De preferência, sempre sorrindo

Celestino Angelo Vivian, 63 anos, de origem italiana, é natural de Guaporé (RS), filho de Maximiliano Vivian e Maria Ghisleri Vivian. Cursou o antigo Ginásio e o Colegial em internatos. Pretendia seguir a carreira religiosa, mas esta foi abandonada em 1974, após se graduar em Filosofia. Ingressou na Folha de S. Paulo em 1974, onde permaneceu por 26 anos, até o final de 2001. Graduou-se em Jornalismo em 1978. Hoje, aposentado, é diretor da Agência de Comunicação Integrada. Nossos encontros ao todo somam por volta de 4 horas.

O personagem, nascido de uma família humilde na serra gaúcha, onde, como disse, “plantava-se milho com espingarda e colhia-se as espigas a laço”– uma alusão aos morros da região –, jamais teria imaginado que um dia chegaria à rua Barão de Limeira, 425, a sede do jornal  Folha de S.Paulo na capital paulista. Trabalhou também na Rádio 9 de Julho e no Diário do Grande ABC e, como voluntário, em dezenas de comunidades carentes do interior de São Paulo e da região metropolitana. Hoje, em uma agência de comunicação, onde escreve artigos para uma dezena de clientes e é responsável pelas análises de mídia na área política, tem como lema “ajudar a todos e distribuir conhecimento”, a exemplo dos muitos que o ajudaram a ser o jornalista e o ser humano que é.

Da infância pobre, em meio à comunidade de origem italiana (aprendeu a falar português com 7 anos), algumas lembranças marcantes: da família de 9 irmãos, apenas o último nasceu em um hospital. Perdeu uma irmã de 3 meses, por engasgo, e um irmão de 12 anos, de meningite. Aos cinco anos, segurando uma abóbora com a mão esquerda e usando um facão na direita, um golpe certeiro para partir o fruto levou junto parte do polegar da mão esquerda. “Acho que somente me faz falta para matar pulgas”, comenta com uma boa risada. Em maio de 1956, a família migrou para o oeste de Santa Catarina, em busca de terras mais férteis. Tempos difíceis, sem geladeira, sem água encanada, sem banheiro dentro de casa, sem luz elétrica. Mas teve a ventura de frequentar uma escola de manhã. Na roça, somente ia à tarde. Aos 11 anos, deixou para trás os pais e os irmãos e foi estudar em um internato no Rio Grande do Sul. Nunca mais voltou para casa… apenas nas férias.

Foi o início da mudança e da aquisição de uma sólida formação, em todos os aspectos – cultural, moral, ética. Lembra que, nas aulas de português, foi obrigado a passar a obra “Os Lusíadas”, de Camões, de verso para prosa e a traduzir do italiano para o português a “Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Da infância e juventude, mesmo com o parco acesso a informações imposto pelo Internato, tem vaga lembrança do suicídio de Getúlio em 1954, mas recorda com vibração da fundação de Brasília por Juscelino, da campanha presidencial de 1960, opondo Jânio Quadros ao Marechal Lott – “lembro como disputávamos a tapas a vassourinha do Jânio e a espada de Lott. Parecíamos ‘gente’ com aqueles ícones presos a camisas surradas”. Diz ter chorado com o assassinato de John Kennedy, em 22 de novembro de 1963. “Éramos levados a cultuar o poderio militar e econômico norte-americano e víamos em Kennedy um protetor contra as reformas nacionalistas de John Goulart”. Meio sem jeito, afirma que “só acordei para a importância do governo Jango e suas reformas, com seus ministros Santiago Dantas e Celso Furtado, após o golpe militar de 31 de março de 1964”. Sobre o golpe: “Haviam me dito que foi a vitória do país católico contra os comunistas, vitória da Marcha da Família com Deus e pela Liberdade. Foi necessário um choque para entender o que de fato tinha acontecido no país.

“Sair do interior gaúcho, da calmaria dos Pampas sem fim, e desembarcar na Estação Rodoviária da Praça Júlio Prestes, em São Paulo, foi em todos os sentidos uma experiência traumática”. A começar pela chegada, em junho de 1968. “Nunca havia visto uma escada rolante. Havia uma lá na antiga rodoviária, ligando o térreo ao primeiro andar, Consegui embarcar. Mas, quando vi os degraus sumindo… dei um salto e acabei atingindo duramente o calcanhar da pessoa à minha frente. Um vexame”.

