O Rei da Paulista

Do seu palco de 2 metros quadrados montado na calçada da Avenida Paulista, sua voz ecoa embalada por sua personalidade carismática, de fazer o trânsito parar. E não é figura de linguagem, todo motorista de ônibus que tem a sorte de pegar o sinal fechado próximo ao seu palco, aproxima-se, buzinando, e abre a porta do veículo, para que Elvis, como um rei, entre nele e abençoe com sua graça o resto da viagem.

O homem em questão é um homem de cabelos negros, que ele jura não pintar, estatura charmosamente abaixo da média, de muitos sotaques, que variam de acordo com o humor – o carioca, o paulista, o mineiro, o gaúcho -, todos bagagem de suas incontáveis viagens pelo Brasil e reflexo de sua personalidade camaleônica. Seu nome? Márcio Aguiar.

Márcio nasceu em São Paulo, mas ainda pequeno mudou-se com os pais para Minas Gerais. Foi criado numa pequena cidade do interior mineiro chamada Itapiraí, onde seu pai tinha uma farmácia. Filho de fiéis da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Márcio conta que teve uma infância reprimida, pois seus pais o obrigavam a seguir à risca os dogmas da religião, que ele desgostava.

Somente aos 25 anos teve seu primeiro contato com a música, quando tomou as primeiras aulas de violão. Nos anos que se seguiram, tocou numa dupla sertaneja em Araxá, no Triângulo Mineiro, até que no final de 2008, com o surgimento do sertanejo universitário – gênero para o qual Márcio faz uma longa divagação, culminando na resolução de que se trata de uma “grande jogada de marketing para vender música sertaneja para as elites” – Márcio decidiu mudar de estilo.

Como não gostava muito das técnicas do novo gênero, e cada vez havia menos espaço para o sertanejo de raiz, Marcio viu que precisava investir em algo novo. “Um dia apareceu uma senhora que fazia teatro e me ofereceu um papel de caipira. Eu topei, e aproveitei para pedir a chance de apresentar meu quadro dos ‘50 personagens’.

Os ‘50 personagens’ tratava-se de um quadro que Márcio vinha desenvolvendo há algum tempo, inspirado nos trabalhos de Tom Cavalcante e do Carioca, do Pânico, em que fazia imitações do caipira, do Lula e do próprio Tom.

Foi então que Marcio teve seu primeiro show de comédia, no Grande Hotel do Barreiro, um projeto faraônico erguido na pequena cidade de Araxá. O sucesso do quadro de Márcio foi tão grande, que logo começou a ser tratado como superstar. “Eu amo aquele lugar, tinha uma vida de príncipe lá dentro, mas chegou um momento que eu não tinha mais como crescer lá. Me deparei com a música do “Raulzão” [Seixas]: ‘eu que não me sento na boca de um apartamento, com a boca escancarada de dentes, esperando a morte chegar’. Lá foi só o início de minha carreira.”

Embalado pelo sucesso do quadro, Márcio interrompeu sua carreira de músico para investir na carreira teatral, e decidiu voltar para São Paulo. Vendeu tudo o que tinha, ficou apenas com um violão e começou a apresentar no bar Charme da Paulista seus covers de Dinho Ouro Preto e de seu grande ídolo, Raul Seixas.

Dinho foi o primeiro personagem que Márcio apresentou nas ruas paulistanas , e lhe rendeu uma matéria na SPTV, que cobriu sua apresentação como cover do cantor paranaense durante a corrida de São Silvestre.

Já com Seixas, a ligação não é só artística, é transcendental. Assim como o cantor baiano, Márcio tem um grande interesse por filosofia – diz ter lido três mil livros, “muitos somente folheados” e ter mudado sua forma de ver a sociedade depois que conheceu Rousseau. Além do mais, nada define melhor Márcio Aguiar do que aquela metamorfose imortalizada na obra de Seixas. Se ontem foi cantor, hoje é performancer, amanhã quem sabe filósofo.

O tempo também é algo peculiar em Márcio. Não existem anos, datas, meses. Sua cronologia se baseia nos grandes eventos de sua vida, em suas memórias mais vivas, mais presentes, fazendo de suas experiências, seu tempo-rei.

Como todo artista, Márcio gosta de ser reconhecido e adorado, mas como ele mesmo diz, não faz arte pela fama, faz arte por “dar forma à expressão”. Diz apreciar o reconhecimento material, ou “jabá” como ele denomina o dinheiro, mas seu maior orgulho é o carinho do público e ter seu trabalho divulgado na mídia. “Em 2011, passei um período afastado por questões familiares e quase entrei em depressão, aparecer na mídia me faz bem, me mantém vivo”, lembra Márcio.

Sua primeira aparição na TV foi no programa Fantástico, numa matéria que falava sobre os artistas de rua no quadro “Profissão Repórter”. A partir de então Márcio apareceu em matérias nos jornais Folha de São Paulo, Estadão, e participou de um programa ao vivo na Rádio Gazeta.

Pedro Vaz, gerente da emissora, foi um dos primeiros jornalistas a dar espaço para Márcio na mídia. Segundo Pedro, o que mais lhe chamou a atenção em Márcio foi o capricho que o artista tem com o personagem, com o vestuário, e com o palco. “Ele faz um trabalho na calçada, a céu aberto e ao mesmo tempo ele transforma a calçada num palco como o de um teatro. Eu fico imaginando se ele estivesse no palco do Teatro Municipal, tenho certeza que ele faria a mesma coisa. Como ouvi uma vez de uma outra artista de rua, ‘quando a gente perde o teatro, a gente ganha as estrelas’, e isso acontece com o Márcio, ele não tem telhado mas tem o céu, as estrelas”.

