Perfil: A solidez almejada na dureza de uma vida como a rocha

Faculdade Cásper Libero;

Aluno: Júlio José Teixeira Duarte Moredo;

Curso: Jornalismo 2º ano B;

Matéria: Técnicas jornalísticas II;

Professor: Sérgio Villas boas.

    Neste perfil, tratarei ainda que sucinta e insuficientemente da vida de meu avô, Silvio do Nascimento Moredo, o escolhido para o desenvolvimento do método e proposta deste trabalho. Devido às dificuldades sucessivas encontradas para a escolha ideal, optei por uma solução simples e longe de ser insatisfatória.

Homem afável, de métodos simples e corteses, com a elegância dos traços calejados de uma trajetória única, Silvio nos convida com seu olhar pequeno e profundo, em sua estatura baixa e voz calma, tal qual sua personalidade, a viajar por um mundo unido por dois oceanos, dois hemisférios em uma única personificação de luta.

Não tão somente por ser meu avô, Silvio me caiu “Como uma luva”, por ser sua história tão singular e ao mesmo tempo tão intima da de muitos imigrantes que escolhem o Brasil como casa, transformando-o em algo diferente, nem melhor nem pior. Com garra, fé, esperança e, acima de tudo, laços familiares de suas origens lusitanas.

Nascido na pequena aldeia de Brunhoso, região de Trás-os-Montes no nordeste português, fronteira com a Espanha, Silvio viveu e conviveu com tempos de guerra misturados com singelos laços da paz em seu bucólico povoado. Permeando por lembranças cruas desse passado remoto, porém vivaz.

Em sua bagagem, “Seu Moredo” traz consigo alegrias e tristezas, sucessos e frustrações, mas nenhum arrependimento. Oriundo de família de pai pedreiro e escultor herdou o gosto pelo oficio como era costume da época, e, junto a seus outros oito irmãos, estudou pouco, trabalhou muito e viu a vida transcorrer por diversos rodamoinhos que o destino lhe pregava, sempre com bom humor, humildade e sabedoria.

O único arrependimento, talvez, diz ele, foi ter tido pouca chance de se aprimorar nos estudos. Dono de uma cultura geral e visão de mundo invejáveis para suas oito décadas de vida, Seu Silvio só cursou escola regular ainda em tempos de Lusitânia – Até o 3º primário. Sonhou ser geógrafo e arquiteto, mas foi pedreiro, escultor, diretor de futebol e empresário, em uma caminhada que só uma vida dinâmica e uma pessoa que sabe encara-la podem proporcionar.

Nesse longo e suficiente tempo, segundo o próprio, ergueu um império empresarial famoso na região norte de São Paulo, a “Granitos Moredo, nome forte perpetuado junto à Paulicéia pelos imensos serviços prestados em obras publicas relevantes para o desenvolvimento que a cidade atravessou nos anos 60-70, obras como o Marco Zero e o Anhangabaú falam por si.

Sua eterna paixão filantrópica, a Lusa, não ficou de lado em quase 20 anos de dedicação ao futebol de base e profissional do Canindé. Feito sócio do clube ainda nos tempo que sua sede era no centro, remontando uma São Paulo quase esquecida em termos de paisagem, tempo e espaço. Tem um nome grafado com letras douradas na história Rubro Verde.

Deixando um pouco de lado suas duas paixões institucionais, “Seu” Silvio me convida para o almoço, metódico para com horários principalmente em refeições, meu avô me passou isso desde a tenra infância, no tom do “Diz-me com quem andas e te direi quem és”, sempre me pareceu um homem sensível a tudo que se passa a sua volta, evitando exageros e comprometimentos pessoais com quem não lhe agrada com totalidade, deixando de maior herança a meus primos e a mim essa sagaz teia de jogo de cintura.

Apaixonado por culinária, nunca soube fritar um “obinho” sequer (nota-se, como não poderia deixar de citar, a persistente dificuldade dos portugueses do norte em pronunciar o V nas palavras, sendo substituídos pelo B, uma clara influência castelhana), porém é aficionado em  experimentar com gana tudo o que a vida lhe reserva diariamente, e, sendo pontual, mesmo que no serviço diário ainda realizado em sua empresa, fica mais fácil de saborear com ele suas histórias em meio ao simplório arroz com feijão (que pra ele cai como Caviar) do refeitório da “Granitos”, alcunha da empresa que elevou seu sobrenome.

Friorento e metódico, após o desjejum, ele carinhosamente descasca com seu canivete antigo uma pera e uma ameixa para a sobremesa, já de volta em sua sala de oficio, oferecendo como de costume aos seus netos sempre a parte mais “carnuda” da iguaria, cobrindo seus pés com mais uma meia guardada na gaveta, o frio, ele jura ser oriundo dos perversos invernos trasmontanos.

Em seguida, continuamos a debater sobre as lendas que se tornaram mito no Canindé, suas idas e vindas com o garoto Enéas ao quartel do exército pós jogo com o Corinthians no Pacaembu (Grande jogador luso na década de 70), do desenrolar regado a dominó dos “Vales e bichos” de atletas como Basílio, Piau, Denner…

Sua participação apressada no célebre título paulista dividido de 1973, em que o Santos de Pelé parou nas contas errôneas do arbitro Armando Marques, que encerrou a partida sem se ter vencedor, ao relembrar, ele, com seu sorriso maroto e  bonachão, garante a mim que foi o primeiro a ordenar que vários jogadores no vestiário da Lusa fossem de cueca para o ônibus, evitando que o mesmo Armando desse conta do equivoco.