Mas isso não foi nada comparado ao choque político e cultural. Podia ver TV, ler jornais e revistas, ir ao cinema, sem restrições. Castelo Branco havia morrido um ano antes em um acidente aéreo nunca bem explicado e Arthur da Costa e Silva se apresentava diariamente disposto a enfrentar os protestos contra o regime, vindos em particular do meio estudantil. Os atos subversivos se multiplicavam. “Você recorda do assassinato do estudante secundarista Edson Luis de Lima Souto no Rio? Foi a primeira vez que meu sangue ferveu contra a ditadura. Deu uma vontade louca de estar no meio daqueles 100 mil estudantes que foram às ruas protestar contra a morte do Edson, em 26 de junho. Logo depois veio o Congresso da UNE em Ibiúna, aqui em São Paulo, duramente reprimido.”

Passava os dias estudando e se preparando para o início do Curso de Filosofia (1969-1972). A Congregação religiosa a que pertencia garantia casa e comida. Tinha tempo de ler os jornais, ouvir rádio, assistir à TV, de conversar com as pessoas. “Foi um mergulho na dura realidade do país, nada parecido com a paz, ou ‘alienação’ involuntária lá dos Pampas. Em 13 de dezembro de 1968 veio o Ato Institucional nº 5, que fez os opositores do regime quase ‘sentirem saudades’ do AI-2 de outubro de 1965, que extinguiu os partidos políticos e implantou o bipartidarismo (Arena e MDB). Com o AI-5 veio o fechamento do Congresso, vieram as cassações, se instalou a repressão, multiplicaram-se as prisões indiscriminadas, a tortura. Era o início do período conhecido como ‘anos de chumbo’ da ditadura. “Com 19 anos, passei a respirar política. Se antes havia chorado com a morte de Kennedy, assisti com certo prazer à façanha do MR-8 de sequestrar o embaixador Charles Burle Elbrick, em setembro de 1969”.

O curso de Filosofia deu embasamento a ações e incentivou o envolvimento. “Nos finais de semana trabalhava em comunidades carentes da periferia, como no bairro do Grajaú, na zona Sul da capital, na nascente favela de Heliópolis, no Sacomã – eram menos de 300 barracos em 1970 – ou em Vicente de Carvalho (Itapema), na Baixada Santista. Enquanto o governo Médici combatia a guerrilha urbana e rural, contra o grupo de Marighella em São Paulo e contra os insurgentes do Araguaia, pelo menos dava para espalhar um grito de ‘queremos democracia’ entre os mais pobres”. Mas, “por incrível que pareça, Médici reabriu o Congresso, não cassou ninguém e ainda conseguiu razoável crescimento econômico. Era o ‘Milagre Brasileiro’. As pessoas puderam comprar geladeira, vibraram com a conquista da Copa de 70, vista em cores pela TV. Um ambiente de ‘pão e circo’ conseguia esconder da população os horrores do DOI-Codi.”

Concluído o Curso de Filosofia e mais dois anos de Teologia, “a Congregação a que servia decidiu me mandar estudar no Canadá e ficar trabalhando por lá pelo resto da vida. Disse não, queria ficar no Brasil. Abandonei a carreira religiosa e no finalzinho de 1974 ingressei na Folha de S. Paulo”, quando Ernesto Geisel já estava no comando. O ambiente no jornal era maravilhoso. Tive a felicidade de conhecer o saudoso Cláudio Abramo, que foi obrigado pelos militares a deixar o jornal, em 1979”.

O trabalho inicial foi no Banco de Dados da Folha. Mas ganhava apenas o suficiente para pagar o cursinho da Casper Líbero (1975) e depois a faculdade de Jornalismo (1976-1978). O aluguel era dividido com amigos. Comer? Quando alguém ajudava ou alguma coleguinha dividia o lanche trazido de casa. Como uma dessas coleguinhas, a Sandra, ele está casado há quase 32 anos. “Passei fome. Ainda bem que na época o abacate era baratíssimo e sempre se dava um jeito de conseguir um pouco de açúcar nos bares da Barão de Limeira”.