Pedro conheceu Márcio em 2011 quando este fazia sua primeira aparição como Elvis. Repetindo a façanha do ano anterior, Márcio decidiu participar novamente da corrida de São Silvestre, mas desta vez representando o rei do rock. Enquanto caminhava pela Av. Paulista, vestindo um macacão branco à moda de Presley, com seu violão nos braços, cantando It’s now or never, Márcio despertou a atenção de Pedro, que o convidou a participar de seu programa na Rádio Gazeta.

Mas esse mise-en-scène é só uma parte de sua popularidade. Não importa a hora do dia, seu palco estará rodeado de espectadores e fãs. São pessoas que, encantadas com o carisma de Márcio, não perdem uma apresentação. Faça chuva, ou faça sol estão lá, ao redor de seu palco, abastecendo a garrafa do “rei” com água, e dando os gritos mais empolgados na multidão.

Marli é um desses fãs. A senhora de em torno de 60 anos, fã dos Beatles e de Elvis, o Presley mesmo, diz ser a fã número 1 de Márcio – que a apelidou de “mãe da Paulista”-, e o idolatra por sua pessoa e por sua arte. “A simplicidade, a humildade, a bondade no coração do Márcio, entraram no meu coração e na minha alma, e isso me prendeu, fazendo um laço de amizade que ele [Márcio] fala que vai durar pra sempre. Se deus quiser vai ser assim, porque Márcio é uma pessoa digna, sincera, talentosa, acima de tudo”, declara Marli orgulhosa.

Márcio, que se apresenta na Avenida Paulista desde outubro de 2012, diz que estar em seu pequeno palco é sua grande alegria. “Quando estou aqui é uma criança que desperta em mim, quando acaba fico muito triste. Não gosto de fazer shows particulares, se não vou com a cara da pessoa. Faço arte pela arte. Não tenho a intenção de ficar rico. Aqui ganho o suficiente pra pagar minhas contas e os custos do figurino e do cenário.”

Vaidoso, Márcio faz questão de usar figurinos inspirados nos macacões originais de Presley. São peças em sua maioria garimpadas em lojas especializadas, com valores que giram em torno de dois mil reais, enquanto alguns são encomendas exclusivas – como é o caso do modelo “Aloha Eagle”, feito todo de cetim branco e pedrarias – que o cantor confessa lavar à mão, com a ajuda de uma escova de dentes após cada apresentação.

Mas Márcio não se limita a imitar Presley. Há algum tempo decidiu inovar em sua performance e introduziu algumas músicas sertanejas, como o hit “Camaro Amarelo”, ao repertório de sua apresentação. O que a princípio parecia uma receita para o desastre, tornou-se uma febre entre os espectadores, que diante da comicidade da apresentação riem e aplaudem seu hibridismo artístico. “Enquanto eu estiver aqui, fazendo os passos do Elvis, eu estou fazendo uma reprodução. Agora, quando eu subo nesta lixeira (ele escala a lixeira) e começo a cantar o “Camaro Amarelo” e pulo dentro do ônibus com uma capa de Superman, aí eu sou artista. Você já viu em algum lugar do mundo o Elvis Presley cantar sertanejo universitário?”

Hoje com quarenta anos, “4.0” como ele diz, Márcio mora com sua mãe adotiva – uma senhora de filosofia krishna que o adotou logo que chegou a São Paulo –, estuda artes cênicas, e confessa não ter planos ambiciosos para o futuro. Seu objetivo é todo dia poder trazer o novo, inovar sua experiência estética, e quem sabe trabalhar com teatro ou cinema.

Homem, artista, filósofo, e poeta, Márcio personifica todas as facetas que compõem sua personalidade. É um homem extrovertido, simpático e conversador, que de cima de seus 1,70 metros (incrementados por mais 5cm do salto de suas botas brancas) dá graça à cidade com seu talento.

Márcio Aguiar, o Elvis da Paulista é assim, meio homem, meio mito, como o próprio Rei.

O SUS em coma

1. Quero propor uma reportagem temática sobre a administração dos prontos-socorros do centro de São Paulo.
2. Há um ano utilizo o sistema público de saúde da cidade de São Paulo, e tive a oportunidade de experimentar/presenciar situações de descaso para com o cidadão como usuário assim como contribuinte.

3. Tenho curiosidade em saber o custo real e o custo declarado da construção do AMA da Sé durante o governo Kassab, a falta de diversos exames básicos na instituição, as carências estruturais, o processo de compra e liberação de equipamentos e medicamentos pela SMS. O processo de aprovação de compra de equipamentos e a administração do dinheiro público voltado para a saúde.
4. Se fosse começar tudo por uma pergunta bem aberta, qual pergunta eu me faria? Perguntaria para o responsável administrativo da SMS se ele já presenciou um senhor de mais de 80 anos chorando porque não agüentava mais ficar sentado num corredor de hospital numa cadeira de rodas, por falta de leitos, sendo que na entrada de tal instituição encontram-se paradas há dois meses 19 macas hospitalares, novas e em desuso por questões burocráticas?
5. Que fontes (obras e pessoas) poderiam me ajudar a respondê-la? A administradora do PSBF, o médico que me atendeu no AMA da Sé, algum responsável administrativo da SMS.
6. O que acho que há de especial nesta minha proposta? Vivemos num país em que o cidadão evita usufruir de seu direito à saúde devido à degradação do SUS causado pela corrupção político-administrativa e potencializada pelo lobby da saúde privada. Com um mínimo de cobrança e custodia sobre a administração do dinheiro público destinado a este setor, poderíamos reverter um quadro de descaso a este sistema social e torná-lo de qualidade.

Tema: Sociedade

Viés: Saúde

Foco: SUS