Perfil – Erick Noin

O punk não Morreu

Era um hora da tarde quando cheguei ao local marcado, uma padaria, e ele já estava lá, sentado ao balcão tomando uma garrafa de água com gás. Estávamos de frente à praça da Igreja Santa Rita no bairro da Praça da Árvore, Zona Sul de São Paulo. Era um belo dia de sol, e, lá dentro, estávamos protegidos daquele calor. Cumprimentamo-nos, aceno de cabeça, mãos apertadas, palavras trocadas. Ele pediu uma garrafa de Serramalte. Dois copos. Gravador ligado. Uma turma de estudantes uniformizados descia ruidosamente a rua. Começou a falar.

Fábio Uegarte, 42 anos. Branco, careca, magro, cavanhaque. Vestia cuturno e jaqueta de couro, um boné preto por sobre a calva e óculos de sol. Sua moto, uma Suzuki Intruder (moto leve, de apenas 125 cc) estava encostada lá fora, bem próxima a nós. Fábio facilmente seria confundindo com uma pessoa normal, mas, pelo simples fato de ser uma pessoa normal. Um trabalhador, como tantos outros, com sua história de erros e acertos, segundo ele mesmo.

Porém toda ela foi acompanhando um movimento que teve pouca repercussão no Brasil, pelo menos é o que muitos suporiam. Durante sua juventude o punk e o underground, no geral, estavam em alta nas grandes cidades brasileiras, como São Paulo, inserida nas tendências do rock inglês e americano.

Entrou em contato com esse movimento quando tinha dezesseis anos de idade, apresentado por uma amiga mais velha três ou quatro anos. “Me lembro quando fui pela primeira vez numa casa underground, no Madame Satã, ali na… na Bela Vista, eu acho. Fiquei do lado de fora até umas duas ou três horas da amanhã porque só podia entrar maior. Mas ai a Rosângela (sua amiga) – que não tá mais entre a gente, infelizmente; trocou uma ideia com o segurança e, quando a casa deu uma esvaziada, eu entrei mesmo assim.”

Fábio conta que pirou naquilo tudo na hora. O ambiente, a luz, a decoração e as pessoas; tudo. Muitos grupos frequentavam aqueles locais: eram punks, anarquistas, skinheads, góticos, e outras subdivisões como punk vitrine (“punk só no visual”) e os punks da destruição (“que tavam a fim de quebrar tudo mesmo”). Todos eles englobados no movimento geral que era o Underground.

“No começo eu era punk, mas depois fui mais pro dark, pro gótico. Mas tínhamos amigos de tudo quanto era tipo. Não tinha tanta discriminação. Qualquer um que fosse num lugar assim era bem recebido. Mesmo se fosse alguém tipo você, ou um rastafari, sei lá.” Riu, seja lá o que ele queria dizer com alguém como eu.

A cultura punk não se restringia à música, mas estava nas pessoas; aquele temperamento explosivo e a desilusão com o sistema, que tinha mesmo era que “se explodir”. Conta que a ditadura já tinha acabado, mas a repressão ainda existia. Principalmente quando o assunto eram drogas.

“Naquele tempo a gente curtia fumar um baseadinho, tomar vinho e tomar uns ácidos. Mas era uma coisa bem escondida, chocava muito mais as pessoas que viam do que hoje em dia. A gente tinha que se esconder, de todo mundo, e da polícia. Hoje em dia dá até pra falar pras pessoas que elas aceitam; dá pra usar na rua, não que eu também não usasse, mas era bem mais difícil de se ver.”

E por causa disso também eles não eram muito bem vistos pela opinião pública. Os pais de Fábio nunca concordaram muito com o meio que o filho abraçou, mas nunca deixaram de amá-lo ou negaram-lhe moradia; o que aconteceu com alguns de seus amigos. Sempre morou, e mora até hoje, próximo ao Aeroporto de Congonhas. Mas hoje em dia junto com a namorada, Micaella.

“Nos chamavam de vagabundos. Nos jornais éramos tratados como bárbaros que só queriam saber de destruir e se drogar, como se não fôssemos pessoas.” Totalmente injustificado já que Fábio trabalha desde os 15 anos, no mesmo lugar; uma locadora de filmes a quinhentos metros da padaria.

“E foi lá, assistindo muitos filmes, que eu passei pra essa fase mais dark; quando comecei a ouvir Sisters of Mercy (banda inglesa de rock gótico dos anos oitenta) e depois de assistir Nosferatu.” Os detalhes sombrios e de terror do clássico expressionista alemão dos anos trinta tinham tudo a ver com as ideias desses jovens mais de cinquenta anos depois. As coisas não são tão bonitas quanto querem vender para nós. “Há muita coisa ruim, exploração, maldade nesse mundo.” E é, talvez por isso, que aquela gente toda se abstesse de fazer parte daquele mundo pequeno burguês de país de terceiro mundo e escolhesse um movimento mais marginal. Muita gente, segundo Fábio.