Terminada a faculdade, a vida mudou a partir de 1979. Pulou para a revisão da Folha, à noite, das 21h até 1h40 (na época, 90 jornalistas trabalhavam na revisão), e de dia trabalhava no Diário do Grande ABC). “Meu Deus, dois salários, mesmo dormindo apenas quatro horas por noite. Fiz um pé-de-meia e já em 1980 consegui dar entrada em um pequeno apartamento na Casa Verde. Estou por lá até hoje, perto do Estadão.”

No final de 1980, já no governo de João Figueiredo, ingressou na Redação. Passou em primeiro lugar no primeiro concurso interno realizado pela Folha e foi disputado pelas editorias de Cotidiano, então comandada por Carlos Eduardo Lins e Silva, e de Internacional, sob o comando de João Batista Natali, recém-chegado de Paris. Ficou na última. Ainda hoje se emociona com o apoio e a compreensão do Natali, que considera seu mestre e grande incentivador.

A Folha do início dos anos 80, com Boris Casoy e o recém-formado Otavinho – ainda hoje no comando da Redação –, respirava a luta pela redemocratização do país. Essa luta culminou na defesa incondicional das Diretas Já, na cobertura emocionante dos grandes comícios. “Mesmo com a derrota da Emenda Dante – choramos muito naquele dia – e a eleição indireta de Tancredo Neves contra Maluf, vivia-se um clima de extrema euforia e vibração com o fim do regime militar. Pena que Tancredo tenha levado para o túmulo parte de nossa expectativa de rápidas mudanças.”

Da editoria de Internacional, já como subeditor, muitas memórias e a convivência com grandes mestres do Jornalismo como Clóvis Rossi, Paulo Francis, Geraldo Mello Mourão, entre tantos outros. Foi um período riquíssimo em coberturas, ao lado do Natali (aposentado), do Caio Blinder, ainda no Manhattan Connection, do José Abex etc. Como esquecer os cadernos especiais de mais de dez páginas sobre a explosão da Challenger, sobre o desastre nuclear de Chernobyl, sobre a queda do regime militar na Argentina, sobre as negociações de desarmamento entre os EUA e a então URSS? “Armas nucleares” foi sua especialização no período da Guerra Fria.

Há muitas outras histórias, como a do primeiro dia na editoria de Internacional. O subeditor Jaime Klintowitz, hoje editor-executivo de Veja, pediu que fizesse um texto sobre a guerra civil na Nicarágua. Usava-se então a boa máquina de escrever. Primeira tentativa e Jaime sentenciou: está uma bosta. Segunda tentativa: está uma merda. Diante das lágrimas e do desespero, veio a ajuda do Marcão (Marco Antonio Escobar). Em cinco minutos fez um texto de 20 linhas, repassou-o sob a mesa. Era a terceira tentativa: Está ótimo, disse o Jaime. E nunca soube se o subeditor soube da verdade.

Da Editoria de Exterior, pulou para a Primeira Página, com Caio Túlio Costa e o grande mestre em edição, o “seu Domingos”. A partir de 1992, vieram os projetos especiais – com emoção citou três: Projeto de informação por navegação sobre o plebiscito de 1993 (Presidencialismo, Parlamentarismo, Monarquia); a produção dos fascículos encartados nas edições dominicais (fizeram a tiragem saltar de pouco mais de 400 mil para mais de 1 milhão de exemplares aos domingos); e a criação do serviço noticioso de tempo real, o FolhaNews.

A mensagem de Celestino que pude captar é simples e direta. O exercício do Jornalismo é apaixonante. É uma construção diária da própria vida. Segredos do sucesso: humildade perante os fatos, perante as fontes e perante os colegas; busca incessante do conhecimento através da leitura, muita leitura, e de viagens; dedicação em tudo e com todos; não ter medo do trabalho.

Aos mais jovens, três recados: escrever aprende-se escrevendo; caso haja dificuldades com o idioma, o melhor é comprar uma boa gramática e estudar; é fundamental buscar uma especialização e procurar estar sempre feliz e sereno, de preferência sorrindo.

Troca do personagem para o perfil

Professor, devido a impossibilidade de encontrar o meu escolhido para realização do perfil, ele está hospitalizado e a família não autorizou que eu o visitasse, fui obrigada a mudar a personagem.

