Dançando para a vida

Meu relógio marcava 17h27min. Conhecendo ele como eu conheço, eu já sabia que iria se atrasar. Lembro de uma vez ele falar em aula que detestava relógio, que só olhava as horas pelo celular, que vivia sem bateria. Para um professor de dança, que da aula em três academias diferentes e integra dois grupos de Street Dance profissional é algo meio inusitado.

Estar de volta à academia que fiz aula durante quase toda a minha vida para conversar com o meu antigo professor foi um desafio para mim. Sinto falta daquele lugar. Ele transforma as pessoas, esquecemos de todos os nossos problemas e ficamos preocupados apenas com a dança lá dentro. Fica tudo do lado de fora da porta de entrada.

Quando o meu relógio marcou exatamente 17h32min Flip Couto entrou na sala. Com aquele sorriso que há muito tempo eu não via, fez com que eu voltasse automaticamente no tempo. Como ele havia se atrasado para a nossa conversa, esperei ele terminar de dar a sua aula para que finalmente pudéssemos conversar.

A aula se iniciou bastante animada, logo no aquecimento o professor já puxa uma coreografia e faz piadas com os alunos a todo o momento. Ali eu pude perceber o quanto ele era querido por todos daquela sala. Quando fiquei ali durante uma hora e meia assistindo a sua aula, foi quando pude perceber o que fazia dele um cara único, alegre, espontâneo e cheio de vida.

Quando a aula chegou ao fim, sentamos no chão da sala para que pudéssemos conversar e ele contar um pouco de sua vida. “Quando eu era pequeno, costumava ficar na garagem ou trancado no meu quarto com o som ligado no último volume, enquanto isso, eu via os outros meninos na rua jogando futebol”. Flip nunca ligou para o que os outros iriam falar ao seu respeito, mas sempre foi julgado por ser um menino que não gostava de futebol, “as pessoas não entendiam porque eu preferia ficar no meu quarto sozinho dançando, minha mãe chegou até a achar que tivesse algo de errado comigo, na época ela não compreendia esse meu jeito, mas hoje ela é a minha maior fã.”.

Ao atingir oito anos, depois de muita conversa dentro de casa, conseguiu convencer seus pais a lhe matricularem em uma escola de dança. Estudou Street Dance e Jazz durante 10 anos, mas se formou apenas no Street Dance. “Nunca fui muito a favor do diploma na nossa área, acho que quando uma pessoa tem talento e nasceu para a dança, não é um diploma que vai mostrar o quanto a pessoa é capacitada.”.

Hoje Flip da aula em três academias diferentes, é membro fundador do grupo Funk Fanáticos e dançarino no grupo Discípulos do Ritmo e costuma viajar bastante pelo Brasil e também para fora do país para participar em competições de dança, “Não há como descrever a ótima sensação que sinto quando vou para algum estado representar o meu grupo e minha dança, o carinho da galera, os gritos, realmente é coisa de outro mundo, não da para acreditar que cada vez mais conseguimos aumentar o nosso grupo de seguidores”.

A última experiência marcante que teve com a dança foi no último São Paulo Fashion Week, a marca de roupas Cavalera convidou o grupo de Flip, Funk Fanáticos, para participar do desfile inspirado no programa da televisão americano dos anos 1970 “Soul Train”, a marca transformou a passarela num programa onde os modelos viraram dançarinos. “Foi uma experiência completamente nova para todos nós, nunca imaginei que um dia estaria em cima de uma passarela no SPFW, no início eu até comentei com a minha amiga, Ju Ramos, que recebi a ligação do pessoal da Cavalera e ela já achou que iríamos ter que desfilar e já estava pensando em pular fora. Só depois que tivemos a reunião com a marca que eles comentaram que queriam um grupo de dança como o nosso para fazer o fundo no desfile. Na hora olhei pra cara da Ju e comecei a rir, nunca a vi tão aliviada.”

Uma hora já havia se passado, mas eu não percebia o tempo passar. A conversa era boa e leve, fora que a saudade que eu estava do meu professor também colaborava na hora de conversar. Foi quando abriram a porta e eu me surpreendi quando vi a minha outra professora de dança parada na porta, Ju Ramos. O Flip tinha combinado um ensaio com naquele dia e ela chegou mais cedo do que o combinado e juntou-se a nós para contar um pouco sobre o professor.

“Quando eu conheci esse cara, ele era o meu professor, até que teve um dia que ele falou que queria conversar comigo depois da aula, que era pra eu ir com ele comer alguma coisa em algum barzinho ali perto da academia, a primeira coisa que eu pensei foi: “esse cara tá me cantando”, mal sabia eu que ele ia me convidar para integrar o grupo dele.”.

Hoje, Flip Couto fala que no futuro pretende focar apenas nos seus grupos de dança. “Sei que vai chegar uma hora que não vou mais ter pique e muito menos idade para continuar dançando, então, pretendo continuar na área só que na parte de administração e divulgação da nossa dança” e Ju completa: “acho que ele vai se dar muito bem fazendo isso, é sempre ele quem arruma os eventos pro Funk Fanáticos e consegue atingir muita gente com a nossa dança.”

Já era noite e eu havia ocupado todo o seu tempo livre. Flip é um cara que encanta e ilumina qualquer lugar que ele entre seu jeito sempre pra cima e a maneira que ele trata suas alunas, amigos e funcionários de qualquer lugar que ele passe. Com um sorriso no rosto, peguei o ônibus na direção da minha casa, com o pensamento de que aquele final de tarde valeu mais a pena do que o meu dia inteiro.

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