer abrir uma start up que vai mudar o mundo.”

Folhas ao vento

No começo Filipe não gostava muito da disposição das editorias na redação da Folha. Por ser um grande salão com várias mesas sem divisória própria, todos podem ver o que os outros estão fazendo. Mas aos poucos foi se acostumando. Ele não interage muito com funcionários de outras editorias, “pra ser sincero, no Mercado a gente não interage muito nem entre si”. Como na Folha é tudo muito setorizado, cada um foca em seu trabalho.

O jornal teve diversos cortes de pessoal e editorias desde que Filipe começou a trabalhar lá. Os leitores continuam bem, os anúncios nem tanto: ainda não há um modelo fixo de como fazer o negócio continuar. “Dá um pouco de medo pensar que daqui pra frente não vai ter muito lugar pra gente no mercado de trabalho.” Atualmente, a Folha passa a cobrar o acesso do leitor após a abertura de dez notícias no portal online. “Mas é tão fácil achar em outros lugares, a da Folha teria que ser muito melhor para as pessoas pagarem”, confessa.

Filipe também colabora com textos para o site Guia Inclusivo – o Guia da Pessoa com Deficiência. Em sua coluna de estreia, ele relatou algumas situações típicas que ocorrem no transporte público. Entre elas, um episódio da falta de informação com a ingenuidade:

– Tem aquele tal do braile, né? Uns pontinhos. Uma vez eu vi no elevador e fiquei tentando ler…

– Eu até conheço, sei todas as letras. Aprendi para fazer meu TCC na faculdade. Mas em casa leio usando uma lupa eletrônica. Aumenta bem.

– Olha só! E dá para ver mulher pelada?

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