O depoente é Celestino Angelo Vivian, 63 anos, de origem italiana, é natural de Guaporé (RS), filho de Maximiliano Vivian e Maria Ghisleri Vivian. Cursou o antigo Ginásio e o Colegial em internatos. Pretendia seguir a carreira religiosa, mas esta foi abandonada em 1974, após se graduar em Filosofia. Ingressou na Folha de S. Paulo em 1974, onde permaneceu por 26 anos, até o final de 2001. Graduou-se em Jornalismo em 1978. Hoje, aposentado, é diretor da Agência de Comunicação. Nossos encontros ao todo somam umas 4 horas.

Seu Toninho

O que diferencia um indivíduo no meio de uma multidão? O que faz com que paremos cinco minutos numa uma rotina pesada, realidade da maioria dos paulistanos, para observar uma pessoa?

São essas as perguntas que me fiz ao definir a escolha da pessoa que gostaria de perfilar, de ouvir um pouco mais de sua história, o que ela quiser contar, de descrever seus gestos e trejeitos, de escutar a voz que irá narrar uma vida inteira ou somente o que lhe for conveniente.

Bom, foi em uma de minhas andanças pela cidade de São Paulo, mais especificamente no coração dela, o centro, que um senhor me encontrou. Eu estava fotografando a esmo sem a menor pretensão, mas tinha em mãos uma câmera analógica. Foi  isso que o aproximou de mim. Esse senhor, o Seu Toninho, é conhecido e querido na Praça da República, mais precisamente na feira de artesanatos. Está lá todos os domingos, faça chuva ou sol, com sua câmera também analógica.

O que eu sei é pouco, mas é justamente por esse motivo que gostaria de ter a oportunidade de conhecer quem é o Seu Toninho, fotógrafo há mais de 50 anos da mesma cidade. Daqui nunca saiu. É marido dedicado de uma esposa que hoje custa a lembrar quem  ele é . Os olhos dele brilham ao falar das fotos que faz, da arte da revelação que diz não dominar, da mulher que foi sua única paixão, dos amigos da praça, da vida.

Além de todas essas paixões, que eu compartilho com Seu Toninho, me interesso pelo o que ele pode contar em relação à transformação que a cidade de São Paulo sofreu ao longo desses 50 anos, como a paisagem urbana foi se alterando e se transformando – das casas à cidade vertical, um mar de edifícios. Qual é a anatomia da relação fotógrafo, cidadão e observador? Aparentemente é uma pessoa um tanto quanto simples, talvez óbvia. Mas, pessoalmente, numa época de tanto rebuscamento, eu prefiro o simples. Sinto falta dos clichês.

 

O Brasil muda e já sabe aonde quer chegar

Como surgiu e ganhou força o projeto de homogeneização da sociedade de classes

Ano 2000 no Brasil. O século 21 finalmente chegara e com ele as centenas de promessas pessoais e coletivas, embaladas pela expectativa de um mundo diferente, de uma sociedade renovada, mas que ainda matem as históricas diferenças entre classes sociais.  Ao sepultar, como num passe de mágica, as previsões sobre o fim do mundo anunciadas de tempos em tempos pelos catastrofistas de plantão, nascia a esperança de um mundo novo, de um mundo melhor, que deveria ter o ser humano em todas as suas dimensões como centro das atenções.

Estamos em 2013. Passados treze anos, temos a certeza de que é preciso pensar na possibilidade de vivermos em mundo com mais justiça social, de acesso universalizado ao consumo, sem as históricas divisões de classes. Assistimos à derrocada de um “templo” do consumo, a Daslu, na capital paulista e, ao mesmo tempo, a incorporação das classes C e D no mercado consumidor.

Na linha dessa reflexão sobre um “mundo novo” e “fim do mundo”, pululam as teorias, novas ou com cheiro de mofo, tentando explicar o colapso de uma sociedade em uma era onde o progresso e a tecnologia parecem ser a única coisa que conta. É nesse cenário caótico de perspectivas impalpáveis que estamos tentando encaixar o ser humano e seu imaginário social, obviamente ainda turvo e deturpado por esse caos anunciado.