“Muita gente mesmo. Quando tinha um show com alguma banda mais conhecida – nossa, cara!; as casas lotavam. Era punk pra tudo que era lado fazendo mosh-pit (aquelas rodinhas de gente se batendo) ou só curtindo.” A violência, para eles, estava relacionada à expressão, e não à maldade; explica. “Já entrei em algumas brigas na rua ou em shows, sim. Mas, só quando eu tava a fim; quando não tava, ficava de fora. Na vida toda só apanhei da minha mãe e da polícia.” Riu tossindo um pouco. Deu largo trago do copo de cerveja gelada.

Mas também não eram poucas as bandas, entre nacionais e internacionais que faziam shows em São Paulo; havia, pelo menos, uma centena. Das mais conhecidas e aos quais esteve presente em apresentações estão: Garotos Podres, Ratos de Porão (ex-banda de João Gordo), Plebe Rude, Legião Urbana, I, e tantas outras. Até Cazuza ele viu cantando, mas “não lembro se na Kaos, na Madame ou alguma outra.”

Porém o melhor show que ele viu foi, com certeza, Sisters Of Mercy na Barra Funda. “Piração, era minha banda favorita fazendo um puta show… e nem tava tão lotado, porque naquela época, sem internet e celular, era mais difícil as pessoas ficarem sabendo das coisas. Eu lembro que eu ia do bar pra frente do palco – mas frente mesmo, até sentia o cuspe do Eldritch (vocalista da banda) em mim. Então… ah é. Nem tava tão cheio, eu conseguia me locomover tranquilamente lá.” Mas, na segunda vinda da banda para São Paulo, em 2009, na Via Funchal, a situação não se repetiu. Fãs do Brasil inteiro lotaram a casa para mais uma épica apresentação da banda, nas palavras de Fábio.

Mas as aventuras que participavam não se resumiam a shows. Gostavam de frequentar outros lugares, como o Centro, em locais como a Galeria do Rock, ou lojas de roupas e discos do estilo. Uma outra localidade, muito mais mórbida, eram os cemitérios. Seja o da Consolação ou o do Araçá. “Eu curtia a arquitetura gótica daqueles… túmulos; a paz que tinha naqueles lugares. Tudo tão quieto, longe daquela loucura da cidade.” Bebiam, fumavam, conversavam e faziam amor por entre lápides e mausóleos, conta.

Mas a vida dele não podia continuar nesse ritmo alucinante. Amadureceu. Com uns vinte anos, quase trinta, diz, deixou de sair tanto com os amigos, e ir a tantos shows. Antes era praticamente todos os dias, depois uma vez por semana, mês; e agora, “estou há uns dez anos sem ver ninguém da turma. Só o Roni, que encontrei semana passada, ele me falou que o Madame Satã reabriu e tá bem legal, do jeitinho que era antes. Você e seus amigos deviam conhecer.”

Fiquei longe da Start Video (a locadora onde trabalhava), por quase dez anos. “Trabalhei como cinegrafista do canal Mulher em Bauru. Comecei a mexer com mesa de som e mixagem, e gravação de áudio em estúdio.” Acompanhou algumas bandas em turnê também, conheceu um pouco do Brasil. Mas era hora de voltar a São Paulo.
“Em noventa e sete, acho, voltei pra cá. Voltei a trabalhar na Start, agora como gerente, e também num estúdio em Alphaville, do meu amigo Wilson.”

Ele realmente tinha crescido, mas sem nunca abandonar o que amava. Cinema, motos e o underground. Parou com a maconha. “Pior bosta que eu fiz foi fumar tanta erva. Se eu não tivesse usado tanto talvez eu não tivesse tanto problema de cabeça, não era tão esquecido, porque, vou te contar Erick, eu não te disse aqui nem dez por cento das coisas. Se eu lembrasse de todas as coisas que fiz, ia ter muita história.”

Depois de tantas lembranças e fluxos de pensamento o sol, que estava perto de se pôr, invadia a padaria cobrindo-nos e ofuscando minha vista. Algumas garrafas de cerveja vazias alinhadas no balcão flagravam o tempo daquela conversa, que, diriam, “entre amigos”, não fosse o gravador denunciando o caráter de entrevista. Fábio Uegarte puxou sua moto e foi para mais algum compromisso com a própria vida. Trabalhar, encontrar a namorada ou simplesmente descansar em casa.

Na minha cabeça só ficou a última coisa que me disse, “o punk não morreu, porque eu vejo até hoje ai a mulekada do mesmo jeito que era no meu tempo. Esse movimento não tem muito registro porque o pessoal tá tudo vivo ai, na ativa.”

*Alguns nomes na narrativa foram modificados para preservar a privacidade do perfilado quanto a assuntos delicados.