Após o delicioso papo (que ele provavelmente já havia esquecido que era para fins jornalísticos e acadêmicos), volta-se a mim apreensivo. Após olhar no relógio turco que ganhou nas inúmeras viagens acompanhando a Portuguesa em excursões mundo afora: “Julinho, está na hora de Passar a Bassoura”, que logicamente para um filho duplo que sou dele, significa inspecionar a área de produção dos blocos de granito e polimento das pedras.

Quatro e meia da tarde: hora de ir embora após a “Bassourada” na produção. Regrado como sempre, ele simplesmente esquece-se de que está comigo e se despede com sua tradicional dureza e estabano ibéricos. Afirmo que o dia junto a ele ainda não havia terminado e que ele poderia ficar tranquilo que hoje o levaria de carro para sua casa no bairro da Vila Maria, bem a tempo de ele dispensar o motorista que já o leva e traz a cinco anos por problemas de visão de meu avô. Problema esse que se iniciou com um fatídico estrabismo que se perpetuou após uma má cirurgia de correção da vista aos 8 anos, em plena 2ª guerra mundial no atrasado Portugal de Salazar, ainda mais no ermo e fronteiriço

Tras-os-Montes.

Cicatrizes físicas que comprovem uma vida bela não seriam necessárias para qualquer parente ou amigo próximo de Silvio, amigos estes que ele tem aos montes, abismaste a quantidade de colegas feitos de Pirituba a Santana, do Bom Retiro ao Brooklin, por essa portuguesada São Paulo afora. A quantidade de conhecidos é tamanha, que uma vez referi seu nome em um boteco no longínquo Rio Pequeno, e o dono portuga o conhecia por apelido. Brinco com o velho SIlvio que se ele usasse o Facebook teria perfil de pessoa publica.

Ao contar-lhe isso mais uma vez em meu carro levando-o pra casa, vaidoso e discreto como de costume, diz-me que isso se deve “A muito trabalho, seriedade e carisma, que só poucos sabem ter para com todos”, concluindo: “Posso não apreciar todos, mas todos apreciam-me”, rindo-se todo depois da filosófica conclusão. Carisma este comprovado em jogos da Lusa, nos que ainda vai ao estádio, meu vô Moredo é simplesmente vereador em campanha por onde passa nas dependências rubro-verdes.

Quase chegando a sua residência, em plena Dutra, pergunto-lhe se há algo que ele gostaria de ter corrigido em suas oito décadas e o comentário é revelador: Se por um lado (e que minha querida avó Judite não leia isso), Silvio é sábio e austero, por outro sempre teve fama de mulherengo entre estes tantos amigos, e, em suas muitas idas e vindas pelo mundo, me confidencia que se apaixonou uma vez por uma gueixa nipônica em Tóquio, gueixa essa que se atraiu com a quantidade de pelos no tórax de meu avô, e que ele prontamente correspondeu com um promiscuo recado ao tradutor na ocasião: “Se ela quiser descer mais um pouco, há muitos outros”. Não tendo, por infortúnio, dinheiro na hora “H”, pois  havia deixado a carteira no hotel (sorte da vovó dessa vez).

Outro (quase) arrependimento, já eu junto ao estacionamento da garagem, é de não ter aconselhado a arquiteta italiana Nina Bo Bardi a escolher uma forma mais pura de granito para adornar o recém-construído MASP nos anos 60, que a Granitos Moredo ajudou a erguer e que ele e Nina foram escolher na pedreira da empresa. “Juro ter visto um bloco mais formoso, quadrado, que demonstraria mais o que é essa cidade maluca, mas ela era doutora, estrela do Chateaubriand, eu era só o pedreiro, Júlio, não palpitei, mas ficou engasgado”.

Não poderia esperar nada além dessa sugestão de meu avô, arquiteto de sonho aconselhando arquiteta doutora para se colocar algo menos artístico e mais vivaz, tal qual a pedra e um ser humano. Caí em mim e percebi ali, coincidentemente na porta do elevador após mais esse “causo”, que minha missão junto ao meu portuga estava concluída.

Consciente ou não, meu avô encerrou seu próprio perfil com mais uma de suas mil lições de vida dadas a mim, como as histórias de fantasmas e lendas portuguesas nas noites em seu sitio (linda infânica), logrou chegar a esse nível de percepção do que foi (e ainda é) a vida para este peculiar patrício luso.

Hoje ainda proprietário de sua fábrica, ele aparenta repensar diariamente sua vida, desde os “Tempos de Rio Tietê limpo”, quando atravessava cinco pontes pênseis ao longo de sua várzea para ir da Vila Maria ao Tatuapé.  Teve apogeu e declínio, e agora, estabilidade para aceitar o que viu e aprendeu da vida.

Com 4 filhos, 6 netos e 3 bisnetos (com o 4º a caminho), cumprimentado cordialmente todo santo dia do operário a secretária, meu vô Silvio é um romântico trovador da popular diligência sem prepotência, viva prova da cidade que ajudou a erguer.

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