“Atravessamos um período, no qual a sociedade aposta em um Brasil, diferente, um país mais forte e mais justo”, diz o filósofo e jornalista Celestino Vivian. “Há no ar uma percepção de que todos, da criança ao idoso, passando pelas gerações jovens, estão pensando mais a nação, seja do ponto de vista político e econômico, como a partir de uma nova dimensão social e cultural.” E isso não é apenas resultado dos grandes eventos que colocarão o País em lugar de grande visibilidade no cenário internacional – Jornada Mundial da Juventude, Copa do Mundo e Olimpíada. “É, acima de tudo, resultado de uma nação que quer pensar os seus destinos, começando a dizer por onde quer caminhar e aonde quer chegar”, conclui Celestino.

Teorizando esse cenário de mudança e pensando na composição do imaginário social, temos que ele é considerado um conjunto de relações imagéticas que atuam como memória afetivo-social de uma cultura, um substrato ideológico mantido pela comunidade. Concluímos então que o imaginário social tem uma construção coletiva, já que é o depositário da memória que a família e os grupos recolhem de seus contatos com o cotidiano. Nessa dimensão, identificamos as diferentes percepções dos atores em relação a si mesmos e de uns em relação aos outros, ou seja, como eles se visualizam como partes de uma coletividade em transformação.

Bronislaw Baczko, filósofo polonês do século 20, assinala que é por meio do imaginário que se podem atingir as aspirações, os medos e as esperanças de um povo. É nele que as sociedades esboçam suas identidades e objetivos, detectam seus inimigos e, ainda, organizam seu passado, presente e futuro. O imaginário social expressa-se por ideologias e utopias, e também por símbolos, alegorias, rituais e mitos. Tais elementos plasmam visões de mundo e modelam condutas e estilos de vida, em movimentos contínuos ou descontínuos de preservação da ordem vigente ou de introdução de mudanças.

O imaginário não é apenas cópia do real. Seu veio simbólico agencia sentidos, em imagens expressivas. A imaginação liberta-nos da evidência do presente imediato, motivando-nos a explorar possibilidades que virtualmente existem e que devem ser realizadas. O real não é só um conjunto de fatos que oprime. Ele pode ser reciclado em novos patamares. O itinerário simbólico para a construção do imaginário social depende do fluxo comunicacional entre o emissor (que emite uma concepção de mundo integrada a seus objetivos estratégicos) e o receptor (que a decodifica ou não). São polos inseparáveis da organização estruturadora dos sentidos.

Nesse contexto das ideias de Bronislaw Baczko, no qual o imaginário social é uma construção coletiva, é possível então o fenômeno de massificação da sociedade contemporânea. As reflexões aqui apresentadas nasceram ainda no século XX, a partir das reflexões dos teóricos da Escola de Frankfurt, particularmente Adorno e Horkheimer, e foram desenvolvidas por Jean Baudrillard. Podem com grande proveito, ser aplicadas ao contexto histórico atual.

Afinal, vivemos uma realidade pautada pela completa inversão dos valores, onde o ser humano tem se reduzido, cada vez mais, a um objeto sujeito aos caprichos e interesses do capitalismo e da lógica mercadológica. Sua condição de alienação é tão profunda e latente que ele nem sequer consegue imaginar uma existência diferente da que vive. Podemos dizer que ele perdeu sua capacidade criativa.

Com essa breve análise sobre o imaginário social e o fenômeno da massificação pode-se visualizar que a sociedade no geral vem sofrendo um processo, ainda que incompleto, de homogeneização. Os estudos sobre as classes sociais e as desigualdades discrepantes em relação aos sonhos e aspirações de cada indivíduo podem ser equiparados no momento em que tentamos sair de cenário de classes e passamos ao que chamamos de sociedade de consumo, mas em ambiente socioeconômico mais justo. É uma transformação profunda e também difícil. Talvez Albert Einstein tenha vislumbrado um momento como esse com sua frase dita na primeira metade do século passado: “Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.

A virada começou no final dos anos 80

Com a imensa mobilização popular em torno da campanha pelas Diretas Já, que marcou o fim do regime militar, em 1985, a população brasileira e os jovens da época escancararam seu grito por mudanças, represado durante os 20 anos da ditadura. Logo depois, veio a Constituição cidadã de 1988, que criou as bases legais para um novo Brasil, mais justo com cada um de seus cidadãos. Em seguida, veio a decisão de abrir as portas do Brasil para o exterior – mesmo que isso tenha custado a reafirmação do caráter subordinado do capitalismo brasileiro –  inserindo o país no mercado mundial e permitindo o início de um crescimento aparentemente sustentado. Depois, com a estabilização da moeda, criaram-se as bases que permitiram a implantação de um modelo de desenvolvimento capaz de trazer para dentro dele todos os brasileiros, não apenas os mais ricos e aquela chorosa classe média sempre temerosa de perder sua estabilidade e seus privilégios.

