A vitória por W.O.

Ele é engenheiro agrônomo e leva uma vida bastante tranquila no interior de São Paulo, porém, claro, nem sempre foi assim.

Wanderley Onorato é filho, neto e sobrinho único. Seu sobrenome foi trazido por antepassados imigrantes italianos em navios que partiam da Itália carregados de esperança de um futuro melhor. Nasceu em 1955 e cresceu com a família por perto em um bairro operário da cidade de São Paulo, cujas ruas, ainda de terra, eram repletas de sobrados. Wanderley relembra com carinho e saudades dos almoços de domingo na casa da avó materna e da gemada matinal no avô paterno. Durante sua infância, frequentou colégio de padres maristas e, inclusive, chegou a ser coroinha da igreja do bairro.

Um episódio, porém, separa sua infância em duas partes. Aos 13 anos, na volta para casa da escola, enquanto se esforçava para capturar uma lagartixa em um poste, viu aquele momento escurecer em questão de segundos. Quando a luz começou a retornar, se deu conta de que não estava mais na mesma rua, em frente ao mesmo poste. Estava, agora, deitado, cercado por pessoas desconhecidas e aparentemente com pressa, preocupadas, olhares atentos em seu rosto – e em seus sinais vitais. Wanderley tinha sido atropelado por um caminhão e ficou gravemente ferido. Conta se lembrar de ter ouvido enfermeiros e médicos comentando o quão impressionante era o fato de ele estar vivo.

Aos 16 anos de idade, já cansado de frequentar a mesma escola de padre, Wanderley se mudou para um colégio do estado: Alexandre de Gusmão. Foi uma experiência totalmente nova – e uma das melhores de sua vida. Escolheu estudar no período noturno, o que o colocou em contato com colegas que já viviam de seu próprio suor. Esses anos de colégio lhe renderam aprendizado, maturidade, boas histórias e amigos melhores ainda.

Naquela época, cursar uma universidade não era tido como prioridade. Se fosse pela vontade de seus pais, Wanderley teria ficado em São Paulo para ajudar a família nos negócios – eles possuíam uma barraca de alimentos variados na feira. Entretanto, foi contra seus pais e demais familiares e decidiu dar um rumo diferente para sua vida.

Um ônibus interestadual levou Wanderley até o Rio de Janeiro para prestar o vestibular da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ). A prova foi aplicada em pleno Maracanã, na parte da tarde, sob um sol de rachar. Mas valeu a pena. Pouco tempo depois, veio o resultado, e ele tinha sido aprovado no curso de Engenharia Agronômica.

Foram 4 meses até se mudar para o Rio de Janeiro. Seus pais o levaram até a cidade e, por questões financeiras, acomodaram seu filho em uma vila do subúrbio carioca chamada Seropédica, nos fundos de uma humilde residência, onde morava um casal de senhores. O local em que passou a habitar era, antes, um galinheiro que foi reformado e serviu de moradia para o estudante durante dois anos.

Sua vida acadêmica não foi nada fácil. Wanderley não recebia ajuda financeira de seus pais, pois eles não estavam em uma situação que permitisse custear o filho em uma cidade cara como o Rio de Janeiro. Por isso, o estudante teve que se virar como pôde. A começar com o aluguel que pagava para o casal de senhores. Para conseguir chegar ao fim de cada mês com o pagamento, o jovem realizava alguns trabalhos em troca de pouco dinheiro. Inicialmente, Wanderley utilizava seu tempo livre trabalhando na própria faculdade. Lavava becker, tubos de ensaio e provetas no laboratório. Essa atividade lhe garantia, também, o café da manhã e o almoço no chamado bandejão. Realizava, paralelamente, alguns outros bicos em comércios da região.

Após dois anos, o estudante conseguiu uma vaga no alojamento da universidade (pois passou a organizar e limpar a sala de leitura da faculdade no período da noite) e finalmente deixou o quartinho onde morava. Para se sustentar, Wanderley passou a realizar outras atividades: juntamente com um amigo, comprou uma máquina de silk screen e, com ela, estampava camisetas, chaveiros e demais objetos para, então, vendê-los; vendia perfume nas proximidades de bordeis até a meia noite. Depois, seguia para boates da cidade onde tirava fotos dos clientes com máquina Polaroid e as vendia.

Wanderley também participou ativamente de diversos movimentos estudantis, além de protestos durante o período militar que marcaram a história. Sentiu na pele o preço da democracia: “Já levei muita borrachada de polícia, fomos perseguidos pela cavalaria, fui levado para interrogatórios em quarteis…”, conta. Entretanto, diz que tudo isso valeu a pena:  viveu o fim do regime militar e o início de uma era marcada pelo direito conquistado da liberdade de expressão.

Quatro anos se passaram e Wanderley, que foi o presidente da comissão de formatura, dava adeus à cidade maravilhosa. De volta para São Paulo, trabalhou em diversas empresas  já na sua área. Foi nessa época que passou a fazer parte de um novo grupo de amigos e, entre eles, estava sua futura esposa.

Wanderley viu sua vida mudar aos poucos. Compreendeu que todo o esforço que já havia feito até ali, estava valendo a pena. Foi quando resolveu dar mais um passo a diante: fez uma segunda graduação em gastronomia e pós-graduação em marketing, atributos que contribuíram para o convite que recebeu para ser professor em um curso de MBA.

Casou-se. A garota mais “espivetada” de seu grupo de amigos tornou-se sua esposa. Com ela, Wanderley teve dois filhos. O mais novo nasceu na mesma época em que foi contratado para trabalhar em uma multinacional de peso, a Monsanto, onde trabalhou por mais de 10 anos. E tudo pareceu que tinha dado certo. Os perrengues enfrentados durante a faculdade serviram como lição e base. Porém, um episódio veio para dividir novamente sua vida em duas partes. Após algumas suspeitas e diversos exames, descobriu-se que sua esposa, Thelma, estava muito doente. O câncer tinha feito uma nova vítima: uma mãe de dois filhos nas idades de 13 e 16 anos. Foram meses lutando contra a doença. Meses frequentando consultórios e hospitais. Meses de pesadelo e sofrimento.

Apesar de todo o esforço feito, em janeiro de 1995, Wanderley e sua família perderam Thelma para o câncer. O fato abalou a família toda, e o engenheiro se viu sozinho, com dois filhos revoltados com a perda da mãe. “Do dia da morte da minha esposa em diante, me tornei uma nova pessoa. Eu tinha dois filhos adolescentes para criar. Sabia que não poderia fraquejar, pois eles precisavam muito de mim. E eu fui em frente”.

Alguns anos se passaram, e Wanderley viu algo acontecendo aos poucos que poderia mudar o rumo de sua vida – novamente. E ele estava certo. Em 1999, o engenheiro casou-se pela segunda vez. Entretanto, não houve a necessidade de conhecer e conquistar a família da noiva, pois já havia o feito: sua nova esposa era prima da primeira. E todos aprovaram o casamento! Especialmente seus filhos.

Atualmente, após já ter morado em cidades como Rio Claro e Goiânia, Wanderley e sua esposa Gilcy moram no interior de São Paulo, em uma cidade chamada Serra Negra. Ele, consultor de negócios e palestrante, atua também no ramo de alimentos. Já casou seus dois – e únicos – filhos e diz esperar ansiosamente pelos netos.

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