Caminhamos depressa na última década. O sonho de mais justiça social que vislumbramos na virada para o século 21 já é uma realidade. As políticas públicas implementadas nos últimos anos conseguiram trazer a imensa maioria dos brasileiros para a sociedade de consumo. São essas condições de quase pleno emprego e distribuição de renda que conseguiram impulsionar a elevação da demanda e, por tabela, o desenvolvimento de uma indústria nacional forte e competitiva. Obviamente, ainda engatinhamos no domínio das modernas tecnologias, capazes de agregar valor aos nossos produtos, tanto os canalizados para o mercado interno como os exportados. Mas estamos avançando.

Pois bem, chegamos a uma sociedade de consumo no seu conceito tradicional, de acordo com a cartilha do capitalismo, lucro a qualquer custo e consumo desenfreado. No entanto, num mundo em busca de um desenvolvimento sustentável e ambientalmente correto, será suficiente ficarmos satisfeitos com a universalização das possibilidades de consumo? Chegou a hora – e esta é a grande mudança que buscamos – de saber distinguir os benefícios de uma sociedade de consumo, com oportunidades iguais para todos, de um modelo consumista.

Consumismo arraigado é sinônimo de ser e poder

Está na hora de suspender esse jogo que estamos jogando sem paradas, essa busca incessante de consumir cada vez mais. Mas não é uma missão fácil dizer a um jovem que chega à sociedade de consumo que o consumismo acabará castrando seus anseios de ascensão social.

Para muitas pessoas, o que ainda vale é a quantidade, a marca, o valor. Cada dia surgem mais produtos e mais “funções” para todos os tipos de mercadoria. O sonho de muitos jovens brasileiros ainda está diretamente relacionado ao poder de compra. Não importa a qual classe pertença esse jovem. Pode ser de classe alta, estudar em colégios excelentes ou de classe baixa, matriculado em colégio público – esse jovem do qual estamos falando tem seus sonhos e objetivos diretamente ligados ao consumo.

Os sonhos convergem para uma mesma direção: obter bens materiais e bens sociais. Há uma consciência de que um dos caminhos para alcançar o objetivo e concretizar sonhos é a educação. Mas quando o jovem trata desse assunto, ele coloca a própria educação como um bem a ser consumido. Todos sonham com um futuro próspero e gostam de utilizar a expressão “viver bem”. É muito comum ouvirmos jovens teorizando que não precisam de muito dinheiro, não querem ser milionários, que apenas querem ter o suficiente para “viver bem”. O que não percebem é que o “viver bem” está totalmente pautado no consumo. Querem consumir saúde, educação, roupas, comida, viagens, lazer, conhecimento. Vivem, diferentemente de outras gerações, uma era de pluralidades, da multifuncionalidade. Não sabem fazer uma coisa de cada vez. Ao mesmo tempo estão lendo, ouvindo música, conectados ao computador, às redes sociais e ainda à TV. Esse é o jovem de hoje, o jovem que consome mais que qualquer outro das gerações anteriores. Tem uma capacidade inexplicável de fazer uma enorme quantidade de coisas ao mesmo tempo.

O documentário Surplus, do diretor Erick Gandini, lançado em 2003, consegue retratar bem o que é essa sociedade de consumo no contexto do mundo contemporâneo. Aprofundando mais a questão, o documentário aborda todo o mecanismo que garante esse consumismo, como, por exemplo, a ideologia difundida de que a tecnologia é uma ferramenta para a aproximação das pessoas, discurso esse que acaba sendo utilizado para o desenvolvimento de mais e mais produtos, que serão os novos aparelhos indispensáveis do momento. Ressalta-se, assim, todo o poder da propaganda que existe nos dias de hoje. Propaganda essa que é realizada não só pelas empresas, mas também pelos governos que precisam garantir que a economia do país continue funcionando em pleno vapor.

Sendo assim, a ideia de que o que é ofertado não necessariamente tem demanda garantida chega a ser questionada pela agressividade da propaganda. É difícil dizer que um computador não é uma necessidade básica para um adulto, adolescente e até mesmo uma criança. O estilo de vida é criado ou redefinido. Quantas vezes deixamos de nos alimentar bem ou dormir direito para realizar alguma tarefa inadiável? Tudo para garantirmos uma estabilidade financeira futura que nos permita ter espaço na sociedade, ou, em outras palavras, que nos permita comprar ou fazer o que quisermos. A ideia do que é necessidade básica para as pessoas é constantemente alterada ao longo do tempo. Não precisamos simplesmente nos alimentar, precisamos nos alimentar de tal forma, comer tal marca de produto, em tal quantidade e assim por diante. Desses pressupostos temos em nossos imaginários a ideia de que quanto mais consumimos, mais livres somos.

Três jovens falam de seus sonhos

Eles vêm de mundos distintos e comprovam a teoria aqui desenvolvida de que a sociedade de classes está convergindo para uma sociedade de consumo, ainda incapaz, porém, de distinguir consumo sustentável de consumismo.

Para uma análise qualitativa e não quantitativa, foram ouvidos jovens de realidades diferentes, porém bem definidas – Fernando Martins, 18, Daniel Lopes,16, e Marcele Teodeschi,16.

O primeiro acabou de completar seus 18 anos e finaliza em 2013 o ensino médio. Mora com os avós em uma comunidade da zona sul de São Paulo. Não conhece seu pai e não tem muito contato com a mãe. Está cursando o terceiro e último ano do ensino médio. Surpreendeu-se com a pergunta inicial – “se você encontrasse o gênio da lâmpada mágica, quais seriam seus três desejos? – e esboçou logo um sorriso. Explico que devem ser desejos específicos e não saúde, amor e paz. Não houve surpresa. Sua resposta está ligada ao consumo, mesmo demorando a se decidir, pois, segundo ele, três pedidos não são suficientes. Finalmente respondeu que pediria uma casa maior e melhor para acomodar a sua família, um carro importado, que ele diz ser seu grande sonho, e um negócio próprio ligado a carros. E concluiu: “Eu não preciso de muito, só quero ter o suficiente para poder ter as minhas coisas sem passar perrengues”.

Daniel Lopes mora com os pais, bancários, na Zona Norte de São Paulo, e estuda em uma escola particular perto de sua casa. Foi mais incisivo. O primeiro desejo seria passar no vestibular da USP – “eu quero fazer uma boa faculdade para poder ser bem-sucedido profissionalmente; quero ser engenheiro; tenho facilidade com matemática e ainda é uma carreira que dá dinheiro”. Os outros pedidos eram de poder viajar o mundo e ter sua casa própria assim que completasse os 18 anos.

Marcele Teodeschi, jovem de classe alta, filha de um médico com uma anestesista, diz ter consciência de que tem de tudo e vive muito bem e que gostaria de manter o padrão de vida que tem hoje. “Eu quero mesmo é viajar o mundo, estou tentando convencer o meu pai de me dar uma dessas passagens em que você pode viajar para até 15 lugares em 6 meses. Assim que eu terminar o colégio, pediria isso para o ‘gênio’”.  Afirma que seria ótimo passar em uma faculdade pública e logo em seguida ganhar o seu carro. Para esses dois últimos desejos, ela diz que talvez nem precise do “gênio”, já que tem a promessa de ganhar o seu tão sonhado carro automático se realmente passar em uma universidade pública.

Eles são bons exemplos de que o sonho do jovem de hoje é muito parecido. Todos são influenciados pela sociedade na qual vivemos hoje, a sociedade de consumo – ou será do consumismo?

No que podemos acreditar

Desse esforço para entender a realidade brasileira e o que pensam as novas gerações, com um olhar no grande sonho de inserir todos os brasileiros na sociedade de consumo, sem cair nas armadilhas do consumismo, é possível chegar, de forma simples e rápida, a três grandes conclusões.

Um país mais igual nos tornaria mais felizes.

O país, nesse movimento de universalização de oportunidades na saúde, na educação, na habitação, no lazer etc., deve abraçar a bandeira da sustentabilidade. Somente assim teremos sempre riquezas para distribuir e compartilhar. A todos cabe a missão de levar nossas famílias, nossos jovens e nossas empresas a abraçar o desafio de reduzir a poluição, de fazer coleta seletiva de lixo, de evitar o desperdício de alimentos, enfim, de salvar a natureza.

O país e cada um de nós precisa acreditar na mudança, em um mundo mais justo e mais sustentável.

O sonho dos jovens de hoje e a sociedade de consumo

Professor Sérgio conforme combinamos em sala de aula, aqui está  a nova pauta:

A ideia é entrevistar jovens do ensino médio de escolas públicas e privadas de diferentes regiões da ciadade de  São Paulo e tentar retratar um pouco quem são esses jovens.

Nas entrevistas faço a seguinte pergunta: “Se você encontrasse o gênio da lâmpada mágica, quais seriam seus três desejos?”

O que eu quero com essa pergunta é falar um pouco sobre os sonhos dos jovens de hoje.

Antes, falava-se muito em sociedade de classe. A minha opinião é que nos dias atuais as classes estão passando por um processo de homogeinização em relação aos sonhos, às aspirações. Estão muito parecidos,  independentemente do nível social. A sociedade de classes acaba se tornando a famosa sociedade de consumo.

A ideia é construir uma reportagem  de caráter interpretativo, baseada nessas conversas e também no confronto de opiniões entre um sociólogo e um historiador (Se é que as visões vão ser muito diferentes).

Nem só de negócios vive a Paulista

As personagens da avenida que se contrapõem ao cenário de engravatados

1)      A proposta da reportagem especial é contar um pouco da história e trazer à tona os principais personagens que frequentam a av. Paulista – desde o hippie que ficou famoso pelos vídeos disponíveis na internet até os dançarinos que aos domingos imitam Michael Jackson em frente a um shopping.

2)      Proponho essa pauta inspirada pelas caminhadas que tenho feito na Paulista e pelo contato que tenho feito com essas pessoas que têm a avenida como um meio de ganhar dinheiro, compondo um cenário peculiar e surpreendente.

3)      A avenida Paulista é tida como uma avenida diferente de todas as outras. Não sem motivo é a preferida para grandes eventos de rua, shows, passeatas e comemorações. Ela tem charme e coração. Ela é como se fosse um pequeno mundo na selva de concreto da cidade de São Paulo. Penso que a magia da Paulista tem muito a ver com esses personagens. São eles e suas histórias que despertam imensa curiosidade.

4)      A pergunta que faço ao propor essa reportagem especial é: “Quem são as pessoas que personificam a av. Paulista?”.

5)      A reportagem estaria fundamentada nas entrevistas com esses personagens (quatro no máximo) e com representantes de associações da região que amparam essas pessoas, muitas vezes artistas de rua, vendedores ambulantes etc. Será imprescindível enriquecer a reportagem com a evolução histórica da avenida antes e após a chegada do metrô.

6)      O que para mim torna a reportagem especial é trabalhar não apenas com os “objetos” (edifícios, parques, museus, lojas, restaurantes, teatros etc.), mas com pessoas, com o encanto dos “personagens” que fazem parte de alguma forma da avenida e que contribuem para ela seja encarada como “mágica” na cidade de São Paulo.

7)      O foco principal é a caracterização humana dos personagens.

8)      Quem faz a Paulista não são apenas os engravatados, ou seja, o mundo dos negócios.

9)      Estabelecer a posição estratégica da avenida. A Paulista ocupa o alto de um espigão, divide o centro dos Jardins. Erraram os que, lá atrás, previram que o surgimento da Faria Lima roubaria o charme da Paulista.

10)   Associação Paulista Viva, São Paulo Turismo (SPTur), síndicos de prédios etc.

11)   Quem seriam esses personagens: Hippie Piauí, o Michael Jackson da Consolação, os equatorianos que tocam no metrô brigadeiro, a banda Chupisco, a mulher que pinta quadros e os expõe em frente ao banco Itaú. Antes da definição das entrevistas, listar as pessoas que são conhecidas na avenida Paulista.

12)   Fazer o levantamento da importância econômica da Paulista, dos negócios que movimenta, das manifestações e eventos anuais que atrai, do cenário natalino que a transforma em pura magia no mês de dezembro etc., para nessa moldura inserir o tema central da reportagem.  Também vale a construção de uma linha do tempo, para destacar a importância histórica da